O papa Leão XIV colocou a crise migratória no centro de sua visita oficial à Espanha e fez um apelo por uma resposta internacional coordenada para enfrentar o aumento dos fluxos de refugiados e migrantes rumo à Europa. Em discurso na Câmara dos Deputados, em Madri, o Pontífice afirmou que nenhum país tem condições de lidar sozinho com o fenômeno e defendeu políticas conjuntas de acolhimento e integração.
A agenda do líder da Igreja Católica também foi marcada por manifestações contra o rearmamento europeu, pela defesa da proteção da vida desde a concepção e por um encontro reservado com vítimas de abusos sexuais cometidos por membros do clero, tema que classificou como uma “ferida aberta” para a instituição.

“Nenhuma nação pode enfrentar sozinha um desafio desta magnitude. Por isso, é indispensável uma resposta coordenada, solidária e eficaz, capaz de garantir proteção, acolhida e oportunidades reais de integração”, afirmou Leão XIV durante sua passagem pelo Parlamento espanhol.
A questão migratória tem sido o eixo central da visita papal. O roteiro será encerrado nas Ilhas Canárias, arquipélago que se tornou uma das principais portas de entrada de migrantes africanos para o continente europeu. Nos próximos dias, o Pontífice participará de homenagens às milhares de pessoas que morreram tentando atravessar rotas marítimas em direção à Europa.
O posicionamento reforça uma das principais bandeiras do pontificado de Leão XIV e ocorre em um momento de endurecimento das políticas migratórias em diversos países europeus, impulsionado pelo avanço de partidos nacionalistas e pelo aumento da pressão sobre os sistemas de acolhimento.
Ao mesmo tempo, o Papa voltou a defender o desarmamento e manifestou preocupação com o crescimento dos investimentos militares na Europa. As declarações ocorrem em meio ao agravamento das tensões internacionais e às discussões sobre segurança no continente diante dos conflitos em curso no Oriente Médio e no Leste Europeu.
O posicionamento também amplia divergências já manifestadas pelo Pontífice em relação ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, especialmente sobre temas ligados à política externa e aos gastos militares.
Mas foi o encontro com vítimas de abusos sexuais praticados por integrantes da Igreja que concentrou parte da atenção durante a visita. A reunião ocorreu na Nunciatura Apostólica em Madri e reuniu seis vítimas, que relataram experiências pessoais e apresentaram sugestões para aprimorar os mecanismos de resposta da Igreja aos casos de violência.
Segundo comunicado divulgado pela Santa Sé, o encontro durou cerca de uma hora e teve como objetivo ouvir diretamente os relatos e propostas das vítimas.
Durante a conversa, Leão XIV assumiu o compromisso de ampliar os esforços institucionais para combater os abusos e fortalecer mecanismos de prevenção.
De acordo com o Vaticano, o Papa assegurou que pretende transformar as propostas apresentadas em base para novas iniciativas da Igreja, com o objetivo de tornar os ambientes religiosos mais seguros.
O Pontífice afirmou que busca fazer da Igreja “um lugar seguro e espiritualmente saudável”, reforçando uma linha de atuação que vem sendo adotada desde o início de seu pontificado.
Mais cedo, em reunião com bispos espanhóis, Leão XIV já havia abordado o tema ao classificar os abusos sexuais como um “flagelo” que exige respostas pautadas pela escuta, pela verdade, pela justiça e pela reparação às vítimas.
“A Igreja deve responder com escuta, verdade, justiça, reparação e um compromisso cada vez mais firme com a prevenção e uma cultura de cuidado”, declarou.
O tema possui forte repercussão na Espanha. Um relatório divulgado em 2023 pelo Defensor do Povo espanhol estimou que cerca de 200 mil menores de idade podem ter sido vítimas de violência sexual praticada por integrantes do clero desde 1940.
Apesar do gesto de aproximação promovido pelo Vaticano, associações de vítimas que há anos cobram maior transparência da Igreja manifestaram insatisfação por não terem sido incluídas no encontro oficial. Representantes desses grupos se reuniram em frente à Nunciatura Apostólica para protestar e pedir participação mais ampla nas discussões sobre reparação e responsabilização.
A visita de Leão XIV ocorre em um momento de elevada sensibilidade política e social na Europa. Ao combinar temas como migração, segurança internacional e abusos sexuais na Igreja, o Pontífice procura reafirmar o papel da Santa Sé em debates que extrapolam o campo religioso e influenciam diretamente a agenda pública do continente.