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Política

Suplência de Jean Paul em chapa de Rafael Motta vira disputa na base governista

Declarações de Samanda e do PV colocam em xeque acordo do PDT e expõem disputa por espaços na chapa governista ao Senado
Por O Correio de Hoje
20/05/2026 | 15:30

A indicação de Jean Paul Prates (PDT) para a primeira suplência da pré-candidatura de Rafael Motta (PDT) ao Senado deixou de ser tratada como assunto resolvido dentro da base governista e virou novo ponto de tensão na montagem da chapa da esquerda para as eleições de 2026. O que, no fim de abril, foi anunciado pelo PDT como uma composição interna entre dois nomes do partido passou a ser questionado por dirigentes da Federação formada por PT, PV e PCdoB, sob o argumento de que a chapa majoritária envolve um conjunto mais amplo de partidos e não pode ser definida apenas por uma legenda.

O tema ganhou força depois que a vereadora Samanda Alves (PT), presidente estadual do PT no Rio Grande do Norte e pré-candidata ao Senado, afirmou que Jean Paul não está garantido como suplente de Rafael. Segundo ela, o grupo governista reúne hoje cinco partidos e pode chegar a oito, o que impede assegurar que o candidato ao Senado e o suplente sejam do mesmo partido. A declaração foi interpretada como um recado direto ao PDT e a Jean Paul, que aceitou a suplência depois de perder para Rafael a disputa interna pela candidatura ao Senado.

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Fátima Bezerra com chapa governista: Cadu Xavier, Samanda e Rafael Motta - Foto: Instagram / Reprodução

A fala de Samanda encontra eco em outros partidos da base. Em entrevista à 96 FM, o presidente estadual do PV, Rivaldo Fernandes, também disse que a suplência de Rafael está em aberto. “Está em aberto. Porque o Partido Verde segue um pouco a orientação do conjunto de partidos”, afirmou. Segundo ele, a questão ainda não foi formalmente discutida porque uma reunião da Federação foi adiada por falta de quórum, mas entraria na pauta dos próximos encontros.

Rivaldo disse que o PDT participa das conversas com o campo governista e citou a ex-deputada Márcia Maia, presidente estadual da legenda, como presença ativa nas reuniões. Ainda assim, deixou claro que a composição das suplências precisa ser submetida ao conjunto da aliança. “Isso não está em discussão ainda porque íamos ter agora a reunião que fica adiada. Onde essa questão iria ser tratada”, disse.

A disputa ocorre menos de um mês depois de o PDT anunciar Rafael Motta como pré-candidato ao Senado e Jean Paul Prates como primeiro suplente, numa composição apresentada pela legenda como uma espécie de “mandato compartilhado”. A decisão foi tomada após pesquisa interna que apontou Rafael com maior viabilidade eleitoral. Jean Paul, que havia deixado o PT depois de 12 anos e se filiado ao PDT para disputar o Senado, aceitou o resultado e informou que seguiria como primeiro suplente.

O problema é que a engenharia montada pelo PDT agora esbarra na necessidade de acomodar os demais partidos da base do governo Fátima Bezerra (PT). Além do PDT, estão na articulação PT, PV, PCdoB, PSB e outras siglas que podem se somar ao palanque de Cadu Xavier (PT), pré-candidato ao governo. A eventual chegada do PSDB, liderado pelo presidente da Assembleia Legislativa, Ezequiel Ferreira, aumentaria ainda mais a pressão por espaços na chapa.

Rivaldo Fernandes afirmou que a prioridade da esquerda é construir uma frente “mais ampla possível” e que a posição de Ezequiel é aguardada por ser capaz de ampliar as possibilidades de Cadu. Nesse desenho, a vice de Cadu, as suplências de Samanda e as suplências de Rafael passam a ser peças de uma mesma negociação. “Há uma preocupação com a ampliação da frente, a discussão do nome, a discussão do primeiro suplente, tudo isso. Até porque tem uma série de partidos e o pessoal não tem participado. Então tem que respeitar o pessoal”, afirmou.

O PV também quer entrar na composição. Rivaldo apresentou o nome do professor Emmanuel Nunes, de Mossoró, como opção do partido para uma suplência ao Senado. Segundo ele, o PV deseja participar da majoritária, sem impor nomes, mas ocupando espaço proporcional ao seu peso dentro da Federação. “Nós queremos compor a majoritária. Nós não estamos impondo, não. Nós temos que participar”, declarou.

A indefinição revela uma tensão maior dentro da esquerda. De um lado, o PDT tenta preservar o acordo interno que acomodou Rafael e Jean Paul. De outro, PT, PV e PCdoB defendem que a chapa seja definida coletivamente, sobretudo porque a eleição para o Senado será estratégica para o campo governista. A avaliação de Rivaldo é que a esquerda precisa evitar a repetição do ambiente de 2022, quando a divisão do campo adversário ao bolsonarismo ajudou Rogério Marinho (PL) a vencer a disputa para o Senado.

Na entrevista, o dirigente do PV citou o Coronel Hélio (PL), pré-candidato ao Senado, como ameaça real ao campo da esquerda. Para ele, se houver divisão excessiva entre os aliados, a direita pode ser beneficiada. “O coronel é uma ameaça”, disse. “Se tiver muita divisão do lado de cá e de outras figuras da própria direita, pode acontecer isso que o sistema não vai admitir.”

Rafael Motta carrega peso eleitoral próprio nessa discussão. Em 2022, disputou o Senado e terminou em terceiro lugar, com 385.275 votos, o equivalente a 22,76% dos votos válidos. Agora, volta à disputa no palanque de Cadu Xavier, ao lado de Samanda Alves, mas a composição de sua suplência passou a ser vista como moeda relevante para manter a unidade da aliança.

Jean Paul, por sua vez, chega fragilizado a mais uma negociação interna. Ex-presidente da Petrobras, ex-senador e ex-petista, ele deixou o PT após sucessivos desgastes e se filiou ao PDT com a intenção de disputar o Senado. Ao aceitar a suplência de Rafael, parecia ter encontrado uma saída política dentro do mesmo campo. A reabertura da discussão, porém, reacende o risco de novo constrangimento para o ex-senador.

A definição deve passar pelas próximas reuniões da Federação e pelas conversas com partidos aliados. Por enquanto, a chapa da esquerda segue com Cadu Xavier como pré-candidato ao governo, Samanda Alves e Rafael Motta como nomes ao Senado, mas ainda com peças importantes em aberto. A suplência de Rafael, antes tratada como acordo interno do PDT, virou agora uma disputa de poder dentro da própria esquerda.