A rápida popularização das ferramentas de inteligência artificial está ampliando o alcance de um tipo de fraude que combina tecnologia avançada e manipulação digital para enganar vítimas. Conhecidos como deepfakes, esses golpes utilizam recursos capazes de reproduzir rostos, movimentos faciais e vozes com alto grau de realismo, dificultando a identificação das falsificações e aumentando os prejuízos financeiros.
O estudante Giovani Sella, de 22 anos, técnico em tecnologia da informação, descobriu isso na prática. Mesmo atuando na área de tecnologia, ele acabou acreditando em uma campanha fraudulenta divulgada nas redes sociais. O conteúdo apareceu no Instagram em formato de vídeo e utilizava uma voz atribuída ao cantor L7nnon. A publicação trazia a mensagem: “O Quiz do L7 chegou! Agora, você pode adquirir um par da Kenner de graça apenas respondendo um quiz, o meu chegou hoje! Acesse em Saiba Mais”.

Ao clicar, o usuário era direcionado para uma página que reproduzia elementos visuais semelhantes aos utilizados pela loja virtual da marca de chinelos. Na época, o artista mantinha contrato publicitário com a empresa, o que ajudava a dar aparência de legitimidade à oferta.
Convencido pela promoção, Sella preencheu seus dados pessoais e realizou um Pix de R$ 40 para cobrir o suposto frete de um par de chinelos que, nas lojas oficiais, pode custar até R$ 200. A percepção de que se tratava de um golpe veio apenas depois que ele compartilhou a oferta com amigos.
O País aparece entre os principais alvos desse tipo de fraude na região. Dados divulgados pela Sumsub, plataforma internacional especializada em verificação de identidade e prevenção a fraudes, apontam que as tentativas de golpes envolvendo deepfakes aumentaram 126% no Brasil no último ano.
Segundo o levantamento, o país concentrou quatro de cada dez ataques desse tipo registrados na América Latina. A pesquisa foi elaborada a partir da análise de mais de 4 milhões de tentativas de fraude online registradas em todo o mundo. O estudo utilizou informações internas de verificação de identidade e monitoramento de atividades de usuários ao longo de dois anos. A combinação entre elevado grau de digitalização da população brasileira e o acesso cada vez mais simples às ferramentas de inteligência artificial ajuda a explicar o crescimento acelerado dessas fraudes.
O avanço da tecnologia tornou os golpes tão sofisticados que até profissionais do setor de segurança digital podem ser enganados. Foi o que quase aconteceu com Andrea Rozenberg, diretora de mercados emergentes da Veriff, empresa de origem estoniana com atuação no Brasil e especializada em verificação de identidade digital.
Ela relata ter recebido uma videochamada pelo WhatsApp em que a imagem e a voz reproduziam com precisão o presidente da companhia. O contato foi feito por um número desconhecido, mas exibia foto e nome compatíveis com os do executivo.
Durante a conversa, o suposto chefe solicitou que ela enviasse um código de acesso recebido por e-mail. “Desconfiei porque algumas palavras usadas estavam um pouco estranhas, fora da personalidade normal dele. Sendo expert da indústria ou não, todo mundo está sujeito a esses riscos”, afirma Rozenberg.
Na avaliação da executiva, o crescimento dos deepfakes está diretamente ligado à redução dos custos necessários para produzir fraudes digitais.
Isso permite que criminosos gerem conteúdos falsos em poucos segundos e operem em larga escala, sem a necessidade de conhecimentos avançados em tecnologia.
“Quando se pensava em fraude 30 anos atrás, era necessário falsificar um documento, imprimir algo numa impressora boa, recortar uma foto falsa etc. Hoje, com a IA, tudo é muito replicável”, diz a especialista.
A circulação cada vez maior de imagens e vídeos produzidos por inteligência artificial também contribui para a disseminação das fraudes. Pesquisa realizada pela Veriff mostra que 80% dos brasileiros entrevistados afirmaram já ter encontrado deepfakes na internet. Apesar disso, apenas 29% demonstraram capacidade de identificar corretamente um vídeo manipulado.
No estudo, os participantes receberam 16 conteúdos em ordem aleatória para análise. Metade deles era autêntica. Os demais haviam sido produzidos ou alterados com inteligência artificial, incluindo vídeos manipulados e montagens em que o rosto de uma pessoa era inserido no corpo de outra.
Segundo os especialistas, não existe um perfil específico de vítima. A massagista Verônica, de 52 anos, moradora do Pará e identificada por nome fictício, recebeu mensagens de áudio enviadas por alguém que se passava por seu filho. A voz reproduzida era idêntica à dele. A fraude só foi descoberta quando o jovem retornou para casa e a mãe comentou o pedido de ajuda financeira.
O primeiro passo envolve a coleta de dados. Criminosos utilizam informações obtidas em vazamentos de dados, perfis de redes sociais e conteúdos públicos como fotos, vídeos e gravações de voz. Na etapa seguinte, ocorre a abordagem das vítimas e consequente golpe.
Como reduzir os riscos
Especialistas recomendam alguns cuidados básicos para diminuir as chances de cair em golpes envolvendo inteligência artificial:
- Desconfiar de promoções e ofertas muito vantajosas;
- Confirmar contatos suspeitos por outros canais oficiais;
- Evitar compartilhar informações pessoais sem necessidade;
- Ativar a verificação em duas etapas em aplicativos e redes sociais;
- Conversar sobre o tema com familiares e amigos para ampliar a conscientização.