Em mais um sinal do tom que deve marcar sua atuação na disputa eleitoral deste ano, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) voltou a direcionar críticas ao ex-presidente dos Estados Unidos Donald Trump durante agenda internacional. A estratégia ocorre após um período de alta na popularidade do petista, registrada no ano passado, quando adotou discurso centrado na defesa da soberania nacional diante das tarifas impostas pelo governo norte-americano.
Nos bastidores, aliados de Lula indicam que a campanha deve explorar a tentativa de vincular seu principal adversário, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), a uma postura considerada alinhada aos interesses de Trump. O grupo político do ex-presidente Jair Bolsonaro tem adotado posições próximas às do líder norte-americano, tanto em temas internos quanto em questões de política externa.

Durante discurso em uma feira industrial realizada em Hanôver, na Alemanha, Lula criticou o volume de recursos direcionados a conflitos armados, em referência à ofensiva dos Estados Unidos contra o Irã. Na ocasião, fez um apelo para que outros líderes globais não “se curvem ao comportamento de um presidente que acha que por e-mail ou por Twitter pode taxar produtos, punir países e fazer guerra”, em menção ao uso frequente das redes sociais por Trump para anunciar decisões.
Ainda na mesma fala, o presidente brasileiro comparou os investimentos em exploração espacial com a escalada de violência no Oriente Médio. “Enquanto astronautas sobrevoam” a Lua, disse, “bombardeios matam de forma indiscriminada”. Lula defendeu que os recursos destinados a conflitos fossem redirecionados para políticas de combate à fome e apoio a populações deslocadas. “Por que não defende destinar o dinheiro que está fazendo guerra, matando e destruindo, para a gente poder cuidar dos milhões de flagelados que estão andando pelo mundo à procura de um país que os receba?”, questionou.
As críticas ao ex-presidente norte-americano vêm ganhando intensidade nos últimos dias. Em evento realizado em Barcelona, durante a 1ª Reunião da Mobilização Progressista, Lula já havia afirmado não “querer guerra” e, ao se referir a Trump, declarou que não possui “a riqueza que ele tem”, mas dispõe de “caráter, honestidade e decência para respeitar os direitos de todos”.
A declaração foi interpretada como resposta indireta à decisão dos Estados Unidos de aplicar uma tarifa de 10% sobre produtos brasileiros, sob a justificativa de déficit comercial. Ao comentar o conflito entre EUA e Irã, Lula classificou a situação como “maluquice da guerra” e destacou os impactos diretos desse cenário sobre a economia global, especialmente no preço do petróleo.
A alta internacional do barril tem pressionado custos internos no Brasil e se transformado em um desafio adicional para o governo, sobretudo em ano eleitoral. Diante desse contexto, o Palácio do Planalto passou a adotar medidas para tentar reduzir os efeitos da volatilidade.
Entre as ações, está a criação de um imposto sobre a exportação de petróleo, com o objetivo de conter a elevação do preço do diesel no mercado interno. A medida chegou a ser suspensa pela Justiça Federal, mas voltou a ter validade após nova decisão favorável ao governo.
Apesar do tom crítico direcionado a Trump, Lula também procurou enfatizar a importância da cooperação internacional como alternativa às tensões geopolíticas. O presidente fez ainda um alerta sobre os impactos da inteligência artificial no mercado de trabalho, defendendo que o avanço tecnológico leve em consideração os trabalhadores afetados.
A viagem à Alemanha ocorreu no contexto da participação do Brasil como país-parceiro da feira industrial de Hanôver. Assim como em outros compromissos internacionais recentes, Lula aproveitou a agenda para reiterar a defesa da democracia — uma linha central de sua campanha em 2022, quando buscou apoio de lideranças internacionais contrárias ao então presidente Jair Bolsonaro.
Ao abordar a abertura do Brasil ao diálogo com outras nações, Lula condicionou eventuais parcerias ao respeito aos princípios democráticos e à autonomia dos países. “A única coisa que queremos é a certeza de que a nossa relação será pensando no fortalecimento da democracia (…) e na soberania do povo de cada país”, afirmou.
Eventual vitória de Flávio
Em outro momento, o presidente Lula, que se coloca como pré-candidato à reeleição, declarou que aceitará o resultado das eleições mesmo em um cenário de eventual vitória do senador Flávio Bolsonaro, apontado como seu principal adversário na disputa de outubro.
A declaração ocorre após pesquisas recentes, como Datafolha e Genial/Quaest, indicarem, pela primeira vez, o parlamentar à frente de Lula em simulações de segundo turno.
Em entrevista à revista alemã Der Spiegel, Lula foi questionado sobre o desempenho do adversário e afirmou que respeita a escolha do eleitorado, independentemente do resultado. “Quando o povo toma uma decisão, seja de direita, de esquerda ou do centro, temos que aceitar esse resultado. Eu nunca teria imaginado que um metalúrgico, que já foi líder sindical como eu, fosse eleito três vezes para a Presidência. Mas aqui estou eu!”, disse.
Na mesma entrevista, o presidente afirmou não ver risco de retrocesso democrático no país. “O Brasil continuará sendo um país democrático no futuro. Além disso: vamos vencer esta eleição e garantir que nossa democracia se torne ainda mais estável. Aqui não há espaço para fascistas; para pessoas que não acreditam na democracia. Essa ideologia de direita que governa o mundo não tem futuro. Em vez de ideias, ela apenas espalha ódio e mentiras”, declarou.
Apesar do tom de campanha, Lula evitou confirmar de forma definitiva sua candidatura à reeleição, afirmando que a decisão “depende”. Ainda assim, indicou que vem se preparando para disputar o pleito. Segundo relatos já divulgados, o presidente tem buscado reforçar a imagem de vitalidade, especialmente diante de especulações sobre uma eventual desistência. “Haverá uma convenção partidária na qual meu partido discutirá os principais nomes. Estou me preparando para isso. Minha cabeça e meu corpo estão 100% em forma. Quero chegar aos 120 anos!”, afirmou à Der Spiegel.