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Mundo

Trump mira carne brasileira nos EUA

Plano da Casa Branca para flexibilizar importações pode beneficiar frigoríficos brasileiros e pressionar preços no mercado interno
Por O Correio de Hoje
12/05/2026 | 13:52

O governo do presidente Donald Trump estuda flexibilizar temporariamente as restrições às importações de carne bovina nos Estados Unidos em uma tentativa de conter a inflação de alimentos no país. A medida, revelada pelo The Wall Street Journal e confirmada pelo Politico, prevê a suspensão, por 200 dias, das atuais limitações de cotas aplicadas às compras externas de carne.

A iniciativa ocorre em meio à forte alta dos preços da carne bovina no mercado americano. Segundo relatório do Citibank citado por analistas no Brasil, o preço da carne moída acumulou aumento de 40% nos últimos cinco anos nos Estados Unidos, pressionando o custo de vida e ampliando o impacto político da inflação sobre o eleitorado americano.

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Governos brasileiro e americano criaram grupo de trabalho para renegociar tarifas nos próximos 30 dias Foto: Reprodução/Internet

A possível abertura tende a beneficiar frigoríficos brasileiros exportadores, especialmente Minerva Foods, JBS e Marfrig — atualmente integrada à operação da BRF na MBRF. O mercado reagiu rapidamente à notícia. As ações da Minerva subiram 4,63% na B3, encerrando o pregão a R$ 4,29.

Analistas do Citi avaliam que a Minerva deve ser a empresa mais favorecida pelo eventual afrouxamento das cotas devido ao perfil altamente exportador da companhia. Já JBS e Marfrig, apesar de possuírem operações industriais nos Estados Unidos e utilizarem importações como parte da estratégia local, também podem se beneficiar da maior flexibilidade comercial.

Para José Carlos Hausknecht, sócio da consultoria MB Agro, a medida representa uma oportunidade relevante para o setor pecuário brasileiro. “Essa abertura, para o Brasil, é muito importante”, afirmou. Segundo ele, a flexibilização tende a enfrentar resistência dos produtores americanos, especialmente em um momento de queda histórica do rebanho bovino nos Estados Unidos.

Dados do Departamento de Agricultura dos EUA (USDA) mostram que o rebanho americano atingiu o menor nível em 75 anos, reflexo de secas prolongadas em regiões produtoras e dificuldades na recomposição do plantel. Historicamente maiores produtores mundiais de carne bovina desde a década de 1960, os Estados Unidos perderam espaço para o Brasil, que assumiu em 2025 a liderança global na produção do produto, segundo estimativas do USDA.

O desequilíbrio entre oferta e demanda ampliou a dependência americana das importações. Em 2021, cerca de 10% da carne consumida nos EUA era importada. No ano passado, essa participação chegou a 20%, de acordo com reportagem publicada pelo Wall Street Journal.

Atualmente, os Estados Unidos utilizam um sistema de cotas para controlar as importações. Países fornecedores tradicionais, como Austrália, Nova Zelândia, Argentina e Uruguai, possuem limites próprios de exportação com tarifas reduzidas. O Brasil participa da categoria destinada a “outros países”, limitada a 65 mil toneladas anuais com tarifa reduzida. Acima desse volume, incide uma tarifa superior a 26%.

Mesmo com a cobrança adicional, o Brasil já vinha ampliando as vendas ao mercado americano diante da forte demanda local. Em 2025, as exportações brasileiras de carnes bovinas frescas, congeladas e resfriadas para os EUA somaram 126 mil toneladas, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços. Apenas nos quatro primeiros meses deste ano, o mesmo volume já foi alcançado.

“Se zerar mesmo todo mundo, o Brasil vai nadar de braçada”, afirmou Hausknecht, ao comentar a possibilidade de suspensão temporária das cotas.

O movimento americano ocorre em paralelo ao endurecimento das regras de importação na China, principal destino da carne bovina brasileira. Pequim anunciou no fim do ano passado um sistema de controle de cotas para tentar sustentar os preços pagos aos produtores locais.

Nesse cenário, parte da carne que teria como destino o mercado chinês pode ser redirecionada aos Estados Unidos. Para o Citi, isso tende a reduzir a possibilidade de queda dos preços no mercado doméstico brasileiro, uma vez que o aumento da demanda externa absorveria parte do excedente exportável.

“A demanda mais forte dos EUA ajuda a absorver parte do excedente potencial brasileiro, reduzindo o risco de que as carnes redirecionadas da China inundassem o mercado doméstico”, afirmaram os analistas do banco em relatório.