Cami Santiz, a nova artista pop do Rio Grande do Norte, lança nesta quinta-feira 28, às 21h, seu álbum de estreia “SALINA”, pelo selo Alá Comunicação. Um trabalho que transforma identidade territorial nordestina, romances litorâneos e sotaque nortista em linguagem musical. O ponto de partida do álbum surge de uma pergunta simples: se o RN é conhecido como a Terra do Sal e do Sol, por que o sal ocupa um lugar tão discreto? A partir dessa inquietação, Cami encontrou nas salinas potiguares uma poderosa metáfora para sua própria trajetória artística.
Para além da evidente referência do tempero que realça o sabor, “SALINA” faz menção à produção de sal no Rio Grande do Norte, uma vez que o Estado é a segunda maior região salineira do mundo. O álbum busca, desde seu nome, traçar um paralelo entre a produção artística e salineira do Brasil: o sal e a arte brasileira vem, em grande medida, do Nordeste. Mesmo quando suas raízes nem sempre são reconhecidas.

Salina pode ser também um adjetivo – mais que salgada –; salina também é ser parte do Rio Grande do Norte, cuja capital costeira é banhada pelas águas salgadas do Atlântico, e os morros de sal dominam a paisagem no interior. A própria formação do sal inspira uma das imagens centrais do projeto. Em Mossoró (fotografia da capa do disco), o sal nasce do encontro entre a água doce dos rios e a água salgada do mar. Para Cami, essa convergência também espelha sua própria construção identitária.
Nascida na região Norte e criada no Nordeste, a artista encontra nesse cruzamento de origens uma metáfora para sua trajetória, marcada por deslocamentos, misturas e encontros. Entre paisagens solares salgadas e pelos sentidos abrangentes em torno da mística do elemento (o que dá sabor, o que purifica, o que conserva e identifica), o disco de estreia de Cami Santiz sintoniza a sedução dos sentidos por meio do que as várias conexões sonoras aqui convergem para formar o universo do disco.
Musicalmente, “SALINA” expande a pesquisa sonora iniciada nos singles da cantora. A presença da bregadeira surge como uma extensão natural desse percurso, inspirada por referências que marcaram sua formação musical, especialmente a Banda Grafith e a cultura de paredão tão característica do Nordeste. A figura da sereia, presente desde trabalhos anteriores da artista, reaparece como um dos símbolos. Essa sensualidade também se manifesta como uma escolha estética na forma de interpretação vocal de Cami Santiz, marcada pelo uso da voz explorando nuances, timbres e intenções que reforçam o caráter íntimo e envolvente das canções.
A cantora traz para as composições do disco narrativas inspiradas no cotidiano da cidade litorânea, da pele queimada e tonificada pelo sol à brisa do mar sentida no balançar da rede, o descanso na areia, e até os conflitos e fenômenos socioespaciais nas orlas marítimas. Mas sobretudo, o conjunto de canções traz em suas letras os romances em todo o sabor e suculência do sal que se espalha no litoral nordestino. A sonoridade tropical que perpassa o disco é um convite à beira mar. É conduzida por cruzamentos singulares, para dançar ou contemplar.

A bregadeira encontra o lo-fi, assim como o chill-wave com a arrochadeira, numa ponte pelo trip-hop, os sons de sintetizadores e as ambiências atmosféricas de guitarras passando em espectro pelas canções. Essa travessia também acontece dentro da própria narrativa do disco. Um interlúdio marca a passagem de uma primeira metade mais solar para um território mais soturno e contemplativo, como quem vê o pôr do sol na praia fazendo a sua passagem para virar a noite.
A partir desse momento, as canções assumem atmosferas mais densas, introspectivas e cinematográficas, refletindo diferentes estados emocionais provocados pela paisagem costeira. O álbum “SALINA” propõe-se, então, a ser resultado de uma experimentação musical com ritmos tradicionais nordestinos e latinos em fusão com expressões contemporâneas urbanas. Como quem sai debaixo da luz do sol na areia da praia e passa a ser iluminada pelos neons espalhados pela cidade.
A capa do disco é solar como a experiência de ouvir o conjunto de canções, e traduz visualmente faixas como Frenesi e Canto da Sereia, mas também invoca a malemolência que há em Sigilo e Latina BB. Enraizadas na cultura e no território, as imagens que compõem o projeto dão conta da ligação entre corpo e espaço, entre a riqueza dos sentidos (como na sinestesia presente na faixa Pura Puríssima) e a profundidade dos sabores. “SALINA” é tropical, e também sexy.
Mais do que apresentar um conjunto de músicas, “SALINA” representa a afirmação de uma identidade artística. É o trabalho em que Cami Santiz reúne suas influências, seu percurso pessoal e sua visão sobre a cultura pop produzida a partir do Nordeste. Segundo Cami Santiz, o disco é resultado do amadurecimento das experiências dos últimos movimentados anos de carreira (que são, ainda, os seus iniciais). “Fui aprendendo e testando tudo em cima do palco. O palco foi meu professor”. O disco é resultado de um processo com amigos e companheiros de composição.