Reconhecido internacionalmente por seus estudos sobre neurobiologia vegetal, o cientista italiano Stefano Mancuso afirma que a humanidade ainda subestima as capacidades do reino vegetal. Em seu novo livro, Fitópolis — A cidade viva, o pesquisador propõe que a forma como as plantas se organizam, se comunicam e sobrevivem pode servir de inspiração para enfrentar desafios ambientais, sociais e urbanos do século XXI.
Autor de obras como A Incrível Viagem das Plantas e O Mundo das Plantas, Mancuso tornou-se um dos principais divulgadores da ideia de que os vegetais possuem formas complexas de inteligência, memória, percepção e tomada de decisões, ainda que funcionem de maneira completamente diferente da observada nos animais.

Professor da Universidade de Florença e um dos fundadores da neurobiologia vegetal, o pesquisador esteve recentemente no Brasil para participar de palestras no Rio de Janeiro e em São Paulo, além de acompanhar a abertura da exposição Revolução das Plantas, em cartaz no Centro de Ciências e Cultura.
Durante entrevista, Mancuso voltou a defender que compreender melhor o funcionamento das plantas pode abrir novos caminhos para a ciência, a arquitetura, o urbanismo e até mesmo para a organização das sociedades humanas.
Ao longo das últimas décadas, Stefano Mancuso dedicou sua carreira a demonstrar que plantas são capazes de perceber alterações no ambiente, memorizar estímulos, aprender e modificar seu comportamento conforme as condições ao redor. Segundo ele, a principal dificuldade para aceitar essa ideia está na forma como os seres humanos definem inteligência.
“A ciência tradicional trata as plantas como organismos passivos porque as vê com parâmetros de fazer qualquer coisa. Nós projetamos, achamos que as plantas não podem ver porque não têm olhos, não podem ouvir porque não têm ouvidos, ou não podem pensar porque não têm cérebro. Mas, para mim, ensinam que imaginar que a inteligência seja apenas o resultado de um órgão como o cérebro. Vamos colocar em perspectiva: só os animais têm cérebro e eles representam apenas 0,3% do planeta. Já as plantas formam 85%. Me recuso a acreditar que esse 85% seja estúpido.”
Para o pesquisador, o desenvolvimento das plantas demonstra que inteligência pode surgir por outros mecanismos além do cérebro.
Outro ponto defendido por Mancuso é a forma como o reino vegetal organiza suas funções. Enquanto animais concentram decisões em um sistema nervoso central, as plantas distribuem suas atividades por diferentes partes do organismo.
Segundo ele, essa característica oferece uma importante lição para sociedades cada vez mais complexas.
“Nós somos organizados de forma primitiva. Nas plantas, não há hierarquia, as decisões são tomadas no nível exato onde os problemas acontecem.”
O cientista afirma que essa estrutura descentralizada torna as plantas mais resistentes a mudanças ambientais e danos físicos.
Em seu novo livro, Mancuso também questiona uma das interpretações mais tradicionais da teoria da evolução. Segundo ele, embora a competição tenha recebido grande destaque ao longo da história da biologia, a cooperação desempenha papel igualmente importante para a sobrevivência das espécies.
O pesquisador considera que essa visão pode inspirar novas formas de organização social. Para ilustrar essa ideia, cita obras recentes como Na Nação das Plantas, em que propõe princípios políticos inspirados no funcionamento do reino vegetal, e Fitópolis, que imagina cidades organizadas como ecossistemas vivos.
Os estudos conduzidos por Mancuso também revelam que plantas trocam informações continuamente. Segundo ele, raízes conseguem identificar obstáculos antes mesmo do contato físico, modificando o crescimento para contorná-los. Essa comunicação ocorre por meio de sinais químicos distribuídos por todo o organismo.
“As experiências do cientista abriram caminho para uma engenharia inspirada em plantas.” O pesquisador explica que esse mecanismo funciona como uma linguagem própria do reino vegetal.
“Existe uma ‘linguagem vegetal’: uma troca constante de informações complexas via moléculas químicas, permitindo-lhes pedir socorro e emitir alertas umas às outras.”
As descobertas da neurobiologia vegetal também vêm sendo aplicadas no desenvolvimento de novas tecnologias. Em 2005, o Laboratório Internacional de Neurobiologia Vegetal (LINV), coordenado por Mancuso, desenvolveu um androide baseado em raízes para analisar informações do ambiente.
O equipamento reproduz estratégias utilizadas pelas plantas para explorar o solo e adaptar seu crescimento às condições encontradas.
Embora suas ideias ainda provoquem debates dentro da comunidade científica, Stefano Mancuso afirma que a humanidade pode ampliar sua compreensão sobre inteligência ao observar organismos que dominam o planeta há centenas de milhões de anos.
Para ele, o excesso de confiança na superioridade humana impede que muitas descobertas sejam valorizadas.
“Nosso ego não reconhece as habilidades das plantas.”
Segundo o pesquisador, compreender a forma como o reino vegetal coopera, distribui funções e responde aos desafios ambientais pode contribuir para o desenvolvimento de cidades mais sustentáveis, tecnologias mais eficientes e modelos sociais menos centralizados.
Em sua avaliação, aprender com as plantas não significa copiar seu funcionamento, mas reconhecer que milhões de anos de evolução produziram soluções que ainda podem oferecer respostas para problemas contemporâneos enfrentados pela humanidade.