A combinação de juros elevados no Brasil e nos Estados Unidos, inflação ainda resistente e incertezas fiscais recolocou a renda fixa no centro das estratégias patrimoniais dos investidores de alta renda. Mais do que um instrumento de proteção, a classe de ativos passou a ser vista como uma oportunidade de crescimento consistente do patrimônio, sustentada por retornos reais considerados historicamente elevados.
Com os títulos do Tesouro americano de dez anos negociados acima de 4,5% e a taxa básica de juros brasileira em patamar elevado, gestores e estrategistas avaliam que o ambiente atual oferece uma das combinações mais favoráveis dos últimos anos entre rentabilidade, liquidez e controle de risco.

Na avaliação de Régis Chinchila, analista de Research da Terra Investimentos, o mercado atravessa uma “janela rara de retorno real elevado sem precisar assumir risco excessivo”. Segundo ele, a base das carteiras continua concentrada em ativos pós-fixados de alta liquidez, como Tesouro Selic, Certificados de Depósito Bancário (CDBs) atrelados ao CDI e fundos conservadores.
Esses instrumentos seguem entregando retorno elevado com baixa volatilidade, mas o diferencial estratégico, segundo especialistas, passou a estar na construção gradual de posições capazes de capturar os juros reais atualmente disponíveis no mercado.
Nesse contexto, os títulos indexados ao Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) ganharam protagonismo nas recomendações. Chinchila afirma que os papéis IPCA+ voltaram a apresentar condições bastante atrativas, sobretudo nos vencimentos mais longos, oferecendo proteção contra uma inflação persistente e potencial de valorização caso os juros recuem nos próximos anos.
A avaliação é compartilhada por Gustavo Assis, CEO da Asset Bank. Para ele, os investidores de maior patrimônio vivem um cenário pouco comum, no qual é possível combinar proteção patrimonial, liquidez e ganho real relevante dentro da própria renda fixa.
“Os títulos atrelados ao IPCA continuam oferecendo spreads altos, em alguns casos acima de IPCA + 8%, o que representa um ganho real importante no longo prazo”, afirma.
A atratividade dos juros reais também chama atenção de Marcus Macedo, CIO do Andbank. Segundo ele, os títulos públicos indexados à inflação oferecem atualmente uma oportunidade rara de aceleração patrimonial sem necessidade de assumir riscos excessivos.
“Uma NTN-B pagando acima de 8% de juro real chama bastante atenção. Como regra de bolso, um retorno real dessa magnitude praticamente dobra o poder de compra em cerca de dez anos”, afirma.
Apesar do cenário favorável, especialistas alertam que a busca por rentabilidade não deve ser confundida com apostas concentradas em um único cenário macroeconômico. O principal risco identificado hoje está na expectativa excessivamente otimista de uma queda rápida da taxa Selic.
“O principal erro do investidor sofisticado neste momento é montar uma carteira apostando excessivamente em queda rápida da Selic”, diz Chinchila.
Segundo ele, ampliar de forma agressiva a exposição a títulos prefixados de longo prazo ou a papéis IPCA+ com vencimentos muito extensos pode elevar significativamente a volatilidade da carteira caso a curva de juros continue abrindo em meio às incertezas fiscais, eleitorais e ao ambiente internacional mais turbulento.
Rodrigo Franchini, especialista de soluções financeiras da Monte Bravo, avalia que o excesso de alocação em ativos de prazo muito longo e a perda de liquidez estão entre os principais riscos para investidores de alta renda. Na sua avaliação, os prêmios elevados observados atualmente acabam incentivando alguns investidores a assumir exposições maiores do que o recomendável.
Para Gustavo Assis, a discussão deixou de ser uma escolha entre CDI ou prefixado. O foco, afirma, deve estar no equilíbrio entre prazo, liquidez e proteção contra a inflação.
Na prática, a estratégia predominante entre gestores combina uma parcela relevante de ativos pós-fixados, beneficiados pelo CDI elevado, com um aumento gradual da exposição a títulos prefixados intermediários e papéis indexados ao IPCA de duration moderada.
A mesma visão é compartilhada por Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos. Segundo ele, o investidor ainda encontra remuneração atrativa nos pós-fixados e não precisa acelerar o movimento de migração para ativos mais longos.
“O movimento mais racional hoje não parece ser uma migração agressiva para prefixados longos, mas uma transição gradual e seletiva”, afirma.
No segmento de crédito privado, o consenso entre especialistas também aponta para uma postura mais criteriosa. A recomendação privilegia emissores de maior qualidade de crédito e estruturas consideradas mais resilientes em cenários de volatilidade.