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Desabafo
Técnica que se demitiu após goleiro Bruno ser contratado faz revelações
Rose Costa diz que pediu desligamento ao saber da contratação, recebeu apoio de suas jogadores, mas não conseguiu mais trabalhar após o episódio
Redação
29/08/2020 | 15:25

Se antigamente os espaços no campo profissional eram mais restritos para as mulheres, hoje há uma defesa da sociedade mais igualitária. As desigualdades ainda persistem, mas a luta pelo respeito à representatividade feminina ganha força a mais de 3 mil quilômetros do Ceará. A voz de Rose Costa alertou para um problema vivenciado todos os dias pela nossa sociedade: o feminicídio.

Rose é ex-técnica da equipe feminina do Rio Branco/AC e recebeu a missão do presidente do time, Valdemar Neto, de reerguer o elenco feminino que tinha uma história tradicional em competições nacionais.

O trabalho de Rose começou no início do ano, mas por conta da pandemia de Covid-19, as atividades foram paralisadas. No entanto, em julho, a educadora física pediu desligamento do cargo, após saber da contratação do goleiro Bruno, condenado pelo homicídio triplamente qualificado de Eliza Samudio, além do sequestro e cárcere privado do filho que teve com a modelo, atualmente com 10 anos.

O goleiro teve progressão de pena e está em regime semiaberto desde julho do ano passado.”Eu fiquei sabendo pela imprensa da contratação do goleiro Bruno e, imediatamente, conversei com o dirigente do clube e expus a minha indignação. Rio Branco é um time renomado na nossa cidade, um clube preocupado com a capacidade de formação, cidadania do atleta e coloca como a estrela do time um feminicida”, expõe Rose.

A ex-técnica ainda tentou conversar com os dirigentes, mas a decisão não teria volta. Após a repercussão negativa sobre o desligamento, alguns dirigentes disseram que Rose não tinha vínculo algum com o time. “O presidente chegou até a negar que eu estivesse à frente da equipe feminina. Acho que foi uma forma de tentar que o nome do goleiro fosse abraçado pela cidade”.

Se de um lado houve apoio da diretoria para que o goleiro fosse “abraçado” pelo time, por outro, houve também uma onda de solidariedade em apoio à decisão da técnica Rose Costa. As atletas que eram comandadas por ela se sentiram desrespeitadas e se posicionaram.

Sexto clube

O Rio Branco/AC é 6º time brasileiro que busca o goleiro Bruno para compor o elenco. Antes, Operário/MT, Fluminense/BA, Poços de Caldas/MG, Barbalha e Boa Esporte chegaram a acertar detalhes da contratação, mas desistiram após a repercussão negativa do anúncio.

Rose acredita que é preciso que haja uma ressocialização. Ela diz que não é contra que o goleiro se reintegre à sociedade, mas ela ressalta que, como Bruno foi condenado, deveria cumprir toda a pena na cadeia, longe do posto de ídolo.

“Ele está com tornozeleira eletrônica, como vai atuar no fim de semana? As crianças da categoria de base não sabem da história e já idolatram o goleiro. Como será esse processo, um criminoso envolvido numa morte de uma mulher, esconde o filho e é ídolo?”, questiona Rose.

Desrespeito

Até hoje, Rose está desempregada após a decisão de deixar o Rio Branco. “Nossa sociedade ainda é extremamente machista. Esse machismo não vem só dos homens, mas está velado também com algumas mulheres. Algumas mulheres na cidade fizeram questão de se colocar a favor dele ou achando que o que ele fez já foi pago. Meu entendimento é que as leis foram muito brandas. Ele tá tendo as oportunidades e qual oportunidade que Eliza teve?”, pontuou.

*Com informações do Diário do Nordeste

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