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TV aberta e streaming disputam quem mostra o gol primeiro na Copa

Tecnologias de baixa latência aproximam transmissões online da TV aberta e diminuem diferença entre o lance em campo e a imagem na tela
Por O Correio de Hoje
02/06/2026 | 14:13

O tradicional “grito de gol do vizinho” antes de a imagem aparecer na televisão deve continuar acompanhando os torcedores durante a Copa do Mundo de 2026. A diferença é que, desta vez, a disputa pela transmissão mais rápida ganhou um novo concorrente: os serviços de streaming com tecnologia de baixa latência, que prometem reduzir significativamente o atraso em relação ao que acontece dentro de campo.

O tempo entre o lance ocorrer no estádio e chegar à casa do espectador depende de diversos fatores, entre eles a quantidade de etapas de processamento e retransmissão do sinal. Quanto mais intermediários participam do percurso, maior tende a ser o atraso.

Seleção foto Rafael Ribeiro
Lance de Brasil 6x2 Panamá, amistoso realizado no Maracanã, no Rio - Foto: Rafael Ribeiro / CBF

Nesse cenário, o rádio continua ocupando a liderança. Como trabalha apenas com áudio, o volume de dados é menor e o caminho percorrido pela informação é mais simples. Em transmissões internacionais, o atraso costuma variar entre três e cinco segundos. Em competições nacionais, quando nem sempre há necessidade de uso de satélites, esse tempo pode cair para cerca de dois segundos.

O professor Marcos Barreto, da Fundação Vanzolini, ligada à Universidade de São Paulo (USP), explica que até mesmo fatores físicos impõem limites à velocidade das transmissões.

“No final do dia é tudo culpa de Deus, que colocou limite na velocidade da luz. Ou, se não quiser culpar Deus, pode culpar o Einstein”, brinca.

A vantagem do rádio, no entanto, vale apenas para transmissões realizadas diretamente do local do evento. Quando a emissora utiliza imagens de televisão como referência ou transmite pela internet, o atraso aumenta.

Entre as plataformas com imagem, a TV aberta historicamente apresenta o menor delay. Embora exija etapas adicionais para codificação e decodificação do vídeo, o atraso normalmente fica entre seis e oito segundos em relação ao lance real.

Além da velocidade, a TV aberta mantém a vantagem da simplicidade de acesso. Com uma antena digital comum conectada ao televisor, o espectador consegue receber o sinal sem necessidade de internet ou assinatura. Antenas digitais podem ser encontradas por preços acessíveis e, na maioria dos casos, bastam ser instaladas próximas a uma janela.

A principal novidade desta Copa é a aproximação do streaming. Plataformas que adotaram protocolos de baixa latência reduziram significativamente o tempo de atraso das transmissões ao vivo.

Segundo Igor Macaúbas, diretor de tecnologia para produtos digitais da Globo, a tecnologia será utilizada durante a competição.

“Pela primeira vez na Copa, o Globoplay contará com baixa latência na transmissão dos sinais ao vivo dos canais. Isso deve fazer com que o delay fique entre seis e nove segundos, variando de acordo com a conexão e aparelho do usuário”, afirma.

Os protocolos conhecidos como LL-HLS e LL-DASH diminuem o volume de dados armazenados temporariamente antes da reprodução. O professor Cleiton Pereira, do Centro Universitário FEI, compara o processo a um sistema de bagagens.

“O grande vilão do streaming é o buffer. Ele é como uma mala que armazena alguns trechos da transmissão. Os novos protocolos diminuem o tamanho das malas e o número de volumes na esteira para que você consiga assistir à partida”, explica.

Os resultados já começam a aparecer. Durante o Super Bowl do ano passado, testes realizados pela empresa especializada Witbe apontaram que determinadas transmissões em streaming apresentaram menor latência do que a TV por assinatura, mesmo exibindo o evento em resolução 4K.

A TV a cabo, por sua vez, enfrenta limitações estruturais. O sinal precisa primeiro chegar à emissora geradora para depois ser distribuído às operadoras, acrescentando etapas extras ao processo.

“A turma da TV a cabo já pega os sinais de segunda linha. O sinal passa por todo o processo da TV aberta para depois ser repassado às operadoras. Aqui a gente já tem mais um delayzinho”, afirma Marcos Barreto.

Além disso, as operadoras aplicam sistemas de criptografia para controlar o acesso dos assinantes, o que exige processamento adicional. A transmissão em 4K também aumenta o volume de dados e pode ampliar o atraso em comparação com sinais em Full HD.

Apesar dos avanços, o streaming ainda enfrenta desafios próprios. O professor Eduardo Pouzada, do Instituto Mauá de Tecnologia (IMT), destaca que o sinal precisa percorrer uma complexa rede de servidores antes de chegar ao usuário.

“Após o processamento, esse sinal precisa ser fragmentado e distribuído por redes globais, o que adiciona camadas de latência inexistentes nos meios tradicionais”, explica.

Outro fator relevante é o roteamento realizado pelas operadoras de internet. Dependendo do caminho percorrido pelos dados, o tempo de chegada da transmissão pode variar de um aparelho para outro.

Para reduzir esse problema, o Globoplay ampliou sua infraestrutura de distribuição de conteúdo.

“Teremos uma rede CDN com mais de 300 pontos de distribuição espalhados pelo Brasil”, afirma Igor Macaúbas.

As chamadas CDNs funcionam como centros regionais que aproximam o conteúdo do usuário final, reduzindo a distância física percorrida pelos dados e, consequentemente, o atraso da transmissão.

Mesmo com os avanços tecnológicos, especialistas ressaltam que o próprio ambiente doméstico pode influenciar o desempenho. Redes Wi-Fi congestionadas, vários dispositivos conectados simultaneamente ou equipamentos mais antigos podem aumentar o delay, independentemente da plataforma utilizada.

Com isso, a tendência para a Copa de 2026 é que o rádio mantenha a liderança na corrida pelo gol em tempo real, enquanto TV aberta e streaming de baixa latência travam uma disputa cada vez mais equilibrada pelo segundo lugar. A TV por assinatura e os serviços convencionais de streaming devem continuar registrando os maiores atrasos entre as principais formas de acompanhar os jogos.