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Saúde

27 milhões convivem com enxaqueca sem diagnóstico

Pesquisa aponta que desconhecimento da doença, automedicação e dificuldade de acesso a especialistas mantêm milhões de brasileiros sem o diagnóstico correto da enxaqueca
Por O Correio de Hoje
30/06/2026 | 13:37

A enxaqueca pode afetar milhões de brasileiros sem que eles saibam exatamente qual é a origem das dores que enfrentam. Estimativa de uma pesquisa realizada pela farmacêutica Teva Brasil, com apoio da Associação Brasileira de Cefaleia em Salvas e Enxaqueca (Abraces), indica que aproximadamente 27 milhões de pessoas convivem com a doença sem diagnóstico médico. O levantamento mostra que o desconhecimento sobre a condição, a automedicação e o acesso limitado a especialistas contribuem para a subnotificação e retardam o início do tratamento adequado.

Hoje, o Brasil reúne cerca de 23 milhões de pessoas com diagnóstico confirmado de enxaqueca. Os números sugerem que, para cada paciente que sabe conviver com a doença, existe outro que apresenta sintomas compatíveis, mas ainda permanece sem acompanhamento médico. Especialistas alertam que a demora na identificação da enfermidade pode favorecer a progressão do quadro e aumentar o impacto sobre a qualidade de vida.

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Tratamento adequado pode evitar a progressão da enxaqueca e reduzir o impacto das crises na qualidade de vida - Foto: magnific

A empresária Marina Goulart, de 45 anos, conhece bem essa realidade. As primeiras dores de cabeça surgiram quando ela tinha cerca de 14 anos, durante a adolescência. Na época, acreditava que os episódios faziam parte das mudanças típicas da idade, mas, com o passar do tempo, as crises se tornaram cada vez mais frequentes e intensas.

As repetidas visitas a prontos-socorros e o uso constante de medicamentos não resolveram o problema. Sem orientação adequada, Marina recorria aos analgésicos na tentativa de controlar a dor. “Cheguei a tomar uma cartela inteira de analgésico num dia só”, afirma.

Somente anos depois ela descobriria que aquelas dores não eram simples cefaleias, mas manifestações de uma doença neurológica. A experiência vivida por Marina ilustra uma dificuldade comum enfrentada por muitos pacientes: distinguir uma dor de cabeça ocasional de uma enxaqueca.

Segundo o presidente da Abraces, Mário Peres, a diferença entre as duas condições é fundamental. Enquanto a dor de cabeça representa um sintoma, a enxaqueca é uma doença neurológica. Já a enxaqueca crônica corresponde à forma mais grave da enfermidade e é caracterizada por crises que ocorrem em mais de 15 dias por mês durante, pelo menos, três meses consecutivos.

“As crises costumam provocar dores de intensidade moderada a forte, geralmente em um dos lados da cabeça, com sensação pulsátil. Também são comuns sintomas como sensibilidade à luz (fotofobia) e ao som, náuseas e vômitos”, detalha.

A pesquisa foi dividida em duas etapas. A primeira, conduzida pela Ipsos-Ipec, ouviu 2 mil pessoas distribuídas em 132 municípios brasileiros, respeitando critérios de sexo, idade, região, escolaridade, cor autodeclarada e atividade profissional, conforme dados do Censo Demográfico de 2022 e da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNADC) de 2023. A segunda fase reuniu entrevistas com 408 pessoas que já possuíam diagnóstico formal de enxaqueca.

Entre os fatores apontados para explicar o elevado número de pessoas sem diagnóstico estão o desconhecimento sobre a doença, a prática da automedicação e a dificuldade de acesso ao atendimento especializado. Para Mário Peres, existe ainda outro elemento importante: a enxaqueca faz parte do grupo das chamadas doenças invisíveis. “Não existe um exame de sangue ou imagem que confirme a enxaqueca. O diagnóstico depende do relato do paciente”, afirma.

Marina percorreu um longo caminho até receber a confirmação da doença. Ela passou por consultas com neurologistas, realizou diversos exames e ouviu diferentes hipóteses para explicar as crises. O diagnóstico definitivo veio apenas por volta dos 18 anos. Ainda assim, ela afirma que não recebeu a orientação necessária para controlar a doença. “Recebi o diagnóstico, mas não um tratamento específico.”

De acordo com Peres, quando o tratamento preventivo não é iniciado no momento adequado, a tendência é que as crises se tornem mais frequentes e incapacitantes. Além do aumento da intensidade dos episódios, a evolução da doença pode estar associada a outros problemas de saúde, como ansiedade, depressão e distúrbios do sono. Por esse motivo, pacientes que apresentam crises recorrentes devem ser avaliados para a adoção de terapias preventivas.

Os resultados do levantamento também mostram que a enxaqueca atinge principalmente as mulheres. Elas representam 75% das pessoas que já receberam diagnóstico e correspondem a 63% daqueles que apresentam sintomas compatíveis com a doença, mas ainda aguardam confirmação médica. Segundo Mário Peres, essa maior incidência feminina está relacionada à combinação de fatores hormonais, genéticos e sociais. As oscilações dos níveis de estrogênio exercem influência direta sobre o surgimento das crises, enquanto a predisposição hereditária favorece o desenvolvimento da doença. Soma-se a isso a sobrecarga enfrentada por muitas mulheres, que conciliam responsabilidades profissionais, tarefas domésticas e cuidados familiares, situação que pode aumentar a frequência dos episódios.

Na rotina de Marina, os impactos iam muito além da dor. Durante algumas crises, a fotofobia era tão intensa que ela sequer conseguia olhar para a tela do celular. Mesmo assim, continuava trabalhando sempre que possível. “Existe o sofrimento de não conseguir fazer as coisas, mas também o de sentir culpa. Você pensa: Meu Deus, estou com dor de cabeça de novo.”

Enquanto milhares de brasileiros ainda aguardam diagnóstico, novas opções terapêuticas chegam ao mercado. Recentemente, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou o registro do Nurtec ODT, medicamento à base de rimegepanto indicado tanto para o tratamento das crises quanto para a prevenção da enxaqueca. O medicamento atua bloqueando a proteína CGRP, diretamente envolvida nos mecanismos da doença. Nos estudos clínicos, aproximadamente 20% dos pacientes que utilizaram o remédio ficaram livres da dor duas horas após a administração. Nos protocolos voltados à prevenção, também foi observada redução da frequência mensal das crises.

Para a neurologista Thaís Villa, especialista em diagnóstico e tratamento da enxaqueca, a nova terapia representa um avanço em comparação com medicamentos tradicionalmente utilizados. “É uma medicação desenvolvida especificamente para a enxaqueca, com melhor perfil de tolerabilidade do que analgésicos, anti-inflamatórios e triptanos”, afirma.

Apesar dos resultados positivos, a médica ressalta que o medicamento não é indicado para todos os pacientes. Pessoas com hipersensibilidade ao princípio ativo ou a componentes da fórmula não devem utilizá-lo. Pacientes com insuficiência renal ou hepática também precisam passar por avaliação médica antes de iniciar o tratamento.

Thaís Villa destaca ainda que não existe uma única abordagem válida para todos os casos. “Fatores como frequência das crises, perfil clínico do paciente, adesão ao tratamento e custo-benefício precisam ser considerados antes da definição terapêutica”, explica.

No caso de Marina, somente por volta dos 39 anos ela iniciou um tratamento específico para controlar a doença. Além do uso de medicamentos, adotou mudanças de hábitos, incluindo a prática regular de atividade física e horários fixos para dormir e acordar.

Quando finalmente conseguiu atendimento com um especialista em cefaleia, a enxaqueca já havia evoluído para a forma crônica.