Integrantes do governo federal avaliam com cautela os impactos da nova fase do “Celular Seguro”, programa de combate ao roubo e furto de celulares, diante do receio de que a iniciativa possa gerar desgaste político para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) às vésperas da campanha eleitoral. A medida, desenvolvida pelo Ministério da Justiça, prevê o envio de notificações a pessoas que estejam utilizando aparelhos com registro de roubo ou furto, orientando a devolução voluntária dos equipamentos.
A proposta passou por análise nas últimas semanas dentro do Palácio do Planalto e provocou debates entre diferentes áreas do governo. Integrantes da Casa Civil e da Secretaria de Comunicação Social (Secom) manifestaram preocupação com possíveis reações negativas da população, especialmente de pessoas que adquiriram os aparelhos sem saber da origem ilícita.

Em reuniões internas, auxiliares do presidente alertaram para o risco de que consumidores que compraram os celulares de boa-fé se sintam prejudicados ao serem obrigados a devolver os aparelhos. A avaliação é de que parte dessas pessoas poderia responsabilizar o governo pela perda de um bem pelo qual pagou.
Outra preocupação levantada nos bastidores envolve a possibilidade de falhas no sistema de notificações. Integrantes do governo admitem o temor de que mensagens possam ser enviadas equivocadamente a usuários que não estejam com aparelhos roubados ou furtados, alimentando críticas de que o governo estaria tentando retirar celulares da população. Por isso, alguns auxiliares classificaram a iniciativa como um potencial foco de desgaste e defenderam a realização de testes antes da implementação em larga escala.
Apesar das ponderações, Lula decidiu acelerar o lançamento do programa. A cerimônia ocorreu na Base Aérea de Guarulhos, na Grande São Paulo, nesta terça-feira 23. Durante o evento, o presidente aproveitou para orientar a população a redobrar os cuidados com o uso de celulares em locais públicos.
“A hora que você tiver que falar no celular, olhe bem do seu lado e veja se tem alguém perto de você. Veja se tem alguém andando de bicicleta perto de você, fazendo pirueta de bicicleta, porque você pode ser assaltado”, afirmou.
A decisão de colocar a iniciativa em prática ocorreu mesmo após alertas de integrantes do governo sobre os riscos políticos da medida. Como candidato à reeleição, Lula pode participar de inaugurações e lançamentos de programas oficiais apenas até 4 de julho, prazo estabelecido pela legislação eleitoral. Por isso, optou por antecipar o anúncio.
O presidente já havia mencionado a proposta publicamente durante reunião do Conselho de Desenvolvimento Econômico, Social e Sustentável, o Conselhão, realizada em 10 de junho. Na ocasião, afirmou que o governo possui informações sobre cerca de 2,5 milhões de celulares roubados e estudava uma forma de localizar os usuários atuais desses aparelhos.
“Eu ia apertar um botãozinho e passava a mensagem dizendo que as 2,5 milhões de pessoas que estão com o celular roubado têm que devolver. Precisa devolver, porque pode estar cometendo um delito e, se for pego, pode sofrer uma punição desnecessária”, declarou.
No mesmo discurso, Lula gerou repercussão ao afirmar que pessoas de maior renda não costumam comprar celulares roubados, enquanto consumidores mais pobres seriam atraídos por preços mais baixos.
“Eu sei que rico não compra telefone roubado. Mas eu sei que os pobres compram. Quem é que não gosta de comprar uma coisinha barata? Todo mundo gosta”, disse.
Durante o lançamento oficial do programa, o presidente voltou a defender a devolução espontânea dos aparelhos e procurou tranquilizar quem eventualmente descubra estar utilizando um celular de origem ilícita.
“O que a gente está dizendo é: se você tem um telefone roubado, você comprou um celular sem saber que era roubado, mas comprou, se você perceber agora, você tem que procurar uma delegacia para entregar”, afirmou. “Não tenha medo de ir para a delegacia, você não será preso, é apenas para devolver o celular.”
Nos bastidores, parte dos auxiliares presidenciais defendia que o período pré-eleitoral fosse reservado à divulgação de ações com maior potencial de retorno positivo para o governo e menor risco de controvérsia. Também havia dúvidas sobre a capacidade de a iniciativa produzir resultados perceptíveis para a população a tempo de influenciar o ambiente político da campanha.
Concluído pelo Ministério da Justiça há mais de um mês, o programa foi inspirado em uma experiência desenvolvida no Piauí. O modelo utiliza o número de identificação dos aparelhos, o IMEI, integrado ao trabalho investigativo da Polícia Civil. Segundo o governador do estado, Rafael Fonteles, a política pública contribuiu para uma redução de 80% nos roubos de celulares quando comparados os mesmos períodos de 2022 e 2026.