O governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite (PSD), vive um duplo desafio político: além de buscar espaço na disputa interna do partido por uma candidatura presidencial, enfrenta dificuldades para viabilizar a eleição de seu sucessor no estado. O nome escolhido para a disputa é o atual vice-governador, Gabriel Souza (MDB), que aparece atrás dos principais concorrentes nas pesquisas.
Entre os adversários, estão o deputado federal Luciano Zucco (PL), alinhado ao bolsonarismo, e, no campo da esquerda, os ex-deputados estaduais Edegar Pretto (PT) e Juliana Brizola (PDT). Todos aparecem à frente de Gabriel nas intenções de voto, o que torna o cenário desafiador para o grupo de Leite.

Em meio a esse contexto, o governador se reuniu nesta quarta-feira com o presidente do PSD, Gilberto Kassab, e ouviu que segue no páreo para disputar o Palácio do Planalto, ao lado do governador de Goiás, Ronaldo Caiado, considerado favorito dentro da sigla.
Caso avance na disputa interna, Leite terá de deixar o cargo até o prazo de desincompatibilização, em 4 de abril. Isso permitiria que Gabriel de Souza assumisse o governo nos meses que antecedem a eleição, ampliando sua visibilidade e capacidade de articulação política.
Ao chegar a São Paulo para o encontro com Kassab, no entanto, Leite indicou que só deixará o cargo se houver viabilidade real de candidatura presidencial. “Se eu vou deixar o meu mandato é para algo maior, que é concorrer a presidente da República em um contexto que o Brasil precisa de uma alternativa. Se não houver essa possibilidade, permaneço no cargo até o final”, afirmou.
O quadro no Rio Grande do Sul guarda semelhanças com o do Paraná, onde o governador Ratinho Junior (PSD) optou por não disputar a Presidência e permanecer no cargo para fortalecer seu grupo político local. No estado, a decisão foi influenciada pela tentativa de conter o avanço da pré-candidatura do senador Sergio Moro (PL).
No cenário gaúcho, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) deverá apoiar Luciano Zucco, que trabalha para consolidar uma ampla aliança de direita. O deputado já reúne apoios de partidos como Novo, Podemos, Republicanos e PP, que deve indicar o nome para vice — com a deputada estadual Silvana Covatti entre as cotadas.
Zucco tem destacado a construção desse bloco político. “Mais do que uma aliança, formamos uma união em torno de um projeto de coragem e atitude para retomar o protagonismo que o Rio Grande vem perdendo a cada ano”, declarou após reunião com lideranças partidárias.
Entre os governadores do PSD com pretensões presidenciais, Leite foi o único a precisar de segundo turno para se reeleger. Enquanto Ratinho Junior venceu com 69,6% dos votos e Caiado com 51,8%, o gaúcho ficou atrás de Onyx Lorenzoni (PL) no primeiro turno, com 26,8% contra 37,5%. No segundo turno, no entanto, virou o resultado e venceu com 57,1%.
Mesmo com a vitória, pesquisas recentes indicam dificuldades para transferir capital político. Levantamento Genial/Quaest de 2025 mostrou que 54% dos eleitores gaúchos não acreditam que Leite “mereça” eleger seu sucessor. Outro estudo, divulgado em agosto, apontou Gabriel de Souza com apenas 5% das intenções de voto, atrás de Zucco (20%) e Brizola (21%), além de empate técnico com Pretto (11%).
Na esquerda, a disputa passa também pela busca do apoio do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Brizola e Pretto articulam para obter o endosso do petista. No mês passado, a pré-candidata do PDT esteve no Palácio do Planalto ao lado do presidente nacional da sigla, Carlos Lupi, para tratar do tema e discutir a possibilidade de composição com o PT.
Caso permaneça no cargo até o fim do mandato, Leite pode contar com o apoio do ex-governador Germano Rigotto (MDB) na chapa de Gabriel, com candidatura ao Senado. Apesar da relevância política, Rigotto está sem mandato desde 2007, o que pode limitar seu impacto eleitoral.
O encontro entre Kassab e Leite ocorreu um dia após o dirigente partidário se reunir com Caiado. A cúpula do PSD busca afunilar a escolha entre os dois governadores e tenta construir um consenso interno para evitar divisões. A expectativa é que a definição sobre a candidatura presidencial seja anunciada até a próxima terça-feira.