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Economia

Despesa do RN sobe 17% e tem 2ª maior alta do País, aponta levantamento da XP

Estudo mostra que gastos do Estado cresceram 17,7% até abril, enquanto arrecadação avançou só 5,3%
Redação
09/06/2026 | 05:25

O Rio Grande do Norte é o segundo estado do País que mais ampliou despesas em 2026, segundo levantamento da XP Investimentos. De acordo com os dados juntados pela corretora, os gastos do governo potiguar cresceram 17,7% acima da inflação de janeiro a abril, enquanto as receitas avançaram apenas 5,3% (sem contar operações de crédito).

O resultado do RN só foi melhor que o do Maranhão, onde os gastos aumentaram 21,4% — lá, porém, a receita cresceu 8,9%, o que amorteceu o impacto da alta nas despesas.

Sede do GoveRio Grande do Norteo RN centro administrativo (16)
Em maio, governo congelou quase R$ 500 milhões do orçamento estadual - Foto: José Aldenir

A XP aponta que o ritmo de expansão das despesas no RN, que é mais de três vezes superior ao crescimento da arrecadação, contribui para a deterioração das contas públicas em um ano marcado por eleições estaduais e federais.

A preocupação é reforçada pela situação de caixa do Estado. O RN iniciou o ano de 2026 com saldo negativo no caixa, uma espécie de “cheque especial”. Segundo o Relatório de Gestão Fiscal (RGF) divulgado pelo Governo do Estado, a disponibilidade de recursos fechou negativa em pouco mais de R$ 3 bilhões. Esse é o valor que faltava, em 31 de dezembro, para que o Estado pudesse efetivamente honrar suas obrigações já empenhadas. A disponibilidade de caixa negativa indica que parte das despesas empenhadas não tinha cobertura de caixa e pode indicar uso de receitas futuras para cobrir despesas presentes.

Levantamento feito pelo jornal O Estado de S. Paulo com base nos relatórios fiscais de todos os estados mostram que o Rio Grande do Norte teve o 2º pior resultado do País, ficando atrás apenas de Minas Gerais, que terminou 2025 com saldo negativo em R$ 11,3 bilhões.

Economista da XP responsável pelo estudo, Tiago Sbardelotto afirmou ao jornal O Globo que, considerando a baixa disponibilidade de caixa e os resultados observados até abril, o Rio Grande do Norte é atualmente o caso que mais inspira preocupação. “Considerando a baixa disponibilidade de caixa, até abril deste ano, o que mais preocupa é o Rio Grande do Norte”, declarou.

A análise da XP projeta que os estados brasileiros encerrarão 2026 com déficit fiscal agregado de R$ 6 bilhões. O resultado representa uma inversão em relação a 2025, quando os governos estaduais registraram superávit de R$ 6,6 bilhões. Segundo Sbardelotto, a deterioração das contas já era esperada em um ano eleitoral. “Quando existe espaço fiscal, esses entes tendem a aumentar a despesa acima dos anos anteriores”, afirmou ao O Globo.

Os dados mostram que, no conjunto dos estados, as despesas cresceram 6,5% acima da inflação até abril, enquanto as receitas avançaram apenas 3,3%. No Rio Grande do Norte, entretanto, a diferença é muito mais acentuada.

O estudo aponta três fatores que ajudam a explicar a ampliação dos gastos estaduais. O primeiro é a existência de disponibilidade de caixa acumulada em anos anteriores, que permite aos governos utilizarem recursos já reservados. O segundo é a ampliação do acesso a operações de crédito, favorecida pelo Programa de Pleno Pagamento de Dívidas dos Estados (Propag), criado pelo governo federal para renegociar débitos estaduais em condições mais vantajosas. O terceiro fator é a aprovação da chamada PEC dos Precatórios, que ampliou de 60 para 300 meses o prazo para pagamento dessas dívidas judiciais, reduzindo desembolsos imediatos e abrindo espaço no orçamento para outras despesas.

No caso do RN, a situação chama atenção porque o Estado possui baixo nível de endividamento em comparação com estados tradicionalmente problemáticos, como Minas Gerais, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul. Ainda assim, enfrenta dificuldades devido ao fluxo de caixa e à limitada capacidade de investimento. O Tesouro Nacional classifica o Estado com nota C em sua avaliação de capacidade de pagamento.

Contingenciamento

Em maio, após verificar que a arrecadação ficou abaixo das metas estabelecidas para os primeiros meses do ano, o Governo do Rio Grande do Norte decidiu contingenciar R$ 497,4 milhões do orçamento estadual. A medida pode ser revista caso a arrecadação volte a subir nos próximos meses.

Segundo a Secretaria Estadual da Fazenda (Sefaz), o desempenho abaixo do esperado está relacionado principalmente à redução da arrecadação do Imposto de Renda Retido na Fonte (IRRF) e aos impactos dessa queda sobre as transferências federais, especialmente o Fundo de Participação dos Estados (FPE).

Na prática, o contingenciamento representa a suspensão temporária de despesas autorizadas no orçamento, sobretudo investimentos e gastos discricionários. O objetivo é adequar as despesas à arrecadação efetivamente realizada e garantir o cumprimento das regras da Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF).

O governo ressalta que permanecem preservados os gastos obrigatórios, como folha de pagamento, serviço da dívida e os percentuais mínimos constitucionais destinados à saúde, educação e segurança pública.

Contingenciamento

Em nota, a Sefaz afirmou que os dados utilizados no levantamento divulgado pela XP Investimentos correspondem apenas o equilíbrio fiscal, enquanto o equilíbrio orçamentário possui escopo mais amplo. Segundo a pasta, “o equilíbrio fiscal trata do equilíbrio entre receitas e despesas primárias, enquanto o equilíbrio orçamentário trata de receitas e despesas orçamentárias”.

De acordo com a secretaria, a Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) estabeleceu para 2026 uma meta de déficit primário de R$ 1,479 bilhão e, até abril, o resultado negativo acumulado era de R$ 260 milhões, permanecendo “dentro da meta estabelecida nas diretrizes orçamentárias”.

A Sefaz sustenta ainda que o resultado primário negativo decorre principalmente da realização de investimentos financiados por operações de crédito, “o que é comum, considerando que o Estado tem pouca margem discricionária nas suas receitas primárias”.

Sobre o crescimento mais modesto das receitas, o governo atribui parte do desempenho à atualização da tabela do Imposto de Renda da Pessoa Física (IRPF), que ampliou a faixa de isenção para quem recebe até R$ 5 mil. Conforme a secretaria, a medida “impacta na arrecadação direta desse imposto, bem como reduz o aumento que o Fundo de Participação dos Estados (FPE) vinha apresentando até o momento”.

A pasta também destaca que, sob a ótica orçamentária, o Estado registrou superávit de R$ 1,240 bilhão no primeiro quadrimestre, resultado explicado pelo crescimento nominal da arrecadação. Segundo a nota, houve “crescimento nominal da receita total de 21,11% e da despesa de 17,61%”.

Apesar disso, a própria Sefaz reconhece dificuldades estruturais nas contas estaduais. O comunicado afirma que o Rio Grande do Norte enfrenta “dois grandes desafios, quais sejam: baixa liquidez e poupança corrente acima de 95% (comprometimento das receitas correntes com despesas correntes)”. Para enfrentar esses gargalos, o governo informa que vem adotando medidas como recuperação de créditos fiscais e contingenciamento de despesas orçamentárias, ressaltando que “a recuperação fiscal do Estado é um processo contínuo e, em hipótese alguma, deve se sobrepor à responsabilidade social e à prestação de serviços públicos de qualidade”.

Estados com maior aumento de gastos em 2026 (até abril)

Estado

Maranhão
Rio Grande do Norte
Mato Grosso
Ceará
Paraíba
Tocantins
Santa Catarina
Rio de Janeiro
Amapá
Pernambuco
Crescimento das despesas

21,4%
17,7%
16,6%
15,1%
14,2%
12,8%
12,1%
11,0%
10,4%
9,8%
Crescimento das receitas

8,9%
5,3%
4,9%
6,8%
4,5%
0,9%
4,4%
6,0%
5,5%
10,1%
Fonte: XP Investimentos

Orçamento do Estado (de janeiro a abril)

Receita consolidada: R$ 9,24 bilhões
Crescimento nominal de 21,11% sobre o mesmo período de 2025
Crescimento real de 16,02%, descontada a inflação
Resultado orçamentário:
Superávit de R$ 1,24 bilhão no primeiro quadrimestre
Crescimento de 49,88% em relação ao mesmo período de 2025
Fonte: RGF do 1º quadrimestre de 2026, Governo do RN