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Saúde

Dormir mal na terceira idade compromete memória

Médico afirma que insônia, apneia e despertares frequentes não devem ser tratados como consequências normais do envelhecimento
Por O Correio de Hoje
22/05/2026 | 14:56

Dormir mal de forma frequente não deve ser tratado como simples consequência da idade, nem como incômodo passageiro sem importância. Quando a dificuldade para dormir se repete, provoca cansaço durante o dia, sonolência, irritabilidade, falhas de memória, despertares noturnos ou sensação de sono não reparador, pode ser sinal de distúrbios do sono ou de outras doenças que precisam de avaliação médica. O alerta é do médico geriatra Belisio Neto, que destaca que o sono tem papel direto na saúde física, mental e cognitiva, especialmente entre pessoas idosas.

O especialista ressalta que o sono do idoso é diferente do sono de um adulto jovem. Com o envelhecimento, a pessoa tende a ter sono mais superficial, maior facilidade para despertar durante a noite e menor tempo de sono profundo. Essa mudança interfere na recuperação do organismo, no fortalecimento do sistema imunológico e na consolidação da memória.

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Geriatra Belisio Neto: qualidade do sono interfere na imunidade e saúde - Foto: Reprodução

“As pessoas idosas têm um sono um pouco diferente do adulto jovem. Elas têm um sono mais superficial, elas têm um menor tempo de sono profundo. Isso faz muita diferença na saúde”, explicou Belisio Neto, em entrevista à 95 FM Caicó.

O médico detalhou que o sono passa por diferentes fases. A fase N1 corresponde à transição entre estar acordado e adormecer, sendo mais leve. A N2 é uma etapa intermediária, importante para a recuperação. Já a N3 é a fase mais profunda, quando o organismo “recarrega as baterias”, fortalece defesas e sedimenta memórias. Nos idosos, essa etapa profunda costuma ser menor. Há ainda o sono REM, fase em que podem aparecer alguns transtornos comportamentais.

Belisio afirmou que entre 40% e 60% das pessoas idosas apresentam algum transtorno do sono. Entre os principais está a insônia, que pode aparecer de formas diferentes. A insônia inicial é a dificuldade para pegar no sono. A insônia de manutenção ocorre quando o paciente dorme, mas acorda no meio da noite. Já a insônia tardia, ou terminal, acontece quando a pessoa desperta mais cedo do que deveria e não consegue voltar a dormir.

Para o geriatra, a principal pergunta não é apenas quantas horas alguém dormiu, mas como acordou no dia seguinte. Cansaço, fadiga, cochilos frequentes, dificuldade para levantar da cama, sonolência, desatenção e esquecimento são sinais de alerta. “Eu sempre digo que, para você avaliar o sono de uma pessoa, é preciso que você saiba como é que é o outro dia da outra pessoa”, afirmou.

O alerta ganha peso em um cenário no qual os problemas do sono atingem parcela expressiva da população. O Ministério da Saúde cita estudos da Fiocruz segundo os quais 72% dos brasileiros sofrem com alterações no sono, incluindo insônia. Entre os distúrbios mais comuns estão insônia, apneia obstrutiva do sono, síndrome das pernas inquietas, sono insuficiente e atraso de fase do sono.

O médico Belisio Neto também chamou atenção para comportamentos que podem ocorrer durante o sono e que nem sempre são percebidos como doença. Pessoas que falam dormindo, gritam, se debatem, caminham pela casa, têm terror noturno ou chegam a cair da cama podem apresentar transtorno comportamental do sono REM. Em alguns casos, esses sintomas se relacionam a doenças neurológicas, como Parkinson e Demência por Corpos de Lewy.

Outro problema citado foi a síndrome das pernas inquietas, quando o paciente sente agonia ou inquietação nas pernas e só melhora ao movimentá-las. Quando interfere no sono, a condição precisa ser investigada. Segundo o médico, ela pode estar associada a anemia, insuficiência vascular, Parkinson e outros quadros neurológicos.

A apneia do sono foi definida por Belisio como uma “epidemia silenciosa”. O problema ocorre quando há dificuldade de passagem do ar durante o sono, geralmente acompanhada de ronco e, em alguns casos, paradas respiratórias. Muitas pessoas não sabem que têm apneia, porque acreditam ter dormido a noite toda. Quem costuma perceber são familiares ou companheiros de quarto.

“Esses indivíduos têm um sono de má qualidade. Ele não aprofunda aquelas fases do sono da maneira adequada, porque no meio do sono aquele ronco representa que ele tem uma dificuldade de passagem e, por vezes, dá paradas respiratórias”, explicou. Segundo o médico, cerca de 40% da população pode ter apneia do sono.

As consequências vão além do cansaço. A apneia pode aumentar o risco cardiovascular, dificultar o controle da pressão arterial, piorar doenças do coração, alterar o metabolismo, dificultar a perda de peso e manter o organismo em estado inflamatório. Mesmo passando muitas horas na cama, a pessoa pode acordar exausta porque o sono é interrompido repetidamente.