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Saúde

Nova terapia corta colesterol ruim

Pesquisa com 35 pacientes mostrou redução prolongada do colesterol ruim após aplicação única de terapia experimental
Por O Correio de Hoje
28/05/2026 | 14:17

Um estudo preliminar publicado no The New England Journal of Medicine mostrou resultados considerados promissores para o tratamento do colesterol alto por meio de edição genética. A pesquisa testou uma terapia experimental capaz de reduzir de forma prolongada os níveis de LDL, conhecido como colesterol ruim, após apenas uma aplicação intravenosa. O ensaio clínico envolveu 35 pacientes e reacendeu o debate sobre o uso da edição genética como ferramenta de prevenção de doenças cardiovasculares.

Os participantes do estudo apresentavam níveis muito elevados de colesterol LDL ou doença cardíaca. Segundo os pesquisadores, alguns pacientes registraram redução de até 62% nos níveis de LDL após o tratamento. Parte dos voluntários já foi acompanhada por 18 meses, período em que a queda permaneceu estável. A pesquisa será ampliada e deve incluir cerca de 200 pacientes na próxima etapa, enquanto o total previsto do estudo chega a 85 participantes.

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Terapia experimental de edição genética reduziu em até 62% os níveis de colesterol LDL - Foto: Freepik

A tecnologia utilizada atua diretamente no gene PCSK9, responsável pela produção de uma proteína ligada ao controle do colesterol no sangue. O tratamento usa uma “máquina” de edição genética transportada por partículas revestidas de gordura até o fígado. Ao chegar ao órgão, o material entra nas células hepáticas e localiza o gene-alvo. A partir disso, ocorre a substituição de uma “letra” do DNA por outra, processo que desativa o gene PCSK9 e reduz a produção da proteína associada ao aumento do LDL.

Sem a atuação dessa proteína, o organismo consegue retirar mais colesterol da corrente sanguínea, mantendo níveis menores de LDL ao longo do tempo. A proposta é que a alteração genética produza um efeito permanente, dispensando aplicações frequentes de medicamentos tradicionais utilizados atualmente para controle do colesterol.

O estudo foi liderado por Sekar Kathiresan, CEO da Verve Therapeutics, empresa subsidiária da farmacêutica Eli Lilly responsável pelo desenvolvimento da terapia. Segundo os cientistas envolvidos, a intenção é oferecer uma alternativa para pacientes que apresentam dificuldade de manter tratamentos contínuos contra colesterol elevado.

“Temos esse debate sobre novas diretrizes que indicam que devemos tratar pessoas mais cedo”, afirmou o médico John P. Alexander, cardiologista da Universidade Duke, nos Estados Unidos, que não participou do estudo. “Uma terapia curativa mudaria o jogo.”

Apesar dos resultados considerados positivos, especialistas alertam que ainda são necessários estudos maiores e um período mais longo de observação antes de qualquer aprovação regulatória. Michael Gaziano, diretor de cardiologia preventiva do sistema de saúde VA Boston, afirmou que “precisamos de muito mais dados de segurança”.

Nos Estados Unidos, a Food and Drug Administration (FDA), agência reguladora norte-americana, exige que pacientes submetidos a terapias genéticas sejam acompanhados por até 15 anos para monitoramento de possíveis efeitos a longo prazo. A preocupação está relacionada principalmente à segurança do processo de edição genética e aos impactos permanentes da alteração no DNA humano.

As doenças cardiovasculares seguem entre as principais causas de morte no mundo. Apenas nos Estados Unidos, essas enfermidades provocam cerca de 800 mil mortes por ano. O colesterol elevado é um dos principais fatores de risco para infartos, AVCs e outras complicações cardíacas.

Hoje, os níveis altos de LDL são tratados principalmente com medicamentos de uso contínuo, como as estatinas. Também existem terapias injetáveis mais recentes que bloqueiam a proteína produzida pelo gene PCSK9, mas esses tratamentos exigem aplicações periódicas.

Além das limitações médicas, especialistas apontam dificuldades relacionadas à adesão dos pacientes. Muitos abandonam o tratamento ao longo do tempo. Segundo o texto publicado pelo The New England Journal of Medicine, entre um terço e metade dos pacientes interrompem o uso de medicamentos para redução do colesterol em até um ano após o início do tratamento, mesmo após sofrerem problemas cardíacos.

A norte-americana Kristy Faulkner, de 45 anos, moradora de Guilford, Connecticut, participou do estudo. Ela relatou resistência ao uso contínuo de medicamentos, apesar do histórico familiar de doenças cardíacas e de já ter sofrido um ataque cardíaco aos 42 anos.

“Existe uma espécie de negação interna, como se eu não pudesse tomar esses remédios todos os dias da minha vida”, disse. “Eu entendo a importância e me sinto envergonhada.” A cardiologista Erica Spatz, da Universidade Yale, afirmou que o plano de saúde de Faulkner passou a cobrir um inibidor de PCSK9 administrado apenas a cada seis meses. Segundo a médica, “não há margem para erro”.

Outro desafio apontado envolve o custo das terapias genéticas. Os tratamentos baseados em edição genética podem atingir valores milionários. Daniel Skovronsky, cientista-chefe da Eli Lilly, afirmou que esse não seria o objetivo caso o medicamento seja aprovado. “Não é isso que buscamos”, declarou. “Buscamos um medicamento que um dia possa fazer parte da atenção primária à saúde.”

Outra participante do estudo foi Alice Thomas, de 64 anos, moradora de Lexington, na Carolina do Norte. Ela contou que desejava reduzir os níveis de colesterol, mas não conseguia manter os medicamentos devido aos custos. Segundo Thomas, sua aposentadoria era a única fonte de renda e os remédios disponíveis apresentavam preços elevados ou causavam efeitos colaterais.

O plano de saúde da paciente não aprovou medicamentos injetáveis para redução do colesterol. Ela já havia sofrido um AVC e, em alguns momentos, chegou a registrar LDL em 190. “Eu não tinha nada a fazer”, afirmou Thomas. “Então descobri este estudo.” Alice Thomas recebeu a infusão da terapia experimental em 30 de março. Duas semanas depois, seu colesterol caiu para 50. “Isso é ótimo”, comemorou. “Uma única aplicação.”