Há livros que não pertencem ao tempo em que foram escritos. Eles parecem viver em suspensão, como se aguardassem uma segunda chance de ser lidos — não apenas como obra, mas como vestígio de uma presença.
Crônica da Banalidade, publicado em 1988, é um desses casos. Quarenta anos depois de sua gestação no mundo e quase uma década após a morte de seu autor, o jornalista e escritor Carlão de Souza, o livro volta a circular. Mas não retorna sozinho: traz consigo a matéria viva de uma vida inteira atravessada pela escrita, pela boemia, pelas redações e por uma forma muito própria de estar no mundo.

Carlão costumava se definir, em suas redes, como alguém que embarcou por engano em uma “máquina do tempo com defeito”. A imagem, meio confissão, meio ironia, parece condensar o tipo de relação que ele manteve com a própria existência: deslocada, intensa, inquieta, sempre um pouco fora de lugar — e, por isso mesmo, profundamente viva.
Na manhã de 16 de agosto de 2019, essa viagem interrompeu seu curso. Carlão morreu após enfrentar um câncer. O jornalista, professor, cronista, poeta, dramaturgo e editor deixou a esposa Sônia e os filhos Alex, Sérgio e Constância. Mas também deixou algo menos nomeável: uma forma de presença que continua se reorganizando na memória de quem o conheceu e de quem, agora, o lê.
Para o filho mais velho, o jornalista Alex Souza, o Carlão que existia fora das redações já não era exatamente o homem público que marcou a cultura potiguar. Na maturidade, diz ele, o pai se tornou profundamente caseiro. Viveu sua última década em uma casa no Pium, em Parnamirim, onde o mundo parecia entrar filtrado: pelas leituras, pelo noticiário, pela música, pelas visitas dos amigos ou pelos bares próximos. Um cotidiano que misturava recolhimento e escuta.
“Em casa, ele alternava os momentos de lazer com muitas leituras, acompanhar o noticiário, ouvir música e escrever”, relata Alex. Não havia ruptura entre o homem e a escrita — apenas uma mudança de temperatura. O mundo não deixava de entrar; apenas mudava de forma.
Entre as lembranças que retornam ao filho, uma se repete com força inesperada: a do velório. Não pela solenidade da despedida, mas pelas pequenas conversas que aconteceram ali. Pessoas que se aproximavam para dizer que estavam presentes não apenas para lamentar a morte, mas para reconhecer um gesto anterior — o gesto de ter sido publicado, ouvido, acolhido em algum momento por Carlão.
“Ele era alguém muito generoso, no pouco ‘poder’ que tinha, e usava para dar visibilidade aos escritos alheios”, lembra Alex.
A generosidade, nesse caso, não aparece como virtude abstrata. Ela se materializa na rotina de editor de cidade, de cultura, de coluna literária. Um trabalho que não apenas organizava textos, mas abria espaços.
A literatura de Carlão não se escondia da casa — mas também não a invadia completamente. Segundo Alex, os livros geralmente chegavam prontos, como se o pai os entregasse ao mundo apenas quando já não podiam mais ser interrompidos.
Ainda assim, havia colaboração. Em Cachorro Magro, por exemplo, pai e filho dividiram a etapa de diagramação, em meio à rotina do Diário de Natal. Em Cidade dos Reis, Alex revisou o original antes da publicação. Em Urbi, a parceria se intensificou: revisão, projeto gráfico, capa — tudo feito em uma semana.

Mas mesmo nesses encontros, havia uma distância respeitosa entre criação e processo familiar. A escrita permanecia como um território próprio de Carlão, reservado, quase secreto. Quando pensa hoje em Crônica da Banalidade, Alex evita a leitura como simples herança afetiva. O livro, diz ele, sobrevive por uma longevidade que ninguém — nem leitores, nem o próprio autor — poderia prever.
A obra nasceu de um tempo específico: a juventude de Carlão, nos anos 1980, atravessada pelo fim da ditadura, pela sensação de liberdade recém-aberta e por uma cidade ainda limitada em horizontes.
O personagem central — um músico frustrado entre o jazz, a noite e a tentativa de fuga — carrega esse espírito de deslocamento. Um mundo que pulsa, mas não se encaixa.
“Refletia muito a visão de mundo que ele tinha à época”, resume Alex.
A escrita, naquele período, parecia atravessada por excessos. A própria família reconhece: havia birita, boemia, juventude em estado bruto. O texto foi escrito à mão, depois datilografado pela ex-companheira Jô Medeiros, revisado e cortado até ganhar forma final.

Mas o tempo reorganiza a imagem. O que antes era fluxo, depois se torna foco. O que era impulso, vira método. E talvez seja nesse deslocamento que o livro encontra sua permanência.
O relançamento de Crônica da Banalidade não nasce de um único gesto. Ele se constrói a partir de uma rede afetiva e editorial que envolve família, amigos e o editor Abimael Silva, do Sebo Vermelho — figura central na manutenção da obra de Carlão em circulação.