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Transtorno

Obsessão com a aparência física pode indicar transtorno mental

Condição psiquiátrica afeta percepção do próprio corpo e está associada a ansiedade, depressão e pensamentos suicidas
Por O Correio de Hoje
21/05/2026 | 13:20

A preocupação excessiva com supostos defeitos físicos, muitas vezes imperceptíveis para outras pessoas, é uma das principais características do Transtorno Dismórfico Corporal (TDC), condição psiquiátrica que pode afetar de forma intensa a saúde mental, os relacionamentos e a rotina dos pacientes.

O transtorno é marcado por pensamentos persistentes relacionados à aparência física e pela percepção distorcida do próprio corpo. Pessoas com TDC costumam acreditar que possuem imperfeições graves, mesmo quando esses defeitos não existem ou são mínimos aos olhos de terceiros.

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Condição pode estar ligada à ansiedade - Foto: Freepik

A condição pode levar ao isolamento social, ansiedade, depressão e, em casos mais graves, comportamento suicida.

A reportagem cita o caso de Mandy Rosenberg, de 35 anos, moradora do Brooklyn, em Wisconsin, nos Estados Unidos. Desde a adolescência, ela passou a desenvolver uma preocupação constante com a própria aparência. Com cabelos ruivos e longos, além de sardas, ela relata que acreditava que o formato do nariz e a textura da pele eram defeituosos.

Ainda jovem, Rosenberg passou a evitar situações sociais e desenvolveu comportamentos repetitivos ligados ao espelho. Ela conta que passava horas tentando esconder falhas que percebia no rosto.

“Se não conseguisse fazer algo desaparecer, não queria mais viver”, afirmou.

Ela relata que evitava sair de casa sem maquiagem e que frequentemente interrompia atividades do cotidiano por causa da preocupação intensa com a aparência.

“Eu passava horas encarando o espelho”, disse.

Segundo especialistas ouvidos pela reportagem, pessoas com transtorno dismórfico corporal geralmente acreditam que são pouco atraentes ou deformadas, mesmo sem apresentar alterações físicas relevantes.

“Elas frequentemente têm uma visão diferente de si mesmas”, afirmou Katharine Phillips, especialista em TDC da Weill Cornell Medicine/NewYork-Presbyterian, nos Estados Unidos.

Os sintomas podem variar entre os pacientes. Alguns desenvolvem obsessão com partes específicas do corpo, enquanto outros apresentam preocupações múltiplas envolvendo rosto, cabelo, pele, nariz, dentes ou peso corporal.

De acordo com os especialistas, o transtorno costuma surgir ainda na adolescência. Estudos indicam que aproximadamente 2% a 3% da população convivem com a condição.

A pesquisadora Jamie Feusner, professora de psiquiatria da Universidade de Toronto, afirmou que o desenvolvimento do transtorno pode estar ligado à maneira como o cérebro processa imagens e detalhes visuais.

“Pessoas com TDC parecem ver o mundo de maneira diferente”, explicou.

Segundo ela, enquanto a maioria das pessoas observa o rosto como um conjunto, pacientes com TDC tendem a focar excessivamente em detalhes específicos.

“É como olhar para uma floresta e enxergar apenas uma árvore”, comparou.

Além dos impactos emocionais, o transtorno também pode afetar a vida profissional e acadêmica. Muitos pacientes evitam eventos sociais, ambientes de trabalho e até consultas médicas por vergonha da própria aparência.

Em alguns casos, pessoas com TDC recorrem repetidamente a procedimentos estéticos e cirurgias plásticas na tentativa de corrigir defeitos percebidos. No entanto, especialistas afirmam que as intervenções raramente aliviam o sofrimento psicológico de forma duradoura.

“Cirurgias e procedimentos cosméticos geralmente não resolvem o problema”, afirmou Phillips.

O diagnóstico do transtorno é feito por avaliação psiquiátrica e psicológica. Entre os sinais mais comuns estão a checagem compulsiva no espelho, tentativas frequentes de esconder partes do corpo, comparação constante com outras pessoas e pensamentos repetitivos relacionados à aparência.

Os especialistas também alertam para a relação entre o transtorno dismórfico corporal e outros problemas psiquiátricos. Dados citados na reportagem indicam que pessoas com TDC apresentam índices elevados de depressão, ansiedade e transtorno obsessivo-compulsivo.

O risco de suicídio também é considerado elevado. Estudos mostram que cerca de 80% dos pacientes apresentam pensamentos suicidas em algum momento da vida e aproximadamente um quarto já tentou suicídio.

O tratamento costuma envolver terapia cognitivo-comportamental e uso de medicamentos antidepressivos. Segundo os especialistas, o acompanhamento precoce pode ajudar a reduzir os sintomas e melhorar a qualidade de vida dos pacientes.

“Você não é sua aparência”, afirmou Phillips ao comentar a importância do tratamento e da reconstrução da autoestima.

Pesquisadores também avaliam que o aumento do uso de redes sociais e filtros digitais pode intensificar a pressão estética e contribuir para inseguranças relacionadas à aparência, especialmente entre adolescentes e jovens adultos.

Apesar disso, especialistas ressaltam que o transtorno dismórfico corporal é uma condição psiquiátrica complexa, associada a fatores biológicos, psicológicos e ambientais.