A dengue, tradicionalmente conhecida pelos sintomas como febre alta, dores no corpo e mal-estar, também pode estar relacionada a complicações neurológicas graves. Um estudo recente identificou uma associação entre a infecção pelo vírus e o aumento do risco de desenvolvimento da síndrome de Guillain-Barré (SGB), uma condição que afeta o sistema nervoso e pode levar à paralisia.
O Brasil enfrentou, em 2024, a maior epidemia de dengue de sua história, com cerca de 6,5 milhões de casos prováveis e mais de 5,8 mil mortes. Embora tenha havido redução em 2025, com aproximadamente 1,6 milhão de casos até novembro, a circulação do vírus permaneceu elevada. Para 2026, projeções indicam que o país ainda deve registrar cerca de 2 milhões de infecções.

A maioria das pessoas infectadas apresenta sintomas leves ou moderados. No entanto, um número menor de pacientes pode evoluir com complicações mais severas. Entre essas possíveis consequências está a síndrome de Guillain-Barré, uma doença rara em que o sistema imunológico passa a atacar os nervos periféricos.
Essa condição provoca fraqueza muscular progressiva, que geralmente começa nas pernas e pode avançar para os braços e o rosto. Em casos mais graves, o paciente pode perder completamente a capacidade de se movimentar e até necessitar de suporte respiratório.
A pesquisa que analisou essa relação utilizou dados do Sistema Único de Saúde (SUS), incluindo registros de internações, notificações de dengue e óbitos. Foram avaliados grandes bancos de dados nacionais para identificar padrões entre a infecção pela dengue e o surgimento da síndrome.
Os resultados indicam que pessoas que tiveram dengue apresentam um risco cerca de 17 vezes maior de desenvolver Guillain-Barré nas semanas seguintes à infecção, especialmente entre a primeira e a sexta semana após o início dos sintomas. O período mais crítico ocorre logo após a fase aguda da doença.
Para chegar a essas conclusões, os pesquisadores utilizaram uma metodologia conhecida como “série de casos autocontrolados”, que compara o risco de um mesmo indivíduo em diferentes períodos. Dessa forma, é possível avaliar com maior precisão a relação entre a infecção e o desenvolvimento da complicação.
Embora a síndrome de Guillain-Barré seja considerada rara, os números absolutos chamam atenção quando analisados em conjunto com o volume de casos de dengue. Estimativas apontam que, a cada milhão de infecções, cerca de 36 pessoas podem desenvolver a condição neurológica.
A ligação entre dengue e Guillain-Barré não é totalmente nova. Desde a década de 1990 já havia registros de casos que sugeriam essa associação. No entanto, faltavam estudos com grande base de dados capazes de quantificar o risco de forma mais precisa, o que agora começa a ser preenchido.
Além da dengue, outras arboviroses também já foram associadas a complicações neurológicas. Casos de microcefalia relacionados ao zika vírus e o aumento da mortalidade associada à chikungunya são exemplos de como essas infecções podem ter impactos além dos sintomas iniciais.
O tratamento da síndrome de Guillain-Barré é mais eficaz quando iniciado rapidamente. No Sistema Único de Saúde, as principais terapias disponíveis são a imunoglobulina intravenosa e a plasmaférese, procedimento que remove do sangue substâncias que atacam o sistema nervoso.
Especialistas reforçam que a rapidez no diagnóstico é determinante para o prognóstico. Sintomas como fraqueza nas pernas, dificuldade para caminhar ou formigamento devem ser avaliados com atenção, especialmente em pessoas que tiveram dengue recentemente.
No campo da prevenção, o controle do mosquito Aedes aegypti continua sendo fundamental. A eliminação de água parada em recipientes, pneus e caixas d’água segue como uma das medidas mais eficazes para reduzir a transmissão da doença.