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Teatro

“Tom na Fazenda” retorna a Natal após trajetória internacional

Espetáculo será apresentado nos dias 2 e 3 de maio no Teatro Alberto Maranhão
Por O Correio de Hoje
06/04/2026 | 14:35

Há espetáculos que atravessam temporadas; outros atravessam geografias. Poucos, no entanto, conseguem atravessar o tempo sem perder a urgência. É nesse intervalo — entre a permanência e a necessidade — que “Tom na Fazenda” retorna a Natal, nos dias 2 e 3 de maio, ocupando o palco do Teatro Alberto Maranhão com a força de uma obra que, oito anos após a estreia, ainda encontra novas camadas de leitura.

Baseado no texto do dramaturgo canadense Michel Marc Bouchard, o espetáculo dirigido por Rodrigo Portella construiu, ao longo dos anos, uma trajetória que combina reconhecimento crítico e adesão popular. Desde 2017, a montagem tem mantido temporadas lotadas e uma circulação contínua, atravessando as cinco regiões do Brasil e ampliando sua presença no circuito internacional.

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Espetáculo “Tom na Fazenda” retorna a Natal após trajetória nacional e internacional - Foto: Divulgação

O retorno a Natal acontece após uma sequência de marcos recentes. Entre eles, uma temporada no Festival de Edimburgo, considerado o maior evento de teatro do mundo, onde a peça realizou 23 apresentações para mais de 7 mil espectadores. Na imprensa britânica, o jornal The Guardian classificou o trabalho como um “impressionante estudo sobre a homofobia”, destacando sua capacidade de provocar desconforto e fascínio em igual medida.

A trajetória internacional inclui ainda um feito simbólico em Paris: a montagem brasileira tornou-se a primeira produção latino-americana a ocupar o palco do Théâtre Paris-Villette, onde registrou recordes de público e bilheteria. Ao lado de apresentações no Canadá, Reino Unido, Suíça e Bélgica, esse percurso reposiciona “Tom na Fazenda” não apenas como um sucesso de exportação, mas como uma obra que dialoga com tensões universais.

No centro da narrativa está Tom, um publicitário que chega à fazenda da família de seu companheiro para o funeral — apenas para descobrir que sua existência era desconhecida pela sogra. A partir daí, instala-se uma engrenagem de silêncio e dissimulação, alimentada pela figura do irmão do falecido, que impõe uma lógica de controle e violência simbólica.

A frase de Bouchard — “homossexuais aprendem a mentir antes mesmo de aprender a amar” — funciona menos como síntese e mais como eixo dramático: tudo gira em torno do que se oculta para sobreviver.

A encenação radicaliza essa sensação de instabilidade ao reduzir os elementos cênicos e apostar em um espaço físico hostil. O palco coberto por lona, lama e água não é apenas ambientação: é dispositivo. Obriga o corpo do ator ao desequilíbrio constante, transformando cada movimento em risco calculado. A precariedade do chão ecoa a fragilidade das relações — nada ali é estável, nem emocional, nem fisicamente.

No elenco, Armando Babaioff lidera uma equipe que inclui Denise Del Vecchio, Iano Salomão e Camila Nhary. Babaioff, também idealizador do projeto e responsável pela tradução, atribui a longevidade da peça ao público — um indicador, segundo ele, de que a obra permanece necessária tanto pelo tema quanto pela construção artística.

Para Portella, o núcleo da peça está menos na denúncia e mais na exposição das contradições humanas dentro do espaço familiar. É ali, no ambiente teoricamente mais seguro, que emergem mecanismos de opressão, negação e dependência. A fazenda, nesse sentido, deixa de ser cenário e passa a operar como metáfora de isolamento — um lugar onde normas são preservadas à força, e qualquer desvio precisa ser apagado.

Ao chegar a Natal, a montagem carrega consigo essa densidade acumulada — de experiências internacionais, leituras críticas e reações do público. Mas também se reinscreve em um contexto local, onde o debate sobre identidade, violência e pertencimento continua atual. Em uma cena cultural que frequentemente alterna entre experimentação e acesso, “Tom na Fazenda” se posiciona como um ponto de convergência: teatro de linguagem rigorosa, mas de comunicação direta.

“Tom na Fazenda”

Local: Teatro Alberto Maranhão
Datas: 2 e 3 de maio de 2026
Horário: 19h (sábado e domingo)
Ingressos: disponíveis na Sympla
Duração: 120 minutos
Classificação: 18 anos
Capacidade: 600 lugares
Bilheteria: vendas antecipadas exclusivamente online; ingressos físicos disponíveis apenas duas horas antes de cada apresentação.