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Dinossauro

Pegada de dinossauro é encontrada

Pegada de dinossauro pode ser a maior já registrada no Brasil e é encontrada no interior da Paraíba
Por O Correio de Hoje
04/05/2026 | 14:14

Uma expedição paleontológica realizada no município de Sousa, no interior da Paraíba, identificou uma pegada que pode ser a maior já registrada no Brasil. Localizada a cerca de 430 quilômetros de João Pessoa, a marca apresenta 60 centímetros de comprimento — da ponta da garra até a parte posterior da impressão — e 63 centímetros de largura, medida entre os dedos.

A pegada, do tipo tridáctila (com três dedos), indica a passagem de um dinossauro carnívoro de grande porte há aproximadamente 140 milhões de anos, durante o período Cretáceo Inferior. A descoberta ocorreu na zona rural do município, a cerca de 15 quilômetros do centro, em um afloramento rochoso conhecido como Floresta dos Borbas, integrante da formação Antenor Navarro, na bacia do Rio do Peixe, que se estende entre os estados da Paraíba e do Ceará.

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Pegada de dinossauro com 60 cm de comprimento foi encontrada no interior da Paraíba e pode ser a maior já registrada no Brasil Foto: Divulgação

Além do registro principal, a equipe identificou outras marcas no mesmo local, incluindo pegadas de cerca de 40 centímetros, além de impressões menores. Segundo o coordenador da expedição, o paleontólogo Fábio Cortes Faria, o conjunto reforça a relevância da área para estudos científicos. “Encontramos outras de tamanho considerável, uma de 40 centímetros, outras bem menores, mas essa realmente nos chamou atenção pelo tamanho”, disse ele.

O grupo de campo reúne profissionais de diferentes áreas, como o arqueólogo João Henrique Rosas e o geógrafo Rogério dos Santos Ferreira, além de pesquisadores em formação, como Francisco Predson de Sousa e Paulo Abrantes de Oliveira. O imageamento da área ficou a cargo da empresa Rastro Arqueologia.

A descoberta integra o projeto “Preservação do Patrimônio Geopaleontológico e Arqueológico da Bacia do Rio do Peixe”, desenvolvido com apoio da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação da Paraíba. De acordo com Faria, o achado ocorreu no fim de um dia de trabalho de campo. “Tivemos a felicidade de encontrar essa pegada já no final do dia, enquanto trabalhávamos com fotografias para gerar modelos 3D em outro sítio. No dia seguinte, o professor Ismar [de Souza Carvalho, da UFRJ] confirmou ser a maior pegada de dinossauro terópode já encontrada no Brasil”, afirmou.

A localização do fóssil, entretanto, impõe desafios à preservação. A pegada está situada em uma via de acesso a uma propriedade particular, utilizada por veículos, motocicletas e animais, o que pode comprometer sua integridade. “Após a descoberta, conversamos com a prefeitura [de Sousa] para tentar desviar a passagem de carros, animais e motos para evitar danos à pegada”, disse Faria.

Como parte das ações de conservação, a equipe também trabalha na produção de modelos tridimensionais do registro, o que permitirá a criação de um acervo digital acessível ao público e a pesquisadores. A iniciativa busca ampliar o conhecimento sobre os sítios fossilíferos da região, considerada uma das mais importantes do país para o estudo de icnofósseis — vestígios indiretos da atividade de organismos do passado.

A classificação do animal responsável pela pegada ainda é objeto de análise. A princípio, a marca sugere a presença de um dinossauro do grupo dos abelissauros, conhecidos predadores que habitaram a América do Sul. Porém, especialistas recomendam cautela antes de uma definição mais precisa.

O paleontólogo Ismar de Souza Carvalho avalia que a pegada não se assemelha a registros anteriores da mesma época na região e indica que pode pertencer a um grupo mais amplo de terópodes. Já Bruno Navarro ressalta a necessidade de análises complementares. “Na base do Cretáceo, os abelissauros ainda não tinham atingido um porte tão grande, sendo mais provável que fossem outros dinossauros terópodes, como carcarodontossauros ou espinossaurídeos.”

Segundo Navarro, a identificação taxonômica mais precisa depende da comparação com fósseis ósseos, especialmente do pé desses animais. Ele explica que, a partir da pegada, é possível estimar o tamanho do membro do dinossauro, que poderia variar entre cerca de 2,78 metros e 3,46 metros. Ainda assim, ele pondera que não é possível definir o porte total do animal com base apenas nessa evidência. “Não é possível estimar o tamanho do animal nesse caso, o que temos é uma estimativa da altura do membro. E por isso afirmar, agora, que é a maior do Brasil é arriscado. O ideal é primeiro ter o artigo descrevendo formalmente.”

Os pesquisadores pretendem realizar uma análise detalhada da pegada e submeter os resultados a uma revista científica. Apesar da necessidade de validação acadêmica, a equipe avalia que a divulgação do achado pode contribuir para valorizar o patrimônio natural da região e fortalecer iniciativas de preservação.

O envolvimento da população local é decisivo nesse processo. “É uma ciência cidadã, pois, para conseguir fazer a preservação efetiva das dezenas de locais que têm pegadas fósseis na região, precisamos contar com a participação da população”, afirmou Carvalho.