Um estudo publicado na revista científica Annals of Oncology identificou uma associação entre o uso de medicamentos da classe dos análogos de GLP-1, conhecidos popularmente como “canetas emagrecedoras”, e a redução do risco de desenvolvimento de cânceres relacionados à obesidade. Segundo os pesquisadores, pacientes com excesso de peso que utilizaram essas medicações apresentaram uma probabilidade 41% menor de desenvolver 13 tipos de tumores associados ao excesso de gordura corporal.
A pesquisa é considerada inédita por avaliar especificamente pessoas com obesidade que utilizavam os medicamentos para perda de peso, sem diagnóstico de diabetes. Até então, a maior parte das investigações sobre o tema concentrava-se em pacientes diabéticos, grupo para o qual esses remédios também são amplamente prescritos.

O trabalho foi conduzido por pesquisadores do Houston Methodist Hospital, nos Estados Unidos, que analisaram informações de 229.467 pacientes com obesidade registradas na plataforma TriNetX, banco de dados que reúne prontuários eletrônicos de aproximadamente 113 milhões de pessoas.
Os cientistas acompanharam pacientes entre dezembro de 2014 e junho de 2025. Do total analisado, 86.422 receberam prescrição de semaglutida — princípio ativo presente em medicamentos como Ozempic e Wegovy — ou de tirzepatida, comercializada como Mounjaro. Outros 143.045 pacientes receberam apenas orientações relacionadas à adoção de hábitos saudáveis, incluindo alimentação equilibrada e prática de atividade física.
A idade média dos participantes era de 47 anos. O acompanhamento foi mantido até a ocorrência de um diagnóstico de câncer, morte do paciente, ausência de novos registros médicos ou até dois anos após o início do tratamento medicamentoso ou das orientações clínicas.
Para reduzir possíveis distorções, os pesquisadores realizaram um processo de pareamento entre os dois grupos, comparando indivíduos com características semelhantes para avaliar de forma mais precisa a incidência de câncer.
Após a análise dos dados, os autores observaram uma redução de 41% no risco de desenvolvimento dos 13 tipos de câncer associados à obesidade entre os pacientes que utilizaram os medicamentos.
“O risco geral de câncer foi reduzido em 41%, e observamos reduções ainda maiores em determinados subgrupos, incluindo os homens, entre os quais o risco caiu quase 70%. Entre os cânceres ginecológicos, houve uma redução de 58% na incidência de câncer de endométrio, uma das malignidades mais estreitamente ligadas à obesidade”, disse a autora sênior do estudo, Aparna Kamat, em comunicado.
Segundo a pesquisadora, algumas populações apresentaram resultados ainda mais expressivos. Entre os pacientes brancos analisados, a redução observada ultrapassou 50%.
Segundo Aparna, houve uma redução superior a 50% entre pacientes brancos, o que “pode refletir fatores adicionais, como acesso aos cuidados de saúde, diferentes perfis de risco e outras diferenças biológicas”.
Os pesquisadores também verificaram diferenças entre os medicamentos avaliados. De acordo com a análise, os usuários de tirzepatida apresentaram as maiores reduções no risco de câncer quando comparados aos demais participantes do estudo.
Os tipos de câncer avaliados na pesquisa fazem parte de um grupo reconhecido pela comunidade científica por possuir relação com a obesidade. Entre eles estão os tumores de endométrio, mama, intestino, rim, pâncreas, tireoide, ovário, esôfago, estômago, fígado e vesícula biliar, além do mieloma múltiplo e do meningioma.
Segundo os autores, essas doenças representam aproximadamente 40% dos diagnósticos de câncer registrados em países de alta renda. Além disso, especialistas observam um crescimento da incidência desses tumores em adultos mais jovens, fenômeno que vem despertando atenção de pesquisadores em diversos países.
Os autores ressaltam que o estudo possui caráter observacional. Isso significa que a pesquisa identifica relações estatísticas entre fatores analisados — neste caso, o uso de análogos de GLP-1 e a incidência de câncer —, mas não consegue demonstrar de forma definitiva que um elemento seja a causa direta do outro.
Por essa razão, os resultados devem ser interpretados com cautela.
“Nossos resultados não comprovam causalidade, e a redução do risco de câncer ainda não deve ser um motivo isolado para prescrever os análogos de GLP-1. No entanto, para pacientes obesos sem diabetes que já são candidatos a esses medicamentos, nossos dados oferecem uma razão adicional”, afirmou a pesquisadora.
A pesquisadora destaca que estudos anteriores já apontavam benefícios semelhantes entre pessoas com diabetes, mas a nova análise amplia o conhecimento ao investigar indivíduos que utilizam os medicamentos exclusivamente para o tratamento da obesidade.
Atualmente, a perda de peso é uma das principais indicações para o uso dessas medicações, cuja procura aumentou significativamente nos últimos anos em diversos países.
Os resultados levaram a equipe do Houston Methodist Hospital a aprofundar as investigações sobre os possíveis mecanismos biológicos envolvidos na redução do risco de câncer. O principal foco dos novos estudos será o câncer de endométrio, que apresentou uma das maiores quedas de incidência observadas na pesquisa.
Os cientistas pretendem entender de que forma os medicamentos podem interferir no crescimento tumoral e influenciar o prognóstico da doença.
“Estamos estudando vias mecanísticas moduladas por esses fármacos — um trabalho que pode abrir novas estratégias de tratamento para uma das malignidades ginecológicas mais comuns”, explicou Aparna.
Para os autores, os resultados reforçam a necessidade de novos estudos clínicos e laboratoriais capazes de esclarecer a relação entre os análogos de GLP-1 e a prevenção de tumores relacionados à obesidade. A expectativa é que futuras pesquisas ajudem a compreender se os benefícios observados decorrem exclusivamente da perda de peso ou se existem outros mecanismos biológicos envolvidos na redução do risco de câncer.