Existe um momento na trajetória de alguns artistas em que a busca por novidades termina exatamente onde tudo começou. Com Filipe Toca, esse reencontro aconteceu longe de casa. Morando em São Paulo desde de 2020, o cantor e compositor potiguar diz ter entendido a própria identidade nordestina depois de deixar Natal. A constatação atravessa sua nova fase artística, marcada pelo single “Olhar de Quem Não Presta”, parceria com Duda Beat, e pelo lançamento iminente de “Muita Sede”, primeiro disco completo da carreira.
“Quando eu estava morando em Natal, a minha vontade era conhecer o mundo. E aí quando eu conheci o mundo, minha vontade era estar dentro de Natal”, conta. “Foi aí que percebi o quão eu sou potiguar.” A fala ajuda a entender o momento vivido pelo artista. Filipe não abandona a MPB que sempre conduziu seu trabalho, mas agora mergulha com mais clareza em referências nordestinas — sem aceitar rótulos fechados.

“Eu me encontrei nesse lance da música nordestina, de defender a música nordestina e ser um artista que faz forró, apesar de não ser exatamente um cantor de forró”, afirma. “Minha música tem mais misturas.” As misturas aparecem como extensão da própria vida. Praia, reggae, MPB, xote, amor, saudade e cotidiano convivem nas canções do artista que cresceu entre Ponta Negra, Cotovelo e Pirangi. Para ele, a música “Sabiá e a Lua” representa justamente essa síntese.
“É um xote do meu jeito. Tem uma pitada de reggae, uma pitada praiana, que é tudo que me representa.” A parceria com Duda Beat surge nesse contexto de afirmação pessoal e artística. Filipe define o momento com uma palavra: maturidade. “Eu já passei por muitas coisas, experimentei muita coisa na minha vida e na minha música. Agora tudo tem conspirado a favor”, diz. “Essa parceria representa uma validação pessoal minha.”
A relação com a música começou ainda na infância. Filipe conta que teve contato mais direto com instrumentos aos 11 anos e, desde então, passou a cantar, compor e tocar. As experiências pessoais seguem como principal fonte de inspiração, embora ele afirme que muitas músicas também nascem da observação das histórias de outras pessoas. “Muitas vezes eu escrevo uma história que não fui eu que vivi, mas que eu vi alguém viver.”
Pai de um filho de dois anos, o cantor também percebe mudanças na forma de compor. Se antes as inspirações vinham do movimento da rua e das experiências externas, hoje elas nascem de um cotidiano mais íntimo e emocional. “Minha vida hoje é muito caseira. Isso me levou para um lugar de mais profundidade emocional”, afirma. “Ter um filho, ser casado… tudo isso traz muita bagagem.”
Mesmo vivendo uma fase mais sólida, Filipe admite que o medo e a instabilidade acompanham a vida artística. Durante a pandemia, pensou em desistir da carreira. Foi naquele período que surgiu a oportunidade de participar do The Voice Brasil. “No meio da pandemia apareceu o The Voice. Foi uma coisa que me ajudou muito naquela época difícil.”
As redes sociais também aparecem como uma relação ambígua. Embora reconheça a importância da presença digital, ele tenta preservar a vida pessoal da exposição constante. “A vida de um artista já é exposição 24 horas. Eu tento achar esse meio-termo.” Ao falar sobre o cenário cultural nordestino, Filipe defende maior valorização dos artistas locais pelo próprio público. Segundo ele, foi preciso sair de Natal para ampliar horizontes profissionais.
“Às vezes a gente valoriza muito o artista que vem de fora e normaliza quem está perto”, afirma. “Todo artista local pode ser grande.” Agora, com “Muita Sede”, o cantor prepara o que considera um novo divisor de águas. O álbum reunirá os singles lançados recentemente, incluindo as parcerias com Duda Beat e Agnes Nunes.