A hipertensão arterial e o diabetes continuam sendo os principais responsáveis pela doença renal crônica que leva pacientes à hemodiálise. Segundo o nefrologista Bráulio Figueiredo, entre 70% e 80% dos casos de diálise estão relacionados às duas doenças, que podem ser identificadas e controladas precocemente, reduzindo o risco de perda da função dos rins.
Durante entrevista à 94 FM Natal, o especialista afirmou que a hipertensão é a principal causa de doença renal no Brasil, enquanto o diabetes lidera esse quadro em nível mundial. “Diabetes com hipertensão [representam] entre 70% a 80% das causas de hemodiálise no mundo. Nós estamos falando que a pressão alta é a primeira causa de doença renal no Brasil e a diabetes é a primeira causa no mundo que faz os pacientes perderem o rim e entrarem em diálise. Isso é assustador porque são doenças que você pode avaliar precocemente.”

O médico explicou que a doença renal é considerada uma “assassina silenciosa” porque pode comprometer grande parte da função dos rins antes do surgimento de qualquer sintoma. “Porque você pode perder 70% do seu rim e não sentir absolutamente nada. Isso é assustador.”
Segundo ele, a ausência de dor ou alterações na urina não significa que os rins estejam saudáveis. “Não existe aquilo: ‘eu não estou sentindo nada, eu urino bem, não sinto dor no rim, então meu rim está bem’. Não existe isso. Você pode perder 70% da função renal e não sentir absolutamente nada.”
Os sintomas costumam aparecer apenas em fases avançadas da doença. “Quando o paciente tem menos de 20%, 15% da função renal, ele pode ter inchaço nas pernas, fraqueza, enjoo, náusea, não querer se alimentar direito, picos de pressão. Mas isso é uma fase extremamente avançada, já perto do estágio 5 de falência renal.”
Para evitar que a doença seja descoberta apenas em estágio avançado, Bráulio Figueiredo defendeu a realização periódica de exames simples, disponíveis inclusive pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Segundo ele, quatro exames são suficientes para iniciar a investigação da função renal.
“O primeiro deles é o exame de creatinina no sangue. Segundo, o sumário de urina simples. É uma ferramenta importantíssima: eu posso ver se tem inflamação renal, sangramento, perda de proteína, infecções urinárias e cristais num simples exame de urina.”
“O terceiro exame é a microalbuminúria. Tem pacientes diabéticos cuja primeira manifestação da doença renal é a perda de proteína na urina. Muitas vezes a função renal ainda está boa, a creatinina ainda está boa, mas ele perde um pouquinho de proteína.”
“O quarto exame é o ultrassom de rim ou ultrassom de abdômen total, porque aí eu vou ver se tem cálculo, se tem cisto, se tem dilatação, qual é o formato desse rim. É um exame simples e de baixo custo.”
O especialista destacou que qualquer médico pode solicitar esses exames. “Com esses quatro exames, qualquer médico, qualquer especialista, qualquer clínico pode solicitar para avaliar a função renal de forma mais segura e precoce.”
Além da hipertensão e do diabetes, a idade e a obesidade também contribuem para o desenvolvimento da doença renal. “Com o ‘boom’ da obesidade, isso multiplica, porque quando você aumenta o peso corpóreo, aumenta os fatores metabólicos, aumenta a prevalência de hipertensão, aumenta a diabetes e isso provoca o aumento da doença renal.”
Ele explicou que a perda da função renal ocorre naturalmente com o envelhecimento. “A partir dos 40 anos a gente começa fisiologicamente a perder um pouquinho da nossa função renal.”
Segundo o nefrologista, essa perda é acelerada quando há doenças associadas. “Quando você coloca uma hipertensão que não é controlada, uma diabetes que não é controlada, infecções urinárias frequentes, cálculos renais mal tratados e obstrutivos, isso acelera a perda da função renal e muitas vezes a pessoa não sabe porque não fez um simples exame.”
O consumo elevado de sal, comum na alimentação nordestina, também foi apontado como um dos principais fatores de risco para doenças renais. “O sal é um grande vilão. Está na base da cultura nordestina, com comidas muito salgadas, embutidos, enlatados, churrascos e feijoadas.”
Segundo ele, além de favorecer a hipertensão, o excesso de sódio aumenta o risco de formação de cálculos renais. “Quem faz uma ingestão de sal em excesso é um dos principais candidatos a formar pedra nos rins com muito mais facilidade.”
O nefrologista também fez um alerta para o uso indiscriminado de anti-inflamatórios. “Principalmente os anti-inflamatórios não hormonais. Vamos citar alguns exemplos: nimesulida, ibuprofeno e diclofenaco.” Segundo ele, muitos desses medicamentos são comprados sem prescrição médica. “O anti-inflamatório é uma das causas de alteração da função renal.”
Bráulio Figueiredo afirmou que, embora muitos pacientes consigam trabalhar durante o tratamento, a hemodiálise provoca limitações importantes. Ele lembrou que o tratamento exige permanência em uma máquina por várias horas semanalmente.
Além das restrições na rotina, o médico ressaltou que a doença provoca diversas complicações. “A própria doença vai debilitando ao longo do tempo: doença mineral óssea, problemas hematológicos, doenças cardíacas.”
Segundo ele, o impacto financeiro também é elevado. “O SUS gasta em média R$ 4 a R$ 5 bilhões por ano só em hemodiálise. Na última década foram R$ 30 bilhões de gasto com o SUS, e o dano humano é, sem dúvida nenhuma, muito grande.”
O nefrologista destacou que o transplante renal representa uma possibilidade de deixar a hemodiálise, embora não seja considerado cura definitiva da doença renal crônica. “O transplante é, sim, uma forma de sair da máquina, porém é outra modalidade de tratamento da doença renal crônica.”
Ele explicou que existem diferentes formas de tratamento conforme o estágio da doença. “Tem a modalidade conservadora, as modalidades de diálise — diálise peritoneal e hemodiálise — e o transplante renal.”
Segundo Bráulio, após a recuperação inicial da cirurgia, os pacientes costumam apresentar melhora significativa na qualidade de vida. Ele ressaltou que, nos primeiros meses, há maior risco de infecções devido ao uso de imunossupressores.
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