A voz de Lia de Itamaracá atravessa décadas como quem carrega o mar dentro do peito. Figura central da cultura popular pernambucana, a artista prepara agora um novo mergulho em sua própria trajetória com a série Maria Madalena – Lia de Itamaracá, produção audiovisual em seis episódios de 23 minutos que pretende revisitar não apenas a artista conhecida pelo Brasil, mas sobretudo a mulher por trás do mito.
O piloto da produção, incentivado com recursos do Funcultura Audiovisual, começou a ser gravado essa semana na praia de Jaguaribe, em Ilha de Itamaracá. O episódio servirá para a equipe da Ciranda Produções buscar patrocínio para a gravação da obra.

Entre documentário e ficção, a série vai reconstruir caminhos, dores, afetos e conquistas de Maria Madalena Correia do Nascimento, que transformou a ciranda em símbolo de identidade cultural brasileira. A produção acompanha desde a infância marcada pela pobreza e pela exclusão até o reconhecimento nacional e internacional.
“Eu sempre soube que seria artista. O povo ria de mim quando eu dizia isso ainda menina, porque naquele tempo uma mulher preta, pobre e da Ilha sonhar isso tudo parecia impossível. Mas eu nunca deixei de acreditar na minha voz, na minha ciranda e na minha história”, relembra Lia.
A estrutura narrativa da série mistura relatos íntimos da artista, encenações ficcionais com atores e atrizes, imagens de arquivo e performances musicais conduzidas pela própria Lia. Cada episódio será guiado por uma música, uma lembrança e um espaço simbólico da Ilha de Itamaracá. Com essa intimidade que a série conduz, a sobrinha Maria Salete, que carrega o apelido de “Preta”, e sua filha, Pietra Victória, 3 anos, sobrinha-neta de Lia, farão os papeis da artista na infância e no começo da vida adulta e artística.
As duas atrizes foram escolhidas pela cirandeira para interpretá-la. “Preta” também já esteve no papel da sua avó e mãe de Lia, Dona Matilde, no curta Dorme Pretinho (2024), baseado na música da cirandeira. O filme foi exibido em mais de 30 festivais de cinema e conquistou premiações, como o de melhor trilha no 15º Festival de Triunfo, em Pernambuco, e melhor filme no 5º Festival de Cinema Negro em Ação, no Rio Grande do Sul.
A proposta da série nasce do desejo da própria artista de registrar aquilo que ela chama de “a Lia antes da Lia”. Ou seja: a trajetória de Maria Madalena antes da consagração nos palcos e da fama. Uma história atravessada por questões raciais, sociais e territoriais, mas também pela força simbólica de uma mulher negra que transformou adversidade em permanência.
Ao longo de mais de seis décadas de carreira, Lia lançou quatro álbuns, tornou-se Patrimônio Vivo da Cultura Pernambucana, recebeu o título de Doutora Honoris Causa pela Universidade Federal de Pernambuco e foi homenageada por instituições no Brasil e no exterior.
Sua trajetória também dialoga com o cinema, tendo participado de produções de nomes como Tizuka Yamasaki, Lírio Ferreira e Kleber Mendonça Filho, em Bacurau e Recife Frio. Ao longo de 10 anos, uma equipe liderada pela cineasta Lia Letícia e pelo produtor Beto Hees já produziu mais de 10 mini-docs sobre Lia de Itamaracá.