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Saúde

Telemedicina é peça-chave para enfrentar o AVC no Brasil, diz Sheila Martins

No Brasil, uma pessoa morre por AVC a cada seis minutos
Correio de Hoje
03/03/2026 | 17:02

Há mais de duas décadas dedicada ao estudo e ao combate do acidente vascular cerebral (AVC), a neurologista Sheila Martins, chefe do serviço de neurologia do Hospital Moinhos de Vento, no Rio Grande do Sul, tornou-se uma das principais vozes na área no país e no exterior. Fundadora da Rede Brasil AVC e ex-presidente da World Stroke Organization, ela acompanha de perto um problema que provoca mais de 80 mil mortes por ano no Brasil.

Em entrevista ao GLOBO durante a International Stroke Conference (ISC), em Nova Orleans, evento ligado à Associação Americana do Coração, a médica destacou avanços e desafios no enfrentamento da doença, além de defender a ampliação da telemedicina como estratégia para reduzir desigualdades regionais.

AVC

No Brasil, uma pessoa morre por AVC a cada seis minutos. Para Sheila, o dado evidencia tanto a gravidade do problema quanto os impactos das oscilações na estrutura do sistema de saúde. Segundo ela, “por mais de 30 anos, o AVC foi a principal causa de morte no Brasil”. Com a criação de centros especializados e a organização do cuidado agudo a partir de 2011, o cenário melhorou e o AVC passou a ocupar a segunda posição, atrás do infarto.

A pandemia de Covid-19, no entanto, alterou esse quadro. “O que era unidade de AVC passou a ser unidade Covid e o atendimento deixou de ser feito como era antes”, afirmou. Como consequência, “o AVC voltou a ser a primeira causa de morte”. Com a reorganização dos serviços, a mortalidade voltou a cair, mas os números seguem elevados.

O problema também se agravou no mundo. Sheila lembrou que “há 20 anos, 1 a cada 6 pessoas teria um AVC ao longo da vida. Esse dado passou para 1 a cada 4 agora”. Além disso, 87% das mortes e sequelas ocorrem em países de baixo e médio desenvolvimento, grupo no qual o Brasil se enquadra. Embora o SUS ofereça atendimento gratuito, a especialista ressalta que o acesso não é uniforme em todo o território.

Estudo coordenado por ela mostrou que 77% da rede habilitada para atendimento de AVC está concentrada no Sul e no Sudeste. “Na Amazônia, não há um centro de AVC do SUS e queremos mudar isso”, afirmou. A médica participa de um projeto com o Ministério da Saúde para mapear serviços que tenham tomografia, laboratório e estrutura mínima para serem adaptados ao atendimento de pacientes com AVC.

Sheila Martins
Neurologista Sheila Martins – Foto: Reprodução

Nesse cenário, ela defende o uso da tecnologia para ampliar o alcance do cuidado. “Ela é fundamental, porque dará acesso ao especialista à distância”, disse sobre a telemedicina. A estratégia permite que médicos em grandes centros orientem o atendimento em hospitais remotos, inclusive na decisão sobre transferências para trombectomia, procedimento cirúrgico minimamente invasivo. “Reduzimos em 60% a transferência desnecessária”, destacou.

Outro ponto de preocupação é o aumento de casos entre pessoas mais jovens. Segundo Sheila, antes cerca de 10% dos pacientes tinham menos de 55 anos; hoje, o índice é de 18%. Nos Estados Unidos, Canadá e Europa, a média de idade para ocorrência de AVC é de 72 anos, enquanto no SUS brasileiro é de 60.

Ela atribui a diferença ao controle inadequado de fatores de risco. “Temos mais fatores de risco não tratados”, afirmou. Além disso, há falhas na prevenção ao longo da vida, desde a infância. A médica defende medidas como educação alimentar nas escolas e combate ao sedentarismo. A popularização dos celulares, segundo ela, contribuiu para reduzir o nível de atividade física entre crianças e adolescentes.

O diagnóstico e o tratamento precoces da hipertensão também são cruciais. Sheila critica a orientação de apenas recomendar mudanças de estilo de vida após a identificação de pressão elevada. “Não existe isso”, afirmou, defendendo acompanhamento mensal e início oportuno da medicação quando a pressão se mantém acima de 140/90 em avaliações repetidas.

Novas drogas utilizadas para tratar diabetes e obesidade também podem impactar o cenário do AVC. Embora a metformina permaneça como primeira escolha na atenção primária, a médica observa que os novos medicamentos “vão atuar fortemente no diabetes, na redução de peso e na diminuição de mortalidade e eventos cardiovasculares”. Ela acrescenta que essas terapias também estão sendo estudadas quanto ao possível efeito na redução do declínio cognitivo.

Outro alerta envolve o uso de hormônios para ganho de massa muscular. Sheila chamou o fator de “mega importante” para o risco de AVC e destacou que jovens podem ficar com sequelas permanentes.
Apesar das dificuldades, ela considera que o Brasil se tornou referência entre países de baixa e média renda por implementar práticas baseadas em evidências científicas. O SUS oferece gratuitamente medicamentos para controle de hipertensão, diabetes, colesterol e fibrilação atrial. Sobre esta última, ela ressaltou que “o tratamento correto reduz em 68% a chance de AVC”. No país, cerca de 1,5 milhão de pessoas convivem com essa arritmia.

Para a especialista, o maior desafio atual está na reabilitação. “Maior gargalo, se a gente for pensar em todo contínuo, é a reabilitação pós-alta”, afirmou. Segundo ela, falta padronização e muitos pacientes demoram meses para iniciar o tratamento, embora a fase inicial seja decisiva para a recuperação. Em março, será lançado, em parceria com a World Stroke Organization, um programa de certificação de centros de reabilitação, modelo semelhante ao já adotado para os serviços de atendimento agudo.

AVC no Brasil em números

  • Mais de 80 mil mortes por ano; uma a cada 6 minutos
  • 77% dos centros especializados estão no Sul e Sudeste
  • 18% dos casos ocorrem antes dos 55 anos
  • Média de idade no SUS: 60 anos (72 anos em países desenvolvidos)
  • Telemedicina reduziu em 60% as transferências desnecessárias
  • Tratamento correto da fibrilação atrial reduz em 68% o risco de AVC