Um Volkswagen Fusca de 1989 completamente desmontado e suspenso por cabos de aço é a imagem mais impactante da nova exposição do artista mexicano Damián Ortega no Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand.
A obra, intitulada “Coisa Cósmica” (Cosmic Thing), de 2002, é o destaque da mostra Matéria e Energia, primeira retrospectiva panorâmica do artista na América Latina. A exposição reúne 35 trabalhos produzidos entre 1992 e 2026 e poderá ser visitada até 13 de setembro.

Instalada entre o primeiro e o segundo subsolos do edifício Lina Bo Bardi, a obra permite que o público observe o veículo de diversos ângulos, inclusive de cima, graças às rampas que conectam os andares do museu.
A montagem impressiona pela sensação de que cada peça do automóvel flutua no espaço, como se o carro tivesse sido dissecado e congelado no ar. Damián Ortega, de 59 anos, diz que a exposição tem um significado especial em sua trajetória.
“É uma exposição muito importante para mim, emocionalmente e mentalmente.”
“Porque há 35 anos eu vim ao Brasil como um mochileiro, ao lado de um amigo argentino. Me apaixonei pelo país.”
“Já em 2002, quando vendi essa obra, decidi que teria que usar esse dinheiro para voltar ao Brasil. Me senti em casa, protegido pelo povo.”
O artista lembra que chegou a morar no Rio de Janeiro, nos bairros do Leblon e de Copacabana. “Vir ao Masp é bastante significativo”, afirma.
A exposição percorre mais de três décadas de produção e evidencia um traço marcante da obra de Ortega: a constante retomada de temas e materiais.
Esculturas dão origem a fotografias, que se tornam novas obras, ou são recriadas em escalas diferentes, num processo de investigação contínua.
“Cada obra vem de uma genealogia, ela tem um gene. Então, ela dá origem a outra.”
“Não existe esforço, vejo que uma chama pela outra”, explica.
Essa pesquisa incorpora materiais diversos, de tortilhas de milho a cimento, cerâmica e ferramentas.
Entre os trabalhos expostos estão as 150 garrafas de Coca-Cola moldadas em cerâmica e a instalação “Conjunto Habitacional”. Habitantes da Linguagem (1999), em que o título da obra aparece esculpido em letras de pedra.
Outro destaque é “Controlador do Universo” (2007), instalação formada por centenas de ferramentas — como martelos, alicates, cinzéis e níveis — suspensas em fios de aço, compondo uma espécie de explosão congelada no tempo.
O curador assistente da mostra, Yudi Rafael, destaca que o artista parte de elementos do cotidiano para construir reflexões sobre economia, trabalho e sociedade.
“O Damián parte da ideia de escultura.”
“São artistas que pensam a arte tridimensional a partir das imagens do cotidiano, do que estava ao seu redor.”
“Ele faz variações do mesmo tema. E seu trabalho pode ser visto menos por um viés produtivo e mais de investigação, de experimentação.”
Sobre “Controlador do Universo”, Yudi observa o efeito visual provocado pela obra.
“Dá a impressão de que as ferramentas estão avançando. A obra mostra praticamente um congelamento, a suspensão das coisas.”
Após a temporada em São Paulo, a exposição seguirá para o Centro Cultural Palacio de La Moneda, em Santiago.
O catálogo da mostra foi desenvolvido por uma equipe internacional e terá edições em português, inglês e espanhol. Além do trabalho como artista visual, Damián Ortega também atua no campo editorial. Em 2006, fundou a editora Aliás, dedicada à tradução e publicação, em espanhol, de textos de artistas contemporâneos.
Entre os autores já publicados estão os brasileiros Hélio Oiticica e Lygia Clark. “O que me interessa no momento é trabalhar para recuperar a arte que recebi como estudante”, afirma Ortega.
“Naquela época havia um interesse mais intelectual, formal. Acho que isso se perdeu nos dias de hoje por muitos motivos.”
“Quero que a arte esteja num lugar que esteja vivo, coletivo, político, que seja uma manifestação cultural.”