A expansão de organizações criminosas originárias do Sudeste para o Nordeste é um dos fatores que hoje pressionam diretamente a segurança pública no Rio Grande do Norte. De acordo com o secretário estadual de Segurança, Coronel Araújo, o avanço dessas estruturas interestaduais impõe desafios adicionais às forças de segurança e aumenta a complexidade do enfrentamento ao crime organizado na região.
“É claro que, com o desencadeamento das estruturas criminosas do Sudeste para o Nordeste, nos afeta consideravelmente, mas nós estamos enfrentando todos eles”, afirmou Araújo, em entrevista à Rádio Mix nesta segunda-feira 1º.

Segundo Araújo, o problema da violência no RN está inserido em uma dinâmica nacional de movimentação de facções e redes criminosas, que atuam de forma integrada no tráfico de armas, drogas e lavagem de dinheiro. Ainda assim, aponta o secretário, a resposta tem sido dada com ações ostensivas, reforço de efetivo, investimentos em inteligência e integração entre instituições.
Na semana passada, as forças de segurança do Rio Grande do Norte deflagraram a Operação Farol da Justiça – que resultou em 16 prisões e no bloqueio de R$ 72 milhões em bens ligados aos criminosos. As ações foram concentradas em Mãe Luiza, bairro da Zona Leste de Natal. Araújo explicou que a ação foi estruturada com o objetivo de garantir a retomada do controle territorial por parte do Estado, após a atuação ostensiva de criminosos na comunidade. “Continua a presença ostensiva da Polícia Militar na comunidade para garantir o funcionamento das instituições, das escolas, postos de saúde, do comércio e a população”, destacou.
Segundo ele, a prioridade da operação é assegurar que a rotina da população não seja interrompida pela violência. “A comunidade de Mãe Luiza é formada por pessoas de bem, trabalhadores que saem pela manhã para estudar, para trabalhar e retornam às suas residências. O efetivo das forças de segurança está para garantir a segurança nessa comunidade”, afirmou.
Araújo relatou que a operação vem sendo conduzida de forma integrada entre Polícia Militar, Polícia Civil e Polícia Penal, com prisões, apreensões de armas e destruição de estruturas utilizadas por criminosos. “Pessoas foram detidas e armamento foi apreendido. Foram tiradas submetralhadoras, várias pistolas”, detalhou.
A ofensiva, no entanto, não se deu sem reação. Na noite de domingo 30, uma viatura policial foi alvo de disparos. Houve confronto e duas pessoas foram baleadas. Uma delas morreu. Duas armas foram apreendidas na ocorrência.
De acordo com o secretário, a origem dos confrontos está ligada à tentativa de domínio territorial por facções criminosas. “Eles querem ocupar o território para dominar. Quando a polícia está presente, eles enfrentam a polícia e a polícia reage com o meio proporcional, com o uso progressivo da força”, explicou.
Araújo ressaltou que o objetivo principal da ação policial é preservar vidas, especialmente dos moradores. “A preocupação da estrutura da segurança pública é preservar a integridade do cidadão e da cidadã, das pessoas de bem que moram na comunidade”, afirmou.
Ele também confirmou que criminosos utilizavam áreas de dunas como esconderijo e ponto de apoio. Durante a operação na semana passada, três acampamentos foram localizados e destruídos. “Foram destruídos três locais que eram considerados acampamentos e local de reunião deles. As forças de segurança localizaram, apreenderam, apresentaram o material”, relatou.
Um dos pontos mais sensíveis durante a operação foi a preocupação com o funcionamento dos serviços essenciais. O secretário afirmou que não houve orientação para fechamento de escolas e unidades de saúde, pelo contrário. “A orientação da segurança pública é que funcione normalmente e a estrutura está para garantir”, disse.
Ele destacou que houve integração com a Guarda Municipal de Natal para reforçar a segurança em equipamentos do município, como os postos de saúde. “A PM está dando ajuda e proteção para funcionar as escolas e postos de saúde”, completou.
Ao comentar críticas sobre a atuação policial, Araújo adotou um tom irônico. “Eu aprendi que, de política, de futebol e de segurança pública, todo mundo entende”, afirmou, destacando que a gestão da segurança exige planejamento, estratégia e inteligência, e não discursos vazios.
Ele frisou que a polícia não trabalha com “bravata”. “Vocês ainda não viram eu dizendo chavões… A gente trabalha e apresenta resultados”, afirmou, citando operações realizadas também na Zona Oeste de Natal e em Mossoró.
O secretário deixou claro que a Operação Farol da Justiça não tem prazo para acabar. “Nós estamos em uma onda crescente de emprego de efetivo… ocupando os lugares onde há necessidade”, disse.
Segundo ele, a Polícia Civil segue com as investigações, assim como o Gaeco e a Polícia Penal. “Estamos trabalhando integrados para ter outras atividades, tanto em Mãe Luiza como em outras comunidades onde houver necessidade”, concluiu.
Investigação financeira e bloqueio milionário
Além das ações ostensivas, Araújo ressaltou o trabalho investigativo como eixo central da estratégia. Segundo ele, cada arma apreendida passa por perícia para identificação da origem. “Todo material que é apreendido é encaminhado à Polícia Científica para perícia, para verificar aquele tipo de arma, a origem daquela arma”, explicou.
O secretário anunciou ainda um dos principais resultados da ofensiva contra o crime organizado: o bloqueio judicial de recursos. “O inquérito policial pediu à Justiça o bloqueio de R$ 72 milhões de recursos na conta dessas pessoas ou de instituições que estavam ligadas à distribuição”, revelou.
Para ele, o bloqueio demonstra a eficiência da inteligência policial. “Mostrando que existe um trabalho de inteligência e investigação com eficiência e eficácia”, afirmou.
Reforço de efetivo e renovação de estrutura
Araújo atribui parte da melhora nos índices de segurança aos investimentos realizados nos últimos anos. Ele lembrou que havia instituições sem concurso público havia mais de duas décadas. Ele lembrou de concursos realizados na atual gestão para diversas áreas da segurança. Ele ressaltou, porém, que, apesar disso, o efetivo ainda não é o ideal.
O secretário também destacou a renovação da frota policial. “As viaturas que nós tínhamos eram ainda da Copa do Mundo de 2014. Então foi renovada a frota, 730 novas viaturas, entre viaturas locadas e adquiridas”, afirmou. Além disso, foram comprados equipamentos de proteção individual e armas. “Foram adquiridos coletes, capacetes, armamentos, pistolas, fuzis, munição”, listou.
Relação com o governo e futuro político
Questionado sobre a relação com a governadora Fátima Bezerra (PT), Araújo afirmou que atua sem interferência política. “Ela não atrapalha. Ela deixa as forças de segurança trabalharem e quer que a gente apresente resultado”, declarou.
Sobre permanecer no cargo na transição de gestão de Fátima Bezerra para o vice Walter Alves (MDB), foi direto: “Eu estou no cargo em comissão. Se amanhã eu receber a mensagem que estou dispensado, irei feliz para casa. Missão cumprida”, disse.