Há quase 37 anos presidente da Academia Norte-rio-grandense de Letras (ANRL), o advogado e escritor Diógenes da Cunha Lima acredita que o Rio Grande do Norte é um estado de grandes potenciais, mas que ainda pouco explora e carece de investimentos. “O RN é um pobre estado rico, as nossas riquezas são únicas. O RN tem minérios, fruticultura, 402 km de costa, turismo, mas é mais ou menos abandonado. O estado tem ainda o potencial de turismo religioso que move o mundo, mas não vai para frente”.
Em entrevista ao AGORA RN, Diógenes da Cunha Lima ressaltou ainda que o estado precisa de mais investimentos na educação para que a cultura possa evoluir. “O poder público não deve fazer arte, mas deve auxiliar, estimular e apoiar os criadores. Estamos carecendo de muitas coisas, promoções culturais, não há preocupação. E também não há possibilidade de desenvolvimento sem educação de qualidade desde a infância até chegar às universidades. Só se muda o Brasil com o alicerce da educação, que é o instrumento de transmissão cultural”, pontuou.

Ele, que segue à frente de uma das mais importantes instituições culturais do estado, mantém o objetivo de contribuir para o crescimento da produção intelectual. A cada três meses, a Academia Norte-rio-grandense de Letras publica uma revista com a história do Estado pelos acadêmicos, e também é aberta a intelectuais de fora. A instituição investe ainda no programa Academia para Jovens, que recebe estudantes e professores para debater a importância da educação e da cultura.
O mais recente projeto da ANRL buscará mapear os pensamentos e pensadores de todas as regiões do RN. “Queremos fazer livros com a visão de autores de cada região do RN, apresentando um perfil biográfico de cada um, e com dez frases que definam o pensamento de cada autor. Vamos começar pelo Seridó, que é uma região fantástica, e o livro será publicado com as mais expressivas fotografias da região. Os açudes, as igrejas, enfim, será um trabalho notável. Em seguida, faremos o mapeamento das outras regiões potiguares. Nós queremos publicar ainda este ano, mas não sabemos se dará tempo porque é uma pesquisa grande”, explicou Diógenes da Cunha Lima.
Para o presidente da Academia, este será um projeto importante para fazer um resgate histórico local. “O Brasil é um arquipélago cultural. Cada estado é uma ilha, não se sabe aqui o que se passa no vizinho. Há vários poetas do RN que deveriam chegar a mais lugares, mas o estado não tem força para levar os seus escritores para fora. A única exceção é Câmara Cascudo, que chegou ao mundo inteiro. Um amigo, certa vez, me ligou e falou que viu um livro de Cascudo em Tóquio, traduzido em japonês. Ele é conhecido em várias partes do mundo, e infelizmente esse é um caso isolado.
Trabalho de Álvaro Dias é inédito e presença dele na Academia é justificável, diz Diógenes da Cunha Lima

No mês passado, o prefeito de Natal Álvaro Dias (Republicanos) tomou posse como novo acadêmico da Academia Norte-rio-grandense de Letras. Ele passou a ocupar a cadeira número 6, que tem como patrono Luís Carlos Wanderley, fundada por Carolina Wanderley e sucessores Gumercindo Saraiva e João Batista Pinheiro Cabral.
Álvaro Dias foi eleito novo acadêmico no dia 9 de maio deste ano. Ele tem dois livros publicados: “O Que Tenho a Dizer”, coletânea lançada em 2022, reunindo discursos proferidos ao longo de sua trajetória política, em especial nos mandatos como prefeito e deputado estadual. Em abril deste ano, ele lançou sua segunda obra, “A Guerra dos Tamoios e a História Não Contada do Brasil”, resultado de uma pesquisa que levou 10 anos para ser concluída e que aborda a escravidão indígena.
Para o presidente da ANRL, o livro sobre a escravidão indígena é inédito e que, por isso, a presença do prefeito na Academia é justificável. “Ao lado de ser prefeito, Álvaro é um historiador. O trabalho dele é inédito, ninguém tinha feito um trabalho sobre os nossos indígenas que foram destruídos. Os trabalhos que existem enfeitam as coisas, como se os indígenas fossem maus e os colonizadores portugueses, bonzinhos. E foi exatamente o contrário”, esclareceu.
Conforme Diógenes da Cunha Lima, o prefeito descobriu e criou uma amostra desse tipo de trabalho. “Então a presença dele na Academia é totalmente justificável, porque ele é um intelectual, um pesquisador, não é só um médico, ele se dedica à cultura. E ele disputou com um dos melhores poetas do RN, Horácio Paiva, mas infelizmente os dois concorreram e um teve que ganhar”.
Academia Norte-rio-grandense de Letras
Fundada em 1936 por Luís da Câmara Cascudo, a Academia Norte-rio-grandense de Letras tem sede na Rua Mipibu, em Petrópolis. Atualmente são 40 membros, homens e mulheres, que mantêm a Academia. Os imortais ocupam as 40 cadeiras. Para a sucessão, é realizada uma votação quando um acadêmico falece. As candidaturas são examinadas, e o candidato ou candidata precisa ter dois livros publicados, no mínimo. A Comissão de Ética avalia a produção e trajetória dos candidatos, e assim é definida a eleição entre os próprios membros, com voto secreto.