BUSCAR
BUSCAR
Diplomacia

Trump critica Brasil e cita Bolsonaro

Presidente dos EUA relata conversa com Lula no G7, faz críticas ao cenário político brasileiro e comete equívoco ao comentar situação de Eduardo Bolsonaro
Por O Correio de Hoje
18/06/2026 | 13:58

A participação do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, na cúpula do G7, realizada em Evian, na França, abriu um novo capítulo nas tensões diplomáticas entre Washington e Brasília. Questionado por uma jornalista brasileira sobre sua relação com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e sobre temas sensíveis da agenda bilateral, Trump afirmou ter conversado longamente com o chefe de Estado brasileiro, mas aproveitou a oportunidade para fazer críticas ao ambiente político do país.

“Sim, eu passei bastante tempo com ele [Lula], na verdade”, afirmou o presidente norte-americano ao ser questionado pela repórter Bianca Rothier, da TV Globo, sobre uma possível conversa envolvendo as tarifas impostas pelos Estados Unidos a produtos brasileiros e a discussão sobre a eventual classificação do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas.

Trump 15 Copia
Trump desdenha sobre cenário político brasileiro, confunde Eduardo e Flávio Bolsonaro e recebe recado de Lula - Foto: Reprodução / Internet

Trump não detalhou o conteúdo do encontro, mas em seguida avaliou que o Brasil atravessa um momento de instabilidade política.

“Tornou-se um país um pouco complicado, não é? Politicamente. Tem sido um pouco perigoso politicamente”, declarou.

As afirmações ocorreram em meio ao agravamento das divergências entre os dois países em temas comerciais e institucionais.

Ao comentar o cenário eleitoral brasileiro, o presidente norte-americano demonstrou desconhecimento sobre fatos recentes da política nacional e confundiu os filhos do ex-presidente Jair Bolsonaro. Trump afirmou ter sido informado de que “Bolsonaro Jr.” teria sido preso por declarações feitas no Texas e que estaria liderando pesquisas eleitorais. A informação, contudo, não corresponde à realidade.

A confusão ocorreu um dia após a Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal condenar o deputado federal cassado Eduardo Bolsonaro por tentativa de interferência em processo relacionado ao julgamento da trama golpista investigada pela Corte. Apesar da condenação, o processo ainda não transitou em julgado, o que significa que não há ordem de prisão em vigor. Eduardo permanece nos Estados Unidos.

Além disso, o parlamentar não é apontado como pré-candidato à Presidência da República. O nome mais frequentemente associado a uma eventual candidatura ligada ao grupo político bolsonarista é o do senador Flávio Bolsonaro, que não responde ao processo mencionado por Trump.

Durante a entrevista, o presidente norte-americano também fez uma comparação entre a situação política brasileira e as disputas eleitorais dos Estados Unidos.

“Eles jogam duro, mas ninguém joga mais duro do que os Estados Unidos. Nossas eleições são totalmente roubadas”, afirmou.

A declaração retoma alegações recorrentes de Trump sobre o processo eleitoral norte-americano, contestadas por autoridades eleitorais e decisões judiciais nos Estados Unidos após as eleições de 2020.

A resposta do governo brasileiro veio poucas horas depois. Em entrevista coletiva, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que Trump conhece pouco a realidade brasileira e sugeriu que a percepção do norte-americano estaria sendo influenciada por integrantes da família Bolsonaro.

Lula também disse esperar que os Estados Unidos não interfiram no processo eleitoral brasileiro.

O presidente brasileiro acrescentou que não vê necessidade de uma conversa bilateral neste momento, uma vez que as negociações entre os dois países seguem ocorrendo pelos canais diplomáticos e comerciais já estabelecidos. Segundo Lula, não houve solicitação formal de reunião reservada com Trump durante a cúpula.

As declarações ocorrem em um momento de relações delicadas entre Brasília e Washington. Além das discussões sobre tarifas comerciais, os governos acompanham temas ligados à segurança pública, à cooperação judicial e ao cenário político regional.

A troca de críticas públicas evidencia que, apesar da manutenção dos canais institucionais, persistem divergências relevantes entre os dois líderes.

O episódio também reforça o peso crescente da política interna brasileira no debate internacional. Ao citar processos judiciais envolvendo aliados de Jair Bolsonaro e comentar possíveis candidaturas para 2026, Trump levou para o palco diplomático temas que permanecem no centro da disputa política nacional, ampliando a repercussão internacional de questões que seguem sendo discutidas no Judiciário e no ambiente eleitoral brasileiro.