A atriz Grazi Massafera afirmou que busca equilibrar humor, autocrítica e leveza para enfrentar os desafios da vida pessoal e profissional. A reflexão, inspirada no texto “Para Maria da Graça”, de Paulo Mendes Campos, acompanha a artista em diferentes momentos da carreira, incluindo a reta final da novela “Três Graças”, da TV Globo, e os bastidores da produção de “Dona Beja”, série da HBO Max marcada, segundo ela, por dificuldades estruturais.
Em entrevista, Grazi comentou o processo de construção de Arminda, personagem que interpretou no folhetim que chega ao fim nesta sexta-feira 15. Para a atriz, o principal desafio foi encontrar equilíbrio entre o tom exagerado da personagem e aspectos mais humanos da trama.

“A dificuldade desta novela foi encontrar a medida entre o farsesco e o macabro. E precisava ter algumas camadas humanas, de dor, de insegurança. Por mais que ela fale uma coisa, sente outra. Essas contradições eram necessárias. Os limites foram tênues e exigiam estudo, por mais que parecesse que eu estava só brincando”, afirmou.
Grazi disse ainda que o trabalho exigiu preparação emocional e disciplina constante. Segundo ela, o retorno à televisão após um período afastada também influenciou sua relação com o ritmo intenso das novelas. A atriz afirmou que atualmente prefere espaçar projetos para priorizar momentos em família e atividades pessoais.
“Fiquei um tempo fora da TV e acho justo. Já emendei trabalhos, mas hoje prefiro não fazer isso. Gosto da minha vidinha em casa. Essa me alimenta demais. Quero ver todos os filmes do Oscar que não vi, peças, séries… Ler livros”, declarou.
Ela também comentou a parceria artística com Murilo Benício durante as gravações de “Três Graças”. Segundo a atriz, os dois criaram um “pacto de diversão” para aliviar o peso emocional das primeiras fases da novela, quando a personagem passava boa parte do tempo em conflitos familiares.
“Cheguei a me emocionar algumas vezes. Sou canceriana, totalmente emotiva. Aqueles três meses foram meio tensos para mim. Encontrei o Murilo e falei: ‘Está pesado.’ Ele disse: ‘Vamos nos divertir.’ Eu falei: ‘Pacto’”, relembrou.
A repercussão da química entre os atores nas redes sociais também foi mencionada durante a conversa. Antes mesmo da estreia da novela, fãs já comentavam a interação dos dois personagens. Grazi afirmou que existe uma “paixão artística” entre ela e Murilo Benício e classificou a conexão profissional entre os dois como “absurda”.
Ao comentar as críticas recebidas pelo público, especialmente em relação ao tom considerado caricatural de Arminda, Grazi disse que costuma acompanhar avaliações sobre seu trabalho, mas tenta separar observações construtivas de ataques pessoais.
“Quando eu lia sobre estar caricata, pensava: ‘A pessoa tocou no lugar certo.’ Agora tenho que ir no equilíbrio. A gente quer agradar ao público, claro”, afirmou.
Segundo a atriz, o diretor artístico Luiz Henrique Rios teve papel importante na escolha do elenco da novela. “Brinco que não tinha uma laranja podre. Sempre tem algo que desencaixa num trabalho, mas aqui, não”, disse.
Grazi também falou sobre os bastidores de “Dona Beja”, produção da HBO Max em que interpretou uma personagem marcada pela liberdade sexual e pelo comportamento contestador. A atriz afirmou que enfrentou um dos períodos mais difíceis da carreira por problemas ligados à estrutura da produção e da direção.
“Foi um dos trabalhos mais difíceis que já fiz, não pela parte artística, e sim estrutural. Aprendi muito”, afirmou.
Segundo ela, a experiência exigiu envolvimento em diferentes áreas além da atuação. “Eu cuidava da minha parte de maquiagem e figurino. Ficava ajudando na continuidade. Quando estava pirando, pensava: ‘Isso tem uma preciosidade que preciso valorizar’”, contou.
Apesar das dificuldades relatadas, Grazi afirmou que conseguiu tirar aprendizados positivos do processo e disse que saiu da produção com uma visão mais ampla sobre o trabalho artístico.
“Foram muitas questões, mas saí com o olhar amplificado, e isso me fez bem. Me diverti e fui feliz, apesar da produção conflituosa”, declarou.
As cenas de nudez e sexo presentes em “Dona Beja” também foram abordadas durante a entrevista. Grazi afirmou que encarou a personagem como uma oportunidade de aprendizado e entrega artística, sem receios relacionados à exposição.
“Quando li o texto, pensei: ‘Quero aprender com a disponibilidade dessa mulher.’ (…) Só existia aquela mulher tão livre, selvagem, como a gente deveria ser, mas foi algo roubado com toda esta construção social”, disse.
Ao falar sobre machismo e assédio, a atriz afirmou que situações desse tipo fazem parte do cotidiano das mulheres. Grazi contou que, ao longo da vida, passou a perceber comportamentos antes naturalizados e que hoje reconhece como reflexos de uma estrutura patriarcal.
“Qual de nós nunca passou por isso? Até então, a gente normalizava isso tudo. Quando você vai entendendo o que é, percebe que faz parte da rotina”, afirmou. Ela relatou ainda que vive episódios desconfortáveis mesmo em situações do cotidiano, especialmente por morar sozinha com a filha, Sofia, de 13 anos, fruto do relacionamento com o ator Cauã Reymond.
“Todo dia tem algo que penso: ‘Olha aqui o que está acontecendo…’ A gente lida com isso todo dia. Somos sobreviventes de um patriarcado que nos oprime”, declarou. Grazi também comentou uma publicação feita nas redes sociais com a frase “lágrimas do patriarcado”, divulgada na época em que surgiram notícias sobre supostos problemas envolvendo Cauã Reymond e Bella Campos nos bastidores da novela “Vale Tudo”. Segundo a atriz, a postagem não foi direcionada ao ex-companheiro. “Respeito muito o pai da minha filha”.