BUSCAR
BUSCAR
Saúde

Bets ampliam compulsão e dívidas, aponta psiquiatra

Hugo Sailly relaciona desigualdade social, endividamento e apostas eletrônicas ao aumento de transtornos mentais e defende ações de prevenção
Por O Correio de Hoje
18/06/2026 | 13:04

A desigualdade social, a pobreza, o endividamento e a popularização das apostas eletrônicas estão entre os fatores que contribuem para o agravamento dos problemas de saúde mental no Brasil. O alerta foi feito pelo psiquiatra Hugo Sailly durante entrevista ao Jornal da Cidade, da 94 FM Natal, nesta quarta-feira 17.

Ao comentar os impactos das condições econômicas sobre a saúde mental, o médico afirmou que a desigualdade social é um importante fator de risco para o adoecimento psíquico. Segundo o psiquiatra, dificuldades financeiras cotidianas já são capazes de provocar sofrimento emocional. Quando a situação envolve necessidades básicas, os impactos podem ser ainda mais graves.

Jogos Online Apostas Bets (8) Copia
Acesso às apostas facilita a compulsão - Foto: José Aldenir

“Qualquer pessoa, se passa por alguma dificuldade, vê que a conta vai atrasar, o boleto está chegando, não consegue ir, por exemplo, para uma festa de lazer que precisa. Imagine quando a gente fala de subsistência básica, de você realmente não conseguir pagar uma feira, comprar um remédio para um filho que está doente. Isso é muito fácil, esse estado de estresse crônico adoece muito, leva à depressão, aumenta o risco de suicídio”, afirmou.

Hugo Sailly também destacou um dado relacionado à capital potiguar.

“Infelizmente, Natal é a capital do Nordeste com o maior nível de pessoas com depressão no Nordeste”, disse.

O médico comentou a relação entre dificuldades financeiras e o comportamento de pessoas que recorrem às apostas esportivas e jogos online na tentativa de complementar a renda ou resolver problemas econômicos.

Segundo ele, os efeitos da legalização das apostas já são observados nos consultórios.

“Esse transtorno por jogos, a gente já conhece bem, a gente já vê isso rapidamente depois que foram legalizadas. A gente começou a receber muito rapidamente pessoas com perdas financeiras. Inicialmente, inclusive, pessoas com bom poder aquisitivo, pacientes que já perderam R$ 100 mil até R$ 1 milhão”, relatou.

Para o especialista, a facilidade de acesso é um dos principais fatores que favorecem o desenvolvimento da compulsão por apostas.

“O problema do transtorno por jogo é a facilidade de acesso. Você está lá no celular, trabalhando, mas apostando. Se eu perder, eu tento repor aquela perda. E aí, nisso, eu vou pegando, colocando no cartão de crédito, vou fazendo empréstimo. A bola de neve vai aumentando. E aí, você se vê numa situação de acha que não tem solução”, afirmou.

Questionado sobre como identificar quando o hábito de apostar se transforma em um transtorno, o médico explicou que o principal sinal é a perda de controle sobre o comportamento e os prejuízos provocados pela prática.

Sobre a compulsão por apostas, ele acrescentou:

“A compulsão por bets, por jogos eletrônicos em geral, se você não consegue parar, você só vê sofrimento associado para você e para as pessoas ao seu redor. Isso classifica como um transtorno por uso de jogos.”

O psiquiatra informou que o tratamento é multidisciplinar e pode envolver diferentes abordagens terapêuticas. Ele também mencionou pesquisas e experiências clínicas envolvendo medicamentos originalmente utilizados para perda de peso.

“A gente tem usado medicações, inclusive, para perder peso, como aquelas canetas emagrecedoras. A gente mirou numa coisa, acertou em outra. Começaram a se usar para perda de peso e aí a gente viu que diminui a compulsão, não só por alimentos, mas por drogas, como cocaína, álcool, cigarro e também jogos. Não é algo que está aprovado oficialmente, mas a gente vê que tem um benefício sim. E a gente também já teve ótimos resultados com pacientes que fazem tratamento conosco”, disse.

Ao comentar a relação entre renda e sofrimento psicológico, Hugo Sailly afirmou que a falta de recursos para garantir necessidades básicas representa um fator importante para o adoecimento. Segundo ele, a população mais vulnerável economicamente também é mais suscetível às promessas de ganhos rápidos divulgadas por influenciadores e plataformas de apostas.