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Saúde Mental

Brasil aposta no ‘mental’ rumo ao título

Comissão técnica liderada por Carlo Ancelotti investe em saúde mental, psicologia esportiva e ambiente acolhedor para ajudar atletas a lidar com o desgaste emocional do Mundial
Por O Correio de Hoje
09/06/2026 | 14:08

Em busca do primeiro título mundial desde 2002, a seleção brasileira chega à Copa do Mundo de 2026 com uma preparação que vai além dos aspectos físicos, técnicos e táticos. Sob o comando de Carlo Ancelotti, a Confederação Brasileira de Futebol ampliou a atenção à saúde mental dos atletas e montou uma estrutura voltada ao bem-estar emocional da delegação durante o torneio disputado nos Estados Unidos, Canadá e México.

A estratégia inclui a presença permanente de uma psicóloga esportiva na comissão técnica, a criação de espaços de relaxamento no hotel da seleção em Nova Jersey e regras específicas para o contato dos jogadores com familiares ao longo da competição.

Marisa Santiago Copia
Comissão de Carlo Ancelotti trouxe a psicóloga Marisa Santiago para a Copa - Foto: Rafael Ribeiro / CBF

“O aspecto mental na Copa do Mundo é muito importante”, afirmou Ancelotti ao justificar a relevância do tema na preparação da equipe.

A preocupação da comissão técnica parte do entendimento de que o Mundial impõe um ambiente singular de pressão. Além da cobrança por resultados, os jogadores permanecem por semanas em regime de concentração, convivendo diariamente com os mesmos profissionais e enfrentando intensa exposição pública.

Segundo o fisiologista Guilherme Passos, a estrutura da concentração foi adaptada para reduzir o desgaste emocional decorrente desse período prolongado de isolamento.

“São cerca de 90 pessoas confinadas num hotel por 40 ou até 50 dias, é um tempo muito longe de casa e muitas pessoas no mesmo espaço, então nós preparamos espaços para relaxamento, um local de silêncio para leitura ou se o atleta quiser ficar em um momento mais isolado. Também temos uma área externa com vegetação, que já é do hotel, mas a gente refinou alguns desses locais para ficar mais agradável”, explicou.

A delegação também investiu em elementos visuais para tornar o ambiente mais acolhedor. De acordo com Passos, áreas internas receberam referências à paisagem externa e mensagens motivacionais voltadas à competição.

“No interior do hotel têm algumas paginações para remeter à paisagem, ao ambiente externo, também frases de vitória, de luta. Diferentemente da Copa da Rússia, por exemplo, em que muitas vezes a gente trocou o hotel, dessa vez, se classificar em primeiro do grupo, a gente vai ficar praticamente a competição inteira no mesmo hotel, então tem que ter esses ambientes para espairecer um pouco”, afirmou.

A permanência mais longa em uma única concentração representa uma mudança em relação a edições anteriores e foi considerada um fator importante para o planejamento da equipe multidisciplinar.

Outro componente da estratégia envolve a relação dos atletas com familiares. O contato presencial será permitido apenas nos dias de folga, normalmente programados para o período posterior às partidas. Durante a rotina de treinamentos e preparação, visitas à concentração não serão autorizadas.

No centro desse trabalho está Marisa Santiago, especialista em Psicologia do Esporte e integrante da comissão técnica desde 2024. Com passagens por Atlético-MG, Bahia, Cruzeiro e atualmente no Grêmio, ela acompanha a seleção nas Datas Fifa e agora participa de sua primeira Copa do Mundo pela equipe principal.

Segundo a profissional, o trabalho desenvolvido na seleção difere do acompanhamento clínico tradicional e está focado nas demandas imediatas da competição.

“O trabalho é estar à disposição dos atletas para que eles possam lidar melhor com a pressão e com tudo o que envolve o desempenho e o resultado desses atletas. O tempo todo fazendo com que eles se sintam mais confortáveis para poder colocar em campo o futebol que eles têm”, disse.

Marisa afirma que a atuação ocorre de forma integrada com outros setores da comissão técnica e que a aceitação dos jogadores evoluiu desde sua chegada.

“A gente entende como um trabalho multidisciplinar. Por exemplo: a fisioterapia muitas vezes fala: ‘olha, fulano está um pouco mais chateado por causa dessa lesão’. Os atletas também entenderem que tem essa figura da psicóloga ali, isso também foi uma construção. Hoje em dia é bem mais fácil lidar do que foi no início de 2024, quando eu cheguei”, afirmou.

As intervenções incluem conversas individuais, atividades coletivas e atendimentos realizados em momentos informais da rotina, muitas vezes após treinamentos ou durante períodos de descanso.

“Dentro da Seleção, a gente faz um trabalho de acolhimento mesmo, individualizado e também em grupo, de acordo com as demandas e com o que a comissão entende que é importante no momento”, explicou.

“Ao contrário do que muitas pessoas imaginam, a psicologia na seleção está muito mais voltada para a questão do aqui e agora do que para um acompanhamento terapêutico de longo prazo”, acrescentou.

A presença de uma psicóloga na comissão técnica representa uma mudança em relação às últimas duas Copas do Mundo. Nos ciclos comandados por Tite, em 2018 e 2022, a seleção não contou com um profissional da área integrado ao staff permanente. O treinador defendia que o curto período de convivência durante o Mundial dificultava a criação de vínculos de confiança suficientes para um trabalho mais efetivo.

A última participação de um psicólogo em uma Copa do Mundo com a seleção principal havia ocorrido em 2014, quando Regina Brandão integrou a comissão técnica liderada por Luiz Felipe Scolari.

Enquanto isso, o debate sobre saúde mental ganhou espaço entre os próprios jogadores. Muitos passaram a buscar acompanhamento psicológico individual ao longo dos últimos anos, movimento observado também em outras modalidades esportivas.

Um dos defensores da pauta dentro do grupo é o volante Bruno Guimarães, que relatou os benefícios do acompanhamento especializado em sua própria trajetória.