Conhecido internacionalmente pelo livro A Geração Ansiosa, que se tornou um dos principais fenômenos editoriais sobre os efeitos das redes sociais na saúde mental dos jovens, o psicólogo americano Jonathan Haidt amplia agora seu alerta para um novo desafio tecnológico: o avanço da inteligência artificial na vida de crianças e adolescentes.
Professor da Universidade de Nova York, Haidt lançou recentemente, em parceria com a jornalista Catherine Price, o livro A Geração Incrível, obra voltada para leitores com menos de 14 anos e que busca orientar crianças e adolescentes a desenvolver uma relação mais saudável com a tecnologia. O livro aborda mecanismos utilizados pelas grandes plataformas digitais para capturar a atenção dos usuários mais jovens e apresenta estratégias para estimular experiências fora das telas.

Em entrevista ao jornal O Globo, Haidt afirmou que o Brasil tem se destacado internacionalmente entre os países que vêm adotando medidas para reduzir a exposição excessiva de crianças e adolescentes aos celulares. Ao mesmo tempo, ressaltou que a violência urbana ainda representa um obstáculo para a construção de espaços seguros de convivência presencial.
Para o pesquisador, as preocupações que antes se concentravam nas redes sociais agora se estendem à inteligência artificial, especialmente aos chatbots capazes de simular relações humanas e fornecer respostas altamente personalizadas.
No novo livro, Haidt utiliza o termo “rebeldes” para se referir aos adolescentes que decidem reduzir ou abandonar o uso das redes sociais. Segundo ele, a escolha exige coragem em um ambiente marcado pela pressão para seguir comportamentos coletivos.
“Há muitas pressões para fazer o que todo mundo está fazendo. Quando todo mundo está rindo de um meme e você não sabe qual é, isso é muito difícil. Há pressão para se conformar, seguir o fluxo, fazer parte do grupo. Os indivíduos que resistem são heroicos.”
O psicólogo afirma que, embora a decisão possa parecer difícil inicialmente, os jovens que conseguem se afastar das redes costumam ganhar reconhecimento dos próprios colegas.
“É difícil de fazer isso, mas a longo prazo eles se divertem mais e ganham mais respeito. Quando eles decidem não usar redes sociais e outros adolescentes descobrem, nunca dizem: ‘isso é estúpido’. O que eles geralmente dizem é: ‘Uau, gostaria de poder fazer isso’. É difícil ser rebelde, mas respeitamos os rebeldes.”
Ao abordar o uso de dispositivos eletrônicos por crianças, Haidt afirma que a exposição precoce às telas pode alterar hábitos de atenção e recompensa. Segundo ele, muitas crianças recebem celulares ou tablets ainda muito pequenas e passam a se acostumar com estímulos rápidos e constantes.
“Quando são muito pequenas, os pais dão um iPad ou um celular antigo. Isso é muito ruim. Muitas delas já estão viciadas em reações rápidas, cores brilhantes, dopamina rápida.”
Para o pesquisador, o desenvolvimento saudável depende da capacidade de encontrar satisfação em atividades que exigem mais tempo, concentração e esforço.
“Por isso, é importante para o desenvolvimento que elas obtenham mais dopamina lenta. Isso significa ter prazer em fazer coisas que levam mais de dez segundos.”
Ele defende que pais incentivem experiências práticas e projetos que envolvam o mundo físico.
“Os pais devem se organizar para que os filhos tenham aventuras no mundo real, como construir um forte fora de casa, um aeromodelo, uma coisa física que leve uma hora para ser feita. Ao final desse trabalho, eles têm algo. Isso é saudável.”
Segundo Haidt, o objetivo não é simplesmente retirar os celulares das mãos das crianças.
“O objetivo dos meus livros não é tirar os telefones. É conectar as crianças a pessoas e projetos no mundo real.”
Para adolescentes mais velhos, Haidt continua defendendo limites ao uso das redes.
“Aos 14, 15, 16 anos, a maioria terá redes sociais. Ainda acho que precisamos adiar isso até os 16 anos. Acho muito importante deixá-las passar pela puberdade antes.”
Na avaliação do psicólogo, a sociedade precisa rever as normas relacionadas ao uso da tecnologia entre os jovens e, ao mesmo tempo, oferecer alternativas reais de convivência. Ele observa que muitos adolescentes encontram dificuldades até mesmo para frequentar determinados espaços públicos.
“Moro na cidade de Nova York, e meus filhos frequentam escolas públicas. Mas mesmo aos 16 anos, eles não são permitidos em muitas lojas porque os lojistas têm medo de furto. Não querem que nenhum adolescente entre.”
Para ele, esse cenário contribui para o isolamento social.
“Então, esse é um problema: eles não têm muitos lugares bons para ir sem adultos.”
Haidt acredita que Brasil e Estados Unidos enfrentam desafios semelhantes quando o assunto é criar ambientes seguros para crianças e adolescentes.
“Esse é o desafio para nossas sociedades. No Brasil e nos EUA, temos taxas de criminalidade relativamente altas comparadas, digamos, à Europa, onde é muito mais baixa.”
Segundo ele, a falta de espaços seguros acaba reforçando a dependência das interações digitais.
“Temos que encontrar maneiras das crianças poderem conviver em segurança.”
Entre as alternativas, ele cita o uso dos próprios espaços escolares.
“O pátio da escola é uma boa opção. As escolas podem fazer muito mais para manter seus pátios abertos como lugares onde as crianças possam apenas se encontrar e depois ir a algum lugar juntas.”
Se as redes sociais já ocupavam o centro das preocupações de Haidt, a popularização dos sistemas de inteligência artificial ampliou ainda mais os alertas. Segundo ele, as plataformas digitais já utilizam IA há mais de uma década para personalizar conteúdos e aumentar o tempo de permanência dos usuários.
“As redes sociais usam IA desde cerca de 2010. Parte da razão pela qual são tão viciantes é que usam IA para governar o feed.”
O surgimento de ferramentas como o ChatGPT, entretanto, criou uma nova dinâmica: a interação direta entre crianças e sistemas inteligentes.
“Agora, desde o ChatGPT, as crianças estão falando diretamente com a IA. E até agora, os resultados iniciais são terríveis.”
Haidt cita casos que relacionam o uso excessivo dessas tecnologias a situações extremas.
“Vimos vários jovens levados ao suicídio, pessoas levadas à psicose porque você mergulha fundo em uma conversa com uma criatura que é bajuladora.”
Na avaliação do pesquisador, os riscos vão além da dependência tecnológica.
“As crianças não deveriam ter um amigo bajulador que lhes diga que são brilhantes e confirmem tudo o que querem acreditar.”
Ele argumenta que o desenvolvimento emocional depende do contato com pessoas reais e da convivência com opiniões divergentes.
“Elas precisam aprender a ter interações com pessoas reais que, muitas vezes, são difíceis.”
Segundo Haidt, a tecnologia já vinha produzindo impactos sobre habilidades cognitivas e sociais.
“As redes sociais já reduziram a capacidade de atenção e as privaram de habilidades sociais. Agora, a IA está reduzindo a capacidade de pensar, pois deixam a IA fazer isso por elas.”
O pesquisador acrescenta:
“Não precisam pensar, não precisam aprender nada. Podem apenas perguntar à IA.”
Por isso, ele defende que governos adotem uma postura regulatória semelhante à adotada em relação à indústria do tabaco.
“Devemos tratar essas indústrias de tecnologia como se fossem companhias de tabaco tentando nos viciar. Cada sociedade tem que descobrir como regular isso.”
Questionado sobre o uso de chatbots por crianças e adolescentes, Haidt afirma que produtos que simulam relações afetivas deveriam ser proibidos para menores.
“O que posso dizer com confiança é que menores de idade não deveriam ter relacionamentos com IA.”
Ele cita exemplos de aplicações que deveriam ser destinadas apenas a adultos.
“Isso significa namorados e namoradas de IA, parceiros sexuais de IA.”
Em relação a ferramentas informacionais, o especialista considera que o debate ainda está em aberto.