Depois de seis anos afastado das novelas, Antonio Fagundes está de volta à TV em uma participação especial em “Quem Ama Cuida”, nova novela das 21h da TV Globo. O retorno marca também um reencontro em cena com Tony Ramos, amigo de quase seis décadas.
A relação entre os dois começou há 58 anos e permanece marcada por afeto e bom humor. Na intimidade, Fagundes é “Fafá” e Ramos é “Tonico”. “Estamos começando ainda”, brinca Antonio Fagundes. “E cheios de sonhos”, completa Tony Ramos.

Ao longo da carreira, os dois contracenaram em poucas produções. O primeiro trabalho de Antonio Fagundes na televisão, “Antônio Maria”, em 1968, já teve Tony Ramos no elenco. Mais tarde, voltaram a atuar juntos em “Champagne” (1983), “Rainha da Sucata” (1990) e na minissérie “Mad Maria” (2005).
Antonio Fagundes descreve o amigo como alguém muito diferente da imagem formal que costuma transmitir. “Olhamos para o Tonico e dizemos: ‘É um senhor sério, montado’. Não tem nada disso. É um palhacinho, um ser humano brilhante, alegre e gostoso de se conviver.”
Tony Ramos devolve a brincadeira. “Vou continuar a ser o palhacinho. Mas não se enganem: o Fafá é o primeiro palhacinho. Somos sérios, mas com um humor desbragado.” “A vida sem humor é um porre. E um porre de bebida ruim”, acrescenta. “Dá ressaca”, emenda Antonio Fagundes.
Na nova novela, escrita por Walcyr Carrasco e Claudia Souto, os dois viverão personagens em lados opostos.
Antonio Fagundes interpreta Arthur Brandão, um rico empresário do ramo de joias, viúvo, solitário e em conflito com os familiares, interessados em sua fortuna. Fragilizado por uma doença, ele decide se casar com sua fisioterapeuta Adriana, personagem de Leticia Colin, neta de Otoniel, papel de Tony Ramos.
A atitude, porém, é recebida com desconfiança por Otoniel, um aposentado viúvo e de princípios rígidos. “Otoniel é conservador em muitas coisas, ranzinza em outras e irascível em muitas. Ele vê essa aproximação generosa como um abuso e não uma ajuda espontânea”, explica Tony Ramos.
Antonio Fagundes permanecerá em cena por pouco mais de dez capítulos, mas considera seu personagem decisivo para a trama. “É uma passagem episódica, mas definidora. É ele quem detona todos os conflitos maiores da trama.” “A relação dele com Adriana é totalmente platônica, de amizade. Ele se vinga de sua família e, ao mesmo tempo, compensa essa nova família amorosa”, acrescenta.
Tony Ramos resume o enredo como uma história sobre afeto, ambição e comportamento humano. Ao comentar a força dramática das novelas, ele recorda uma observação da autora Janete Clair. “Não é de novela. É da vida.”
A última novela de Antonio Fagundes havia sido “Bom Sucesso”, em 2019, pouco antes do encerramento de seu contrato fixo com a TV Globo, após 44 anos de vínculo com a emissora.
Nos últimos anos, o ator se dedicou prioritariamente ao teatro. Atualmente, está em cartaz em São Paulo com a comédia “Dois de Nós”, de Gustavo Pinheiro, ao lado de Christiane Torloni, Alexandra Martins e Thiago Fragoso. Segundo ele, o convite para a novela foi irresistível.
“Com o Tony à frente desse elenco, a Letícia [Colin], Isabel Teixeira, Dan Stulbach, Flávia Alessandra, Alexandre Borges, com a Amora Mautner dirigindo, não tinha como não aceitar. A novela propicia esse encontro social de atores.”
O fato de se tratar de uma participação especial também pesou na decisão. Foram três meses de gravações, conciliados com a agenda no teatro e com a remontagem da peça “Sete Minutos”, escrita por ele. “Encaixei [a produção] em um buraco da minha agenda. Um pouco forçado, pois fiquei sem dormir nesse período, mas foi muito gostoso.”
A rotina de Tony Ramos é diferente. Contratado da TV Globo há quase 50 anos, o ator afirma que continua seletivo em relação aos papéis que aceita. “Enquanto houver boas ideias e bons convites, eu vou topar.”
No próximo ano, ele pretende voltar aos palcos com a peça “O Que Só Sabemos Juntos”. “Essa é a minha vida. Não me vejo jogando sueca ou buraquinho. Nada contra. Mas, se Deus me permitir, não me vejo aposentado.”
Aos 77 anos e com quase seis décadas de carreira, Antonio Fagundes e Tony Ramos representam uma geração de atores veteranos que segue valorizada pelo público e pela teledramaturgia brasileira.
Tony Ramos atribui essa permanência à trajetória construída ao longo dos anos. “É uma cumplicidade de anos com nosso trabalho, com nossas histórias e nossa ética.”
Para Antonio Fagundes, a experiência acumulada amplia a capacidade de dar profundidade aos personagens. “Nosso trabalho não se resolve em uma novela. Você não constrói a vida de um personagem em 200 capítulos. É preciso trazer uma carga de experiência que, às vezes, só a maturidade traz.” “Quanto mais o ator tiver a observação e a compaixão exercidas em sua própria vida, mais ele tem a acrescentar aos personagens.”
Ele conclui lembrando que, no ritmo intenso da produção de novelas, o ator precisa chegar preparado. “Nesse processo industrial, o ator tem que estar pronto. Não adianta ele chegar apenas com o texto decorado; tem que chegar com o personagem pronto.”