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Cinema

Filme “Alpha” revisita epidemia de Aids

Novo filme da vencedora da Palma de Ouro aborda Aids, imigração, preconceito e relações familiares na França dos anos 1980
Por O Correio de Hoje
12/06/2026 | 13:49

Após conquistar a Palma de Ouro no Festival de Cannes com Titane, a cineasta francesa Julia Ducournau retorna aos cinemas com Alpha, produção que se afasta parcialmente do horror corporal que marcou sua filmografia para abordar temas como pertencimento, preconceito, doença e relações familiares.

Ambientado em Le Havre, no norte da França, durante os anos 1980, o longa acompanha os impactos da epidemia de Aids sobre uma família de origem argelina radicada no país. O filme utiliza como pano de fundo o clima de medo e incerteza provocado pelo avanço da doença, explorando seus reflexos sobre diferentes gerações e sobre a construção da identidade de seus personagens.

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Mélissa Boros interpreta Alpha no filme - Foto: Reprodução

A protagonista é Alpha, interpretada por Mélissa Boros. Aos 13 anos, a adolescente vê sua rotina mudar depois de receber uma tatuagem em circunstâncias pouco claras. O episódio desperta dúvidas e suspeitas sobre uma possível contaminação, levando colegas a se afastarem e desencadeando situações marcadas por discriminação, medo e isolamento.

Paralelamente, Alpha desenvolve uma relação cada vez mais próxima com o tio Amin, personagem vivido por Tahar Rahim. Dependente de heroína e soropositivo, ele transita entre períodos de overdose e abstinência. Mesmo diante das dificuldades, a convivência entre os dois é construída por meio de empatia, afeto e cumplicidade.

O filme também dedica atenção ao contexto social enfrentado pela comunidade argelina na França. A narrativa retrata tensões ligadas à integração cultural, ao racismo e à preservação das tradições familiares. Parte da família vive em conjuntos habitacionais construídos para abrigar imigrantes argelinos após a independência da antiga colônia francesa, aspecto que aproxima a trama das origens familiares da própria diretora, filha de argelinos.

Golshifteh Farahani interpreta a mãe de Alpha, médica de um hospital especializado no tratamento de pacientes com HIV. Sua personagem funciona como elo entre diferentes dimensões da história: a relação entre mãe e filha, o vínculo entre gerações e a tentativa de preservar elementos da cultura familiar em meio às transformações sociais.

A presença de Tahar Rahim chama atenção pela transformação física exigida para o papel. O ator perdeu cerca de 20 quilos para interpretar Amin, adquirindo uma aparência extremamente debilitada. Em diversos momentos, sua figura magra e os movimentos embalados pela trilha sonora remetem ao trabalho realizado por Denis Lavant em Sangue Ruim (1986), clássico dirigido por Leos Carax que também abordava questões relacionadas à doença e à exclusão.

Narrativamente, “Alpha” alterna entre dois períodos da vida da protagonista — infância e adolescência —, utilizando mudanças visuais para orientar o espectador. Elementos como penteados, maquiagem, iluminação e tonalidades da fotografia ajudam a diferenciar as épocas, embora a diretora frequentemente permita que os dois momentos se aproximem e até se confundam.

Essa opção estética reforça o caráter subjetivo da narrativa, mas também contribui para uma estrutura por vezes carregada. A quantidade de temas abordados — doença, imigração, racismo, amadurecimento, maternidade, dependência química e preconceito — faz com que algumas ideias disputem espaço dentro do mesmo filme.

Mesmo assim, a obra encontra força em sua atmosfera visual. A fotografia adota uma aparência mineral e fria, aproximando a pele dos personagens da textura do mármore. O recurso dialoga com os temas centrais da narrativa e contribui para a sensação constante de fragilidade que acompanha os protagonistas.

Na França, parte da crítica considerou excessivo o volume de sofrimento atribuído à jovem personagem principal. Além dos desafios ligados à descoberta da sexualidade e à vida escolar, Alpha ainda precisa lidar com os cuidados dedicados ao tio, a relação com a mãe e as incertezas sobre a própria saúde.

Apesar das irregularidades apontadas por parte da crítica, “Alpha” confirma o interesse de Julia Ducournau por personagens à margem e por histórias que utilizam o corpo como espaço de conflito. Desta vez, porém, a diretora substitui parte do impacto físico de seus trabalhos anteriores por uma abordagem mais emocional, concentrada nos vínculos familiares e nas marcas deixadas pelo medo, pela exclusão e pelo preconceito.