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Cerébro

Você não “frita” neurônios nas telas, mas compromete cérebro no processo

Especialistas alertam que excesso de conteúdo digital pode comprometer concentração, criatividade e pensamento crítico
Por O Correio de Hoje
24/04/2026 | 13:50

A ideia de que o uso de telas destrói neurônios não encontra respaldo científico. No entanto, especialistas alertam que o consumo excessivo de conteúdos digitais pode afetar de forma indireta o funcionamento do cérebro, especialmente quando substitui atividades que exigem esforço cognitivo, concentração e criatividade. A neurocientista Suzana Herculano-Houzel chama atenção para esse fenômeno ao discutir os efeitos do ambiente digital no desenvolvimento mental.


Segundo a pesquisadora, o cérebro humano se transforma continuamente a partir das experiências vividas. Isso significa que a forma como as pessoas interagem com o mundo — incluindo o tempo dedicado às telas — influencia diretamente suas capacidades cognitivas. “A inteligência artificial não está nem aí para nós humanos. A afirmação contundente da neurocientista Suzana Herculano-Houzel dá o tom da conversa: um alerta sobre os limites da tecnologia e o potencial ainda subestimado do cérebro humano.”

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Pesquisadora Suzana Herculano-Houzel: “As pessoas cedem à tentação de não querer pensar” Foto: Jorge Bispo / Divulgação


A especialista explica que a criatividade não é uma habilidade fixa, mas uma capacidade que pode ser desenvolvida. Ela depende da exposição a diferentes estímulos e da construção de conexões entre ideias. “A criatividade é a capacidade do cérebro de ser flexível e de formar combinações novas, de formar e criar soluções diferentes para novos problemas. Isso leva a outras características que também dependem de prática, experiência, aprendizado, que é acumular uma base de dados própria, a experiência de vida. Isso é o que fazemos quando treinamos grandes modelos de linguagem, como o ChatGPT. Precisamos fornecer aos nossos algoritmos informações, experiências e atitudes.”


Nesse contexto, a facilidade proporcionada pela tecnologia pode representar um risco quando passa a substituir o esforço mental. Atividades como buscar respostas prontas, consumir conteúdos de forma passiva ou depender constantemente de ferramentas digitais podem reduzir o exercício do pensamento crítico. “Ao delegar alguma tarefa cognitiva para um sistema automatizado, com uma inteligência artificial, ou para outra pessoa, como pedir uma oportunidade, quando isso acontece, abrimos mão do que é mais precioso, que é a experiência de desenvolver o cérebro”, afirma.


A neurocientista também destaca que a capacidade cognitiva não é ilimitada e depende de estímulos contínuos para se manter ativa. “A nossa capacidade cognitiva depende de prática. Sim, podemos treinar e aprender a criar, a agir de forma mais criativa. A partir daí, começamos a entender o que é a criatividade.”


Outro ponto abordado é a relação entre tecnologia e aprendizado. Embora as ferramentas digitais ampliem o acesso à informação, o excesso pode comprometer a capacidade de concentração e aprofundamento. A facilidade de alternar rapidamente entre conteúdos, típica do ambiente online, dificulta a construção de conhecimento sólido e consistente.


A pesquisadora reforça que o cérebro precisa de desafios para evoluir. “Quanto mais usamos um músculo, mais forte ele fica. Ele fica mais rápido e mais pronto para a ação. É a mesma coisa com o cérebro, quando recorremos, abrimos mão da oportunidade de fortalecer e desenvolver as próprias habilidades.”


Para ela, o problema não está na tecnologia em si, mas na forma como ela é utilizada. O equilíbrio entre consumo digital e atividades que exigem esforço intelectual é fundamental para preservar e ampliar as capacidades cognitivas. “Aí não está nem aí para os humanos. Essa é a grande diferença: o grande problema, ela não depende da oportunidade de desenvolver nossas próprias habilidades. Temos visto como as pessoas cedem à tentação de não querer pensar. Isso é péssimo.”


Além disso, a especialista chama atenção para a importância de manter uma postura ativa diante do conhecimento. Buscar soluções, refletir, questionar e experimentar são atitudes essenciais para o desenvolvimento intelectual. A passividade, por outro lado, tende a limitar o potencial criativo e a autonomia.
A discussão também passa pelo papel da educação e pela necessidade de estimular práticas que valorizem o pensamento crítico desde cedo. O contato com diferentes áreas do conhecimento, a leitura e a resolução de problemas são estratégias que ajudam a fortalecer o cérebro em um cenário cada vez mais dominado por estímulos digitais.


Ao final, a mensagem é clara: o cérebro humano continua sendo uma ferramenta poderosa, mas seu desenvolvimento depende das escolhas individuais. Em um mundo repleto de facilidades tecnológicas, preservar o esforço mental pode ser decisivo para manter a criatividade, a autonomia e a capacidade de adaptação.