Horas após Estados Unidos, Israel e Líbano anunciarem um novo acordo de cessar-fogo para reduzir os confrontos na fronteira entre os dois países, as Forças Armadas israelenses mantiveram operações militares no sul do território libanês, mostrando as dificuldades para transformar o entendimento diplomático em uma trégua.
O acordo, resultado de uma quarta rodada de negociações mediadas por Washington, foi apresentado como uma tentativa de encerrar meses de confrontos que se intensificaram paralelamente à guerra regional envolvendo Israel, grupos aliados do Irã e os Estados Unidos. Apesar disso, a continuidade dos ataques israelenses e a rejeição do entendimento pelo Hezbollah colocam em dúvida a viabilidade da iniciativa.

O presidente do Líbano, Joseph Aoun, afirmou que a implementação do acordo poderá começar dentro de 24 horas após a aprovação final por todas as partes envolvidas.
Segundo ele, o entendimento prevê a criação de áreas-piloto no sul do país, das quais as tropas israelenses se retirariam gradualmente para permitir a mobilização exclusiva do Exército libanês.
Entre as primeiras localidades previstas estão Zoutar, na província de Nabatieh, e a região do Castelo de Beaufort, posição estratégica ocupada por Israel nos últimos dias.
“O acordo alcançado é a última oportunidade. Caso contrário, cada parte terá de assumir sua responsabilidade”, afirmou Aoun. “O acordo de hoje é diferente daquele de outubro de 2024 porque será sustentável, e contamos com o papel do presidente Donald Trump e de seu governo.”
O texto divulgado em conjunto por Estados Unidos, Israel e Líbano estabelece que o cessar-fogo depende da interrupção completa dos disparos realizados pelo Hezbollah e da retirada de seus integrantes de toda a área localizada ao sul do rio Litani, cerca de 30 quilômetros ao norte da fronteira israelense.
O governo libanês, que declarou ilegais as atividades armadas do grupo, deverá participar de novas reuniões com representantes israelenses nas próximas semanas para discutir detalhes operacionais da implementação do acordo.
Apesar do anúncio, Israel manteve uma postura cautelosa. Poucas horas depois da divulgação do entendimento, as Forças Armadas israelenses emitiram novas ordens de evacuação para áreas do sul do Líbano e prosseguiram com ações militares na região.
O ministro da Defesa de Israel, Israel Katz, afirmou que as operações continuarão enquanto o Hezbollah não abandonar integralmente as áreas ao sul do rio Litani. Segundo ele, a criação de uma zona desmilitarizada é condição indispensável para a consolidação da trégua.
Katz também declarou que tropas israelenses permanecerão nas áreas atualmente sob controle militar de Israel e reiterou que o país manterá liberdade de ação para responder a qualquer ameaça considerada iminente.
“O Estado de Israel continuará agindo para garantir sua segurança”, indicou o ministro ao defender a permanência das forças israelenses em pontos estratégicos do sul libanês.
A posição contrasta com a expectativa apresentada pelo governo de Beirute, que vê o acordo como uma oportunidade para recuperar gradualmente o controle de áreas próximas à fronteira.
O primeiro-ministro libanês, Nawaf Salam, anunciou que o Exército do país iniciará a mobilização nas regiões previstas no entendimento.
Segundo ele, trata-se da primeira etapa concreta para restabelecer a autoridade do Estado na área, embora a reivindicação por uma retirada completa das tropas israelenses continue fazendo parte da posição oficial do Líbano.
A mediação americana foi conduzida diretamente pela Casa Branca. O presidente Donald Trump afirmou que houve avanços relevantes nas negociações e declarou ter mantido contatos tanto com o governo israelense quanto com representantes do Hezbollah.
“Houve progresso”, afirmou Trump ao comentar as conversas. “Seria muito bom se o Líbano pudesse ter um pouco de paz.”
O presidente americano também destacou que o país vive décadas de instabilidade e afirmou que a atual negociação representa uma oportunidade para reduzir a escalada militar na região.
Nos bastidores, a atuação da Casa Branca ganhou destaque após Trump intervir para evitar um ataque israelense ao subúrbio de Dahiyeh, ao sul de Beirute, considerado um dos principais redutos do Hezbollah.
Apesar do otimismo demonstrado por Washington, a reação do grupo xiita libanês foi negativa.
O líder do Hezbollah, Naim Qassem, rejeitou publicamente o acordo, argumentando que os termos negociados equivalem à rendição da organização enquanto Israel mantém operações militares em território libanês.
“Enquanto a ocupação continuar, a resistência continuará”, afirmou.
Segundo Qassem, o Hezbollah não participou diretamente das negociações conduzidas em Washington e, portanto, não assumiu qualquer compromisso formal de interromper suas atividades ou suspender respostas militares aos ataques israelenses.
A declaração amplia as incertezas sobre a implementação do acordo e evidencia a distância entre as posições defendidas pelas partes envolvidas.
O conflito já produziu graves consequências humanitárias. De acordo com autoridades libanesas, mais de 1,2 milhão de pessoas foram deslocadas desde o início da escalada militar, enquanto pelo menos 3,5 mil pessoas morreram no país desde março. Israel, por sua vez, afirma ter perdido 24 soldados e quatro civis no mesmo período.