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Reflexo
Restaurantes de Natal registram fluxo abaixo do esperado após reabertura
A pandemia do novo coronavírus e o desacerto entre Estado e o município de Natal em torno dos decretos de isolamento social instalou a insegurança entre os pequenos empresários, especialmente do setor de alimentos, que não sabem mais como vão pagar a rescisão dos empregados; setor de alimentos retomou atividades na capital potiguar na última terça-feira (07)
Marcelo Hollanda / Repórter de Economia
11/07/2020 | 08:14

Mais de 100 dias depois de fechar o restaurante que mantém há mais de
oito anos no Alecrim e suspender 13 de seus 17 empregados, mantendo quatro deles no delivery que não vingou, Jean Régis de Oliveira, 47 anos, finalmente abriu as portas de seu estabelecimento esta semana seguindo à risca um protocolo que pareceria insano até o ano passado.

Ao invés das 40 mesas que antes ocupavam o salão de 180 m2, o empresário manteve apenas 10 mesas a uma distância de 2,5 metros uma da outra. Para facilitar as coisas, juntou duas mesas, colocando quatro cadeiras para garantir que os clientes mantivessem um certo distanciamento entre si.

Quando subiu as portas, as primeiras visitas que recebeu foram de um agente do Corpo de Bombeiros; um do Procon e outro da Polícia.

“Depois de mais de três meses fazendo uns trocadinhos, abri de
qualquer maneira porque melhor do que ganhar pouco é não ganhar
nada”, resume Jean, que desde então já pôs à venda um imóvel e um
carro para manter o seu negócio funcionando em meio à pandemia do novo coronavírus. Se vai dar certo, só o tempo dirá.

Apenas entre 16 de março e 20 de junho, o comércio varejista potiguar deixou de faturar mais de R$ 300 milhões. Nos meses de abril e maio, cerca de 10 mil empregos formais foram perdidos só no comércio e serviços e o desemprego, que era de 11,2% em fevereiro, bateu em maio a casa dos 12,3%. Segundo preveem os especialistas, até meados de outubro próximo, cerca de 77 mil potiguares devem perder seus empregos, entre formais e informais.

Segundo o presidente da Fecomércio do RN, Marcelo Queiroz, passados 100 dias de isolamento, 46 mil empresas já fecharam no RN por força dos decretos do Governo do Estado.

“Estas empresas geram cerca de 51 mil empregos e pagam R$ 60 milhões em salários”, ele estima.

Além da folha de pagamento, os empresários ainda dão conta do aluguel do ponto, contas de água, energia, internet, segurança, sistemas de vendas, impostos e fornecedores.

De acordo com Queiroz, mesmo as lojas que tiveram seu funcionamento permitido, por estarem inseridas na relação dos considerados essenciais nos primeiros 100 dias de isolamento social, registram quedas entre 35% e 70% em suas vendas.

Ou seja, mesmo que o comércio todo reabrisse amanhã – o que é muito pouco provável pelos níveis de contaminação do novo coronavírus – a queda brutal de manda e a dificuldades dos pequenos empresários acessarem crédito se encarregariam de inviabilizar os negócios, produzindo o pior e mais perverso lado da crise: o desemprego em massa.

Bares e restaurantes

“Com os comerciantes atrasando suas faturas, os fornecedores não conseguem manter o abastecimento, criando um círculo vicioso de fragilidades”

Pedro Campos, Comerciante

Já a Associação de Bares e Restaurantes do Rio Grande do Norte (Abrasel) sustenta que os três meses iniciais da pandemia provocaram até agora uma perda, por baixo, de oito mil empregos em Natal, apenas no setor de alimentação e diversão. Ou seja, 400 bares e restaurantes a menos.

Procurado para comentar esses números, que são da própria Abrasel local, o presidente da entidade, Artur Fontes, não retornou as ligações.

A grande maioria dos bares e restaurantes foram adicionadas à Medida Provisória do Governo Federal de suspensão por 60 dias dos contratos de parte dos funcionários.

Agora que parte do pesadelo poderia passar com o decreto do município liberando geral para o comércio, o Ministério Público, Ministério Público Federal e Ministério Público do Trabalho do Rio Grande do Norte ingressaram com uma ação civil pública contra a retomada das atividades econômicas adotada pela Prefeitura do Natal no último dia 30 de junho e
ampliada em 07 de julho.

A ação inclui um pedido liminar e cobra que se retomem as medidas de isolamento social vigentes até 29 de junho, só devendo a prefeitura adotar o chamado Plano de Retomada Gradual da Atividade Econômica quando
forem observados os critérios de ocupação abaixo de 70% dos leitos de UTI dedicados ao tratamento da Covid e taxa de transmissibilidade (média de pessoas infectadas por quem possui o vírus) inferior a 1 e se mantendo em queda sustentada. Tudo atestado pelos comitês da Fiocruz, Consórcio Nordeste e Mosaic UFRN.

“Se isso acontecer mesmo, vamos entrar no pior dos mundos”, diz Jean Régis de Oliveira, o dono do restaurante do começo dessa matéria. Natural de Parelhas, no Seridó, ele começou a vida como faz tudo, depois garçom, até comprar o negócio em que trabalhava quando o dono resolveu mudar de ramo.

Expectativa estressante

O presidente da Associação dos Comerciantes do Alecrim, Pedro Campos, bairro que concentra um grande número de restaurantes populares, conta que a preocupação dos micro e pequenos empresários da região é total.
“Tanto que, com a possibilidade de reabrirem agora, eles correram para se cotizar e comprar 200 termômetros de laser digital para medir a temperatura dos clientes, que acabam de chegar”, diz.

O problema, acrescenta, é que, apesar de todos os cuidados, os empresários não conseguem conter a aglomeração na frente do negócio e se sentem como se estivessem enxugando gelo.

De maneira geral, afirma o presidente da Associação dos Empresários do Alecrim, um desânimo crônico já se instalou entre os comerciantes e muitos deles não devem suportar a pressão.

“Tem gente que conseguiu renegociar os aluguéis dos pontos, mas outros proprietários estão inflexíveis e exigem os imóveis de volta. E quando o empresário busca fôlego financeiro nos bancos, bate com a cara na porta”,
completa.

Segundo o superintendente do Sebrae do Rio GRande do Norte, Zeca Melo, Zeca Melo, menos de 20% das pequenas empresas que pleiteiam crédito no Rio Grande do Norte obtém sucesso.

“Dificuldades cadastrais, excesso de garantias, exigências de garantias reais que superam em muito o valor solicitado, burocracia sufocante e uma morosidade revoltante são as causas mais significativas”, afirma.

Zeca atribui à concentração bancária perversa, que alija os pequenos, a natureza de todo o problema. E vai mais longe ao dar nome aos bois.

“O BNDES, por exemplo, está entre as instituições financeiras a viras as costas para a pequena empresa brasileira”, dispara.

Pedro Campos, líder empresarial do Alecrim, tem um palpite para explicar toda essa situação. Para ele, além da queda de demanda sem precedentes, o enfraquecimento financeiro dos fornecedores contribui decisivamente para
agravar a situação.

“Com os comerciantes atrasando suas faturas, os fornecedores não conseguem manter o abastecimento, criando um círculo vicioso de fragilidades”, diagnostica.

Um estudo recentemente fechado na associação presidida por Pedro Campos há dois meses junto às 123 empresas associadas de um universo de 1.600 CNPJs ativos (já foram 4.600 no passado) indica que, passada a pandemia, 30% fecharão as portas. “Isso dá uns 20% do total ativo, muita coisa”, lamenta o dirigente.

Segundo dados da Junta Comercial do Rio Grande do Norte, no ano passado, foi registrado o maior aumento em dez anos no número de empresas abertas no estado, um incremento de 15%.

Já neste ano, até agora, porém, a Jucern anotou uma queda de 25% na quantidade de novos negócios, enquanto os dados de fechamento quase não oscilaram, permanecendo estáveis, embora seja possível que algumas presas tenham de fato encerrado as atividades, mas ainda não tenham buscado a Junta para legalizar a situação.

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