A Apple anunciou nesta quinta-feira 25, um reajuste nos preços de parte de sua linha de computadores e tablets, tornando-se uma das primeiras grandes fabricantes globais de eletrônicos a repassar aos consumidores o aumento dos custos de componentes provocado pela expansão da infraestrutura de inteligência artificial. A empresa elevou os preços de iPads, MacBooks, HomePods e Apple TV, mas manteve, por ora, os valores do iPhone. O anúncio foi acompanhado por queda de quase 5% das ações da companhia, enquanto os papéis da Dell recuavam mais de 8% diante da expectativa de que outras fabricantes também sejam pressionadas a elevar preços.
Segundo a Apple, o reajuste decorre da rápida valorização dos chips de memória e armazenamento utilizados em computadores, tablets e smartphones. A companhia afirmou que vinha absorvendo o aumento dos custos para preservar sua competitividade, mas informou que essa estratégia deixou de ser sustentável. “Nunca vimos um aumento no preço de componentes tão grande e tão rápido. Até agora conseguimos proteger nossos clientes desses aumentos, mas chegamos a um ponto em que precisamos começar a elevar os preços de diversos produtos”, afirmou a empresa em comunicado.

O impacto atingiu principalmente os computadores da linha Mac. O MacBook Neo, lançado em março para disputar espaço no segmento de notebooks de entrada, passou de US$ 599 para US$ 699. O MacBook Air com 512 GB teve o preço elevado de US$ 1.099 para US$ 1.299, enquanto o MacBook Pro com 1 TB subiu de US$ 1.699 para US$ 1.999. Entre os tablets, o iPad Air de 128 GB passou de US$ 599 para US$ 749. Os reajustes também alcançaram as duas versões do HomePod e o Apple TV.
O aumento reduz uma das principais vantagens competitivas do MacBook Neo. Até então, o equipamento era comercializado por um valor US$ 100 inferior ao do Dell XPS 13 e concorria diretamente com notebooks de entrada equipados com Windows e Chromebooks. Com o novo preço, o modelo perde parte do apelo para consumidores sensíveis a preço e passa a enfrentar concorrência direta em uma faixa de mercado mais disputada.
A pressão sobre os custos decorre da reorganização da cadeia global de semicondutores impulsionada pela inteligência artificial. Fabricantes de memória, como a Micron, passaram a priorizar contratos com empresas responsáveis por aceleradores de IA, entre elas a Nvidia, reduzindo a disponibilidade de componentes para fabricantes tradicionais de computadores e dispositivos móveis. Na quarta-feira 24, a Micron informou ter fechado US$ 22 bilhões em contratos de fornecimento de longo prazo para atender à crescente demanda por memória destinada a data centers.
O movimento provocou uma forte valorização dos chips de memória DRAM, utilizados na maior parte dos equipamentos eletrônicos. Segundo a consultoria TrendForce, os preços subiram até 98% no primeiro trimestre de 2026 e deverão avançar entre 58% e 63% no trimestre atual. O fenômeno, apelidado pelo mercado de “RAMageddon”, reflete a corrida das empresas de tecnologia para ampliar a capacidade computacional necessária ao treinamento e à operação de modelos de inteligência artificial.
A Apple já havia sinalizado essa pressão durante a divulgação de resultados do trimestre encerrado em março. Na ocasião, o CEO Tim Cook afirmou que a companhia esperava um aumento expressivo nos custos de memória a partir do fim de junho e alertou que o impacto poderia se intensificar ao longo dos próximos trimestres. A empresa, porém, não detalhou quais medidas adicionais pretende adotar para compensar o avanço das despesas além dos reajustes anunciados.
Para analistas do setor, a decisão da Apple pode antecipar um movimento mais amplo na indústria de eletrônicos. Ben Bajarin, CEO da consultoria Creative Strategies, afirmou que o mercado de memória continuará estruturalmente pressionado no futuro próximo. Segundo ele, se uma empresa reconhecida pela eficiência de sua cadeia global de suprimentos precisou reajustar preços, concorrentes com menor poder de negociação tendem a enfrentar um cenário ainda mais desafiador.
A expectativa também é de que os iPhones sejam afetados em um segundo momento. Nabila Popal, diretora sênior de pesquisas da IDC, avalia que a empresa optou por reajustar inicialmente Macs e iPads para evitar que um eventual aumento no preço da próxima geração de smartphones ofusque as novidades previstas para o lançamento. “O iPhone não escapará; o aumento de preço está a caminho”, afirmou.
A elevação dos custos de componentes já começa a influenciar as projeções para o mercado global de tecnologia em 2026. A IDC estima que as vendas mundiais de smartphones registrem a maior retração anual da história, com queda próxima de 14%, enquanto o mercado de computadores deverá recuar 11,3%. O avanço da inteligência artificial, que impulsiona investimentos recordes em data centers e semicondutores de alto desempenho, passa a produzir um efeito colateral sobre a eletrônica de consumo ao encarecer componentes fundamentais para praticamente todos os dispositivos vendidos no mercado.