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Bem-estar

Corpo ativo, mente saudável

Pesquisas indicam que exercícios aeróbicos podem reduzir inflamações, estimular a dopamina e melhorar sintomas psicológicos
Por O Correio de Hoje
13/05/2026 | 12:30

Os efeitos positivos da prática de exercícios físicos sobre a saúde mental têm recebido atenção crescente da comunidade científica. Novos estudos indicam que atividades como caminhada, corrida, ciclismo e exercícios supervisionados podem ajudar a reduzir sintomas de depressão e ansiedade, além de provocar mudanças importantes no funcionamento do cérebro relacionadas ao humor e à motivação.

Pesquisas recentes apontam que os benefícios da atividade física vão além do condicionamento corporal e alcançam áreas ligadas ao equilíbrio emocional, à redução da inflamação e à melhora da plasticidade cerebral.

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Estudos recentes apontam que exercícios físicos regulares podem ajudar a reduzir sintomas de depressão e ansiedade, além de estimular mecanismos cerebrais ligados ao humor, à motivação e ao bem-estar emocional Foto: FreePik

Para pessoas que convivem com depressão, a recomendação para se exercitar pode parecer difícil de aceitar em um primeiro momento. O cansaço físico e mental frequentemente associado ao transtorno costuma tornar simples tarefas do cotidiano mais complexas. Ainda assim, especialistas afirmam que evidências científicas vêm reforçando o papel do exercício como ferramenta complementar no tratamento de problemas psicológicos.

Diversos estudos publicados nos últimos anos concluíram que a prática regular de atividades físicas está associada à melhora do humor e à redução de sintomas ligados à ansiedade.

Duas grandes análises divulgadas no início deste ano ampliaram ainda mais esse entendimento ao sugerirem que o exercício pode alcançar resultados semelhantes aos obtidos com terapias convencionais e antidepressivos em determinados casos.

A primeira dessas pesquisas, conduzida por cientistas do Reino Unido e da Irlanda, foi publicada em janeiro no formato de uma revisão Cochrane — modelo considerado um dos mais respeitados na área da saúde. O trabalho reuniu resultados de 69 ensaios clínicos randomizados desenvolvidos para medir os impactos do exercício físico sobre a depressão.

O segundo estudo, publicado em fevereiro no British Journal of Sports Medicine, utilizou uma meta-meta-análise baseada em mais de mil estudos envolvendo quase 80 mil participantes.

Os dois trabalhos chegaram a conclusões semelhantes: a prática regular de exercícios físicos reduz sintomas associados à depressão e à ansiedade em proporções comparáveis às observadas em tratamentos tradicionais.

Apesar disso, pesquisadores alertam que existem limitações metodológicas importantes nesses estudos.

Especialistas destacam que ensaios envolvendo exercícios físicos apresentam dificuldades específicas quando comparados a pesquisas sobre medicamentos. Em tratamentos farmacológicos, por exemplo, é possível utilizar placebo sem que o paciente saiba exatamente o que está recebendo. Já no caso da atividade física, os participantes sabem que estão se exercitando, o que pode gerar influência psicológica nas respostas relacionadas ao humor.

Por esse motivo, parte das revisões científicas considera que alguns dos estudos disponíveis apresentam “alto risco” de viés.

Além disso, muitos trabalhos compararam exercícios físicos com ausência de tratamento, e não diretamente com terapias ou antidepressivos. Isso dificulta conclusões definitivas sobre qual abordagem seria mais eficaz isoladamente.

Ainda assim, a maior parte dos pesquisadores concorda que os exercícios físicos exercem impacto positivo consistente sobre o humor.

“Não acho que seja uma comparação justa”, diz Jonathan Roiser, professor de neurociência da University College London, ao comentar as limitações das comparações diretas entre exercícios e tratamentos convencionais.

Segundo os estudos analisados, exercícios aeróbicos aparecem entre as modalidades mais associadas a benefícios emocionais. Caminhada, corrida e ciclismo figuram entre as atividades que demonstraram melhores resultados gerais.

As pesquisas também identificaram diferenças dependendo do transtorno analisado. Para casos de depressão, atividades realizadas em grupo ou com supervisão profissional parecem produzir efeitos mais relevantes do que exercícios praticados individualmente. Os benefícios também tendem a aumentar ao longo de vários meses de prática contínua.

Já em relação à ansiedade, os melhores resultados foram observados em exercícios de menor intensidade.

Especialistas ainda tentam compreender completamente os mecanismos biológicos responsáveis pelos efeitos positivos da atividade física sobre o cérebro.

Durante muitos anos, acreditou-se que a sensação de bem-estar após o exercício estava diretamente ligada à liberação de endorfinas, substâncias produzidas pelo organismo associadas à sensação de prazer. No entanto, pesquisas mais recentes apontam que essa explicação pode ser simplificada demais.

Um estudo publicado em 2021 mostrou que bloquear receptores opioides em corredores não eliminou a sensação de euforia relatada após a prática de exercícios nem reduziu a diminuição da ansiedade observada depois da atividade física.

Pesquisadores acreditam que os endocanabinoides — substâncias produzidas naturalmente pelo organismo que ativam receptores semelhantes aos estimulados pela cannabis — possam estar envolvidos nesses efeitos temporários relacionados ao humor.

Outros fatores biológicos também parecem influenciar diretamente a resposta emocional ao exercício. Estudos indicam que atividades físicas podem ajudar a reduzir processos inflamatórios, melhorar a plasticidade cerebral e estimular a transmissão de dopamina no cérebro.

A dopamina participa diretamente do sistema de recompensa e motivação do organismo. Segundo especialistas, o aumento dessa transmissão pode ajudar a combater a perda de motivação frequentemente associada à depressão.

Além dos efeitos biológicos, pesquisadores ressaltam benefícios psicológicos importantes proporcionados pelos exercícios.

A prática regular pode aumentar a sensação de realização pessoal, autonomia e domínio sobre pequenas metas do cotidiano — fatores reconhecidos por contribuir para a melhora do humor e da autoestima.

Especialistas afirmam que, embora os exercícios físicos não substituam necessariamente tratamentos médicos ou psicológicos, eles representam uma ferramenta relevante dentro de uma abordagem mais ampla de cuidado com a saúde mental.

Para os pesquisadores, os dados acumulados nos últimos anos reforçam que manter o corpo em movimento pode trazer impactos importantes não apenas para a saúde física, mas também para o equilíbrio emocional e cognitivo ao longo da vida.