O papa Leão XIV enfrenta uma das primeiras grandes crises de seu pontificado após a Fraternidade São Pio X desafiar diretamente a autoridade da Santa Sé ao ordenar quatro bispos sem autorização do Vaticano. A cerimônia, realizada nesta quarta-feira 1º, em Écône, na Suíça, foi classificada pelo Vaticano como um “ato cismático”, situação que pode resultar na excomunhão automática dos envolvidos, conforme prevê o direito canônico.
A ordenação ocorreu apesar de um apelo feito pelo pontífice ao superior da fraternidade, o padre Davide Pagliarani, para que desistisse da cerimônia. Em carta divulgada pela Santa Sé antes do evento, Leão XIV pediu que o grupo “renunciasse ao projeto” e alertou para as consequências da decisão.

Mesmo assim, a fraternidade manteve a programação e consagrou quatro novos bispos — dois franceses, um norte-americano e um suíço — durante uma celebração que reuniu milhares de fiéis de diversos países em Écône, sede internacional da organização.
Segundo o Vaticano, a ordenação episcopal sem mandato pontifício representa uma ruptura formal da comunhão com a Igreja Católica. Além da possibilidade de excomunhão dos novos bispos, a Santa Sé afirma que, em caso de cisma, sacramentos administrados por eles, como casamentos e confissões, deixam de ser reconhecidos oficialmente pela Igreja.
A Fraternidade São Pio X foi fundada em 1970 pelo arcebispo francês Marcel Lefebvre como reação às mudanças promovidas pelo Concílio Vaticano II, realizado entre 1962 e 1965. O concílio representou uma das maiores reformas da Igreja Católica no século XX ao permitir que as missas passassem a ser celebradas nas línguas locais, substituir a celebração voltada para o altar por uma liturgia com o sacerdote voltado para os fiéis e ampliar o diálogo com outras denominações cristãs e religiões.
Para a fraternidade, essas mudanças romperam com a tradição litúrgica da Igreja. O grupo defende a manutenção da missa em latim segundo o rito anterior ao Concílio Vaticano II, a celebração com o sacerdote voltado para o altar e uma interpretação mais rigorosa da doutrina católica.
O confronto entre a organização e o Vaticano, entretanto, não é novo. Em 1988, Marcel Lefebvre ordenou quatro bispos sem autorização do então papa João Paulo II, ignorando um pedido para cancelar a cerimônia. Na ocasião, Lefebvre e os bispos consagrados foram excomungados pela Santa Sé.
Mais de duas décadas depois, em 2009, o papa Bento XVI suspendeu a excomunhão dos quatro bispos em uma tentativa de reaproximação. Apesar da medida, a fraternidade nunca regularizou plenamente sua situação canônica e permaneceu em desacordo com o Vaticano sobre diversos aspectos das reformas introduzidas pelo Concílio Vaticano II.
A nova ordenação sem autorização pontifícia reabre um impasse que atravessou seis pontificados e volta a colocar em evidência as divisões entre setores tradicionalistas e a liderança da Igreja Católica. O episódio também representa um teste para o início do governo de Leão XIV, que precisará definir como conduzir a relação com um dos movimentos mais críticos às mudanças implementadas pela Igreja nas últimas décadas.
Embora o Vaticano mantenha canais de diálogo com integrantes da Fraternidade São Pio X, a decisão de realizar as novas ordenações sem o consentimento da Santa Sé é considerada uma afronta direta à autoridade papal e pode dificultar ainda mais qualquer tentativa de reconciliação institucional entre as duas partes.