“Sensual, salgado e surpreendente”. É assim que a cantora e compositora Cami Santiz define seu álbum de estreia, SALINA, lançado nesta quinta-feira 28. O trabalho, que conta com 9 faixas, marca um ponto de virada: o momento em que a artista assume, de forma definitiva, seu lugar na música e transforma trajetória e identidade em linguagem.
Construído a partir de referências nordestinas, vivências pessoais e um processo criativo intenso, SALINA se apresenta como uma obra que vai além da música e se afirma também como narrativa. É um álbum que nasce de deslocamentos — geográficos e simbólicos — e que encontra justamente na mistura sua força estética e identidade.

Antes de chegar a esse ponto, no entanto, houve um percurso de reconhecimento e apropriação. “Artista. É um termo que demorei a me apropriar. Não venho de família de músicos, pintores, ou qualquer outro tipo de arte… isso parecia distante de mim. No momento que me reconheci como artista, uma chave virou. Hoje digo, sou compositora, cantora, mas também tenho um lado acadêmico, sou psicóloga de formação e também me formei em produção audiovisual. Sou amazonense, mas metade potiguar. Resumidamente, sou uma criativa crônica. Sou curiosa em explorar todo o meu potencial criativo, e viciada em enfrentar os meus maiores medos. O palco me dava muito medo, hoje… o medo se transformou em potência.”
Essa potência encontra forma em SALINA, um álbum que nasce do território. Ao chegar em Natal, Cami se deparou com uma narrativa que parecia simples, mas carregava camadas: a terra do sal e do sol. “Quando eu cheguei em Natal, ouvi falar que o Rio Grande do Norte era a terra do sal e do sol. Bom, o sol fica evidente, mas onde está o sal? Dentro das minhas pesquisas, descobri que somos o segundo maior produtor de sal do mundo, e nosso Estado também é o maior produtor de sal do Brasil. A partir disso, tracei um paralelo forte entre a arte que em grande medida vem do Nordeste e o sal que está sempre na mesa do brasileiro.”
A metáfora se amplia. O sal que tempera, conserva e se espalha sem que sua origem seja reconhecida encontra eco na produção cultural nordestina, muitas vezes consumida, mas nem sempre valorizada. “Então decidi fotografar a capa nas salinas de Mossoró de forma especial. Isso também se reflete na minha trajetória porque o sal formado nessa região vem de uma mistura de água do rio e água do mar… e isso é exatamente o que eu sou. Eu venho de águas doces e me criei na água salgada.”
A dualidade também aparece na construção sonora. O disco se divide em dois lados, como se convidasse o ouvinte a percorrer diferentes atmosferas. “Meu disco apresenta um lado A e um lado B. No lado B, o lado dançante, eu trago esse balanço utilizando principalmente elementos da bregadeira, do brega e do arrocha, de forma mais específica os elementos percussivos.”

A artista cita referências que atravessam o Nordeste: “Banda Grafith, Lucas Boquinha e MC RB KBLZ”, além de nomes como Silvanno Salles, Rachel Reis, Duda Beat e Jadsa. “São artistas que têm identidades muito fortes e que me remetem ao Nordeste, tanto da cultura de paredão quanto da música alternativa.”
Se o som carrega o território, a voz também não abre mão de suas raízes. “Eu não deixo de lado o meu sotaque nortista ao cantar. Mas as letras e paisagens que vou desenhando na composição remetem às praias de Natal, momentos que vivi aqui na cidade e símbolos que para mim são Natal… dunas, mar, sol, areia, mergulho quente. Não tem como, eu sou uma mescla dos dois lugares.”
A construção do álbum, no entanto, não seguiu caminhos fáceis. Pelo contrário, foi marcada por insistência e entrega total. “Tenho muito orgulho de afirmar que foi uma produção 100% independente, feita em um estúdio caseiro.”
Entre jornadas duplas e madrugadas, o disco tomou forma. “Durante a semana nós trabalhávamos em nossos empregos formais e, pela noite, trabalhávamos no disco. Aos finais de semana também. Foi a base de muito sacrifício.”
A dedicação foi absoluta. “Confesso que me tornei reclusa e dedicada 100% à arte. A arte nos consumiu de verdade e foi aí que percebi que eu de fato amava fazer música.” O projeto também se fortalece no coletivo, com participações de artistas potiguares como TINOC, Ian Medeiros, Tati Anolino, Cuca, além da masterização de Alexandre Maiorino.
Ainda assim, o caminho de artistas nordestinos segue atravessado por desafios estruturais. “A gente sabe que os maiores investimentos no mercado da música estão entre Rio e São Paulo. E quando a arte daqui é consumida, às vezes as pessoas nem sabem que estão escutando um artista potiguar. É como o sal: está sendo consumido, mas poucos se interessam genuinamente pela fonte.”
A cantora compartilha que o sentimento de lançar o álbum é de “ânimo, alívio e orgulho”. O percurso até aqui, segundo ela, já trouxe experiências significativas. “A música me surpreendeu muito: passos gigantes, palcos gigantes, pessoas que conheci, artistas que admirava me reconhecendo, Mada, DoSol, Teatro Riachuelo e tudo isso… sem ainda ter um disco.”
O tempo de maturação também foi decisivo. “Meu disco quase estreou ano passado, mas eu não estava com o sentimento de que estava pronto. Eu não me orgulhava totalmente.” A decisão de adiar o lançamento aponta para uma escolha artística consciente. “Eu estava seguindo uma lógica de mercado, então freei isso e coloquei a arte e sua qualidade em primeiro lugar.”
O resultado, agora, reflete esse processo. “Agora posso dizer que está simplesmente encantador. Eu gosto de me escutar, escuto meu disco para ir trabalhar, na praia, no chuveiro… virei fã de mim mesma.”
Ao final, SALINA se mostra mais do que uma estreia. É um trabalho que reúne referências, vivências e escolhas em forma de música — e que posiciona Cami Santiz como uma artista que entende exatamente o que quer dizer e como quer ser ouvida.