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Guerra

Ameaça de Trump ao Irã isola os Estados Unidos

Retórica de "eliminar civilização" gera reação de aliados e analistas veem risco à imagem externa de Washington
Por O Correio de Hoje
20/04/2026 | 14:47

A diplomacia das redes sociais do presidente Donald Trump atingiu um novo patamar de tensão geopolítica. Às vésperas do vencimento de mais um ultimato para que o Irã reabra o Estreito de Ormuz, marcado para a próxima quarta-feira, o republicano utilizou suas plataformas digitais para disparar a ameaça mais contundente até agora: a de que “toda uma civilização morrerá hoje”. Embora tenha anunciado um cessar-fogo temporário logo em seguida, o impacto das palavras reverberou como um abalo sísmico nas chancelarias estrangeiras e entre especialistas em Direito Internacional.

Para Murilo Meihy, professor de História Contemporânea da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a fala de Trump reflete uma “deficiência conceitual” que confunde as noções de Estado, governo e civilização. “Não existe a menor possibilidade, ainda mais no sistema político moderno, de uma ameaça dessas ser cumprida”, afirma Meihy. Segundo ele, o uso do termo “eliminação” rompe com a tradição republicana de “confronto” ou “choque”, baseada nas teses de Samuel Huntington, e isola Washington de seus parceiros históricos.

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Murilo Meihy, professor de História Contemporânea da Universidade Federal do Rio de Janeiro Foto: Reprodução

A estratégia agressiva já produz efeitos práticos na arquitetura de alianças dos EUA. O Reino Unido, que inicialmente indicava apoio a uma ofensiva no Estreito de Ormuz, recuou após as declarações. Internamente, o Partido Trabalhista britânico também consolidou oposição ao projeto americano.

O mercado financeiro internacional tem monitorado com cautela o que Meihy define como “diplomacia imprudente”. A instabilidade gerada por ameaças existenciais e medidas protecionistas tem provocado um deslocamento de recursos de uma economia tradicionalmente segura, como a americana, para mercados emergentes.

“São sinais claros de que Trump não necessariamente respeita a ordem internacional vigente, aprofundando o isolamento do governo americano”, avalia o professor.

Enquanto os EUA apostam no “maximalismo” — personificado também por figuras como o secretário de Defesa, Pete Hegseth —, potências concorrentes adotam o pragmatismo. A China, segundo Meihy, mantém uma postura conciliatória com o Sul Global para garantir segurança energética, evitando o uso da força em favor da influência econômica.

O conflito com o Irã é visto como mais um teste de estresse para o sistema multilateral estabelecido após 1945. Juristas apontam que a mera ameaça de eliminação de uma civilização pode ser enquadrada como crime de guerra.

O cenário atual, marcado por violações recorrentes do Direito Internacional, aponta para dois caminhos: uma reforma profunda das instituições, como o Conselho de Segurança da ONU — tese defendida pelo Brasil —, ou uma refundação completa das bases diplomáticas globais. Por ora, o próximo passo dessa crise depende do que ocorrerá nesta quarta-feira, quando o relógio de Trump chegar novamente ao zero.