Reduzir o consumo de açúcar é uma recomendação presente em praticamente todas as diretrizes de alimentação saudável. No entanto, um estudo recente levanta dúvidas sobre os efeitos de eliminar completamente esse nutriente da dieta. Segundo a pesquisa, uma restrição extrema pode causar alterações no funcionamento do intestino e do metabolismo, produzindo efeitos opostos aos esperados.
Os próprios autores, porém, fazem uma ressalva importante. O experimento foi realizado exclusivamente com animais e envolveu uma amostra bastante limitada, composta por apenas seis camundongos. Além disso, os pesquisadores lembram que o sistema digestivo dos roedores apresenta diferenças significativas em relação aos dos seres humanos. Por isso, os resultados não podem ser aplicados diretamente à população, mas servem como um indicativo para futuras investigações sobre os impactos de dietas muito restritivas.

A pesquisa também chama atenção em um momento em que cresce a popularidade do chamado clean eating, conceito baseado na busca por uma alimentação considerada mais natural e livre de determinados ingredientes, entre eles o açúcar.
A preocupação não surgiu por acaso. Diversos estudos científicos já associaram o consumo elevado de açúcar adicionado ao aumento da obesidade, do diabetes tipo 2 e de outras doenças metabólicas. Em razão dessas evidências, órgãos de saúde passaram a recomendar a redução do açúcar presente principalmente em alimentos ultraprocessados.
Grande parte das pessoas que consomem produtos industrializados ingere quantidades elevadas de açúcar sem perceber. Refrigerantes, biscoitos, cereais matinais, molhos e diversos outros alimentos apresentam o ingrediente em níveis elevados, favorecendo o excesso calórico e aumentando o risco de doenças crônicas.
Esse cenário acabou fortalecendo a ideia de que retirar totalmente o açúcar da alimentação seria a alternativa mais saudável. O novo estudo, entretanto, sugere que essa lógica pode não funcionar quando levada ao extremo. Segundo os pesquisadores, excluir completamente uma categoria de nutrientes pode provocar consequências inesperadas, especialmente para o funcionamento do intestino.
Durante o experimento, os camundongos submetidos a uma alimentação totalmente livre de açúcar não apresentaram ganho de peso. Sob os indicadores tradicionais de saúde, pareciam metabolicamente saudáveis. Entretanto, análises mais detalhadas mostraram um quadro bastante diferente.
Embora permanecessem magros, os animais desenvolveram alterações hormonais que indicavam comprometimento da saúde intestinal. Além disso, perderam eficiência para retirar glicose da corrente sanguínea, um dos mecanismos fundamentais para o equilíbrio metabólico.
Os resultados sugerem que uma pessoa pode apresentar peso considerado adequado e, ainda assim, desenvolver alterações importantes no metabolismo caso o equilíbrio da microbiota intestinal seja comprometido. Os pesquisadores explicam que esse processo está diretamente relacionado às bactérias que habitam naturalmente o trato digestivo.
Parte desses microrganismos considerados benéficos utiliza açúcares simples como fonte de energia. Durante a digestão dos carboidratos, essas bactérias produzem compostos químicos essenciais para manter a integridade da parede intestinal, favorecer a absorção de nutrientes e estimular a liberação de hormônios relacionados ao controle do apetite e da resposta do organismo à insulina.
Quando esses compostos deixam de ser produzidos, as células responsáveis pelo revestimento interno do intestino perdem uma importante fonte de energia. Como consequência, a barreira intestinal começa a apresentar sinais de deterioração.
Outro efeito observado foi a redução de bactérias consideradas importantes para o funcionamento adequado do sistema imunológico. Com a diminuição desses microrganismos benéficos, outras bactérias, mais resistentes às condições adversas, passam a ocupar esse espaço. Essa alteração favorece o chamado intestino permeável.
Nessa condição, substâncias produzidas por bactérias potencialmente prejudiciais conseguem atravessar uma parede intestinal fragilizada, alcançar a circulação sanguínea e desencadear respostas inflamatórias do sistema imunológico.
Os pesquisadores destacam, entretanto, que a dieta utilizada durante o experimento apresentava outra característica importante: além de não conter açúcar, também possuía baixo teor de gordura.
Esse padrão alimentar difere bastante da dieta predominante em países ocidentais, normalmente caracterizada pelo consumo elevado de gorduras e açúcares. Por esse motivo, os autores reforçam que as conclusões não significam que pessoas que atualmente ingerem excesso de calorias, gordura e açúcar devam voltar a consumir grandes quantidades desse ingrediente.
Ao contrário, reduzir o açúcar continua sendo uma recomendação válida para indivíduos cuja alimentação apresenta excesso de produtos ultraprocessados. O principal alerta da pesquisa diz respeito aos riscos de eliminar completamente qualquer fonte de açúcar da dieta.
Segundo os pesquisadores, um organismo saudável depende de uma microbiota intestinal diversificada e bem nutrida. Para isso, é necessário oferecer diferentes tipos de nutrientes capazes de sustentar o equilíbrio das bactérias intestinais. Como orientação prática, os especialistas recomendam ampliar a variedade de alimentos consumidos diariamente.
Em vez de retirar todos os carboidratos da alimentação, a recomendação é priorizar frutas, verduras, legumes e grãos integrais. Esses alimentos fornecem fibras e açúcares naturais que ajudam a manter a diversidade da microbiota intestinal.
Os autores ressaltam que o estudo mostrou que a sacarose — o açúcar de mesa — pode contribuir para a sobrevivência de determinadas bactérias intestinais. Isso, porém, não significa que alimentos ultraprocessados ricos em açúcar devam ser incorporados à dieta. A orientação continua sendo priorizar frutas e hortaliças, que fornecem sacarose naturalmente, juntamente com vitaminas, minerais, fibras e diversos outros compostos benéficos ao organismo.
Outra recomendação apresentada pelos pesquisadores é estimular a recuperação da microbiota intestinal após dietas muito restritivas.
Nesse caso, alimentos fermentados podem favorecer o restabelecimento das bactérias benéficas presentes no intestino. Entre as opções citadas estão kefir, chucrute e iogurtes que contenham culturas vivas.