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Finanças

Mesada sem exigências pode favorecer educação financeira, aponta estudo

Pesquisa baseada em dados do Pisa indica melhor desempenho entre adolescentes que recebem dinheiro sem contrapartidas
Por O Correio de Hoje
18/05/2026 | 12:46

Dar mesada aos filhos sem atrelar o pagamento ao cumprimento de tarefas domésticas ou ao bom comportamento pode ser uma estratégia mais eficaz para ensinar noções de educação financeira do que remunerar apenas quando há alguma contrapartida.

A conclusão é de um estudo publicado em março na revista Estudos Econômicos, da Universidade de São Paulo.

Mesada foto Conquista Solução Educacional Copia
Estudantes que recebem mesada sem necessidade de cumprir tarefas específicas apresentaram desempenho superior em prova - Foto: Conquista Solução Educacional / Reprodução

O trabalho foi conduzido pelos pesquisadores Ivana Carla Strapazzon, Marco Tulio Aniceto França e Gustavo Saraiva Frio, com base em dados do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa), exame coordenado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico e considerado a maior avaliação educacional comparativa do mundo.

Desde 2012, o Pisa oferece um módulo opcional voltado à educação financeira. O Brasil participa dessa etapa, embora nem todos os países optem por incluir esse conteúdo.

Na edição de 2018, utilizada no estudo, cerca de 38 mil adolescentes de 15 anos responderam a questões sobre temas como uso do dinheiro, transações, planejamento, gestão financeira, riscos e retorno de investimentos.

Ao analisar os resultados, os economistas verificaram que estudantes que recebem mesada como uma quantia regular, sem necessidade de cumprir tarefas específicas, apresentaram desempenho ligeiramente superior na prova.

O impacto foi pequeno, mas estatisticamente relevante. Segundo o estudo, a mesada sem condicionantes elevou a nota em 0,06 ponto em uma escala de zero a dez.

Na avaliação dos pesquisadores, a principal explicação é que, quando o dinheiro é entregue livremente, o adolescente ganha autonomia para decidir como utilizar os recursos, escolhendo entre gastar, poupar ou adiar compras. Esse processo estimula o desenvolvimento de habilidades práticas de gestão financeira e tende a favorecer conversas sobre dinheiro dentro da família.

Na casa de Eduardo Gomes Lima, essa é a estratégia adotada com as filhas Maria Eduarda, de 13 anos, e Estela, de 8. A mais velha recebe R$ 100 por mês, sem qualquer exigência. “Não adianta só falar ‘economiza’, tem que praticar”, afirma. Segundo ele, o objetivo é fazer com que as filhas aprendam a estabelecer prioridades e compreendam que compras maiores exigem planejamento e paciência.

A bailarina e professora Daniela Gomes Serra adotou abordagem diferente. Ela optou por vincular a mesada dos filhos à realização de tarefas domésticas.

Quando os filhos eram menores, Daniela pagava cerca de R$ 2 por atividade, o que rendia entre R$ 40 e R$ 50 por mês. Atualmente, a filha caçula, Ellena, de 10 anos, recebe em torno de R$ 100 mensais por atividades como arrumar a cama, retirar o lixo e ajudar na organização da casa.

Ainda assim, Daniela afirma que o principal objetivo é ensinar os filhos a lidar com o dinheiro e compreender o funcionamento do consumo. “Claro que compramos outras coisas por fora, mas ela já entende como funciona”, diz.

Para chegar às conclusões, os pesquisadores controlaram cerca de 20 variáveis que também podem influenciar o desempenho dos estudantes, como tempo dedicado aos estudos, participação em atividades extracurriculares, série escolar e grau de envolvimento dos pais na educação.

O questionário socioeconômico do Pisa, no entanto, não detalha quais tarefas os adolescentes realizam para receber a mesada nem o tempo gasto nessas atividades.

Segundo Ivana Strapazzon, essa é uma das limitações do estudo. “Sabemos que o aluno faz alguma atividade para receber aquele dinheiro, mas não se são tarefas domésticas leves, horas de trabalho na loja da família ou até o cuidado dos irmãos mais novos”, explica.

Na avaliação dos autores, quando a mesada depende do cumprimento de obrigações, o tempo gasto com essas atividades pode reduzir o período disponível para estudos, o que afeta o desempenho acadêmico de forma geral, inclusive em conteúdos ligados à educação financeira.

O resultado pode parecer surpreendente, já que a ideia de atrelar a mesada a tarefas costuma ser vista como uma forma de incentivar responsabilidade.

A própria Ivana Strapazzon afirma que esperava encontrar o efeito contrário. “No início, meu entendimento era que seria preciso dar alguma atividade para a criança para que ela melhorasse o desempenho (na prova), mas é o oposto”, afirma.

Para a educadora financeira Carol Stange, vincular a mesada a recompensas pode transmitir uma mensagem equivocada. “Colaborar com a casa faz parte da convivência familiar e não deveria ser remunerado.”

Na visão da especialista, o principal valor da mesada está em permitir que crianças e adolescentes façam escolhas, lidem com erros e aprendam com decisões impulsivas ou mal planejadas.

Ao experimentar, na prática, as consequências de gastar tudo de uma vez ou de poupar para um objetivo maior, os jovens desenvolvem competências que tendem a acompanhá-los por toda a vida financeira.