O dirigente da Missão e um dos fundadores do Movimento Brasil Livre, Renan Santos, passou a ser chamado por apoiadores de “Javier Milei brasileiro” ao iniciar sua pré-campanha presidencial. A comparação com o presidente argentino Javier Milei envolve não apenas o estilo provocador e a comunicação direta, mas também a estratégia de usar as redes sociais como principal ferramenta de mobilização.
Em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, Renan afirmou que busca uma linha semelhante à do argentino. “O Milei fez uma campanha de sincericídio. É o que eu estou fazendo também. Ele simplesmente saiu falando o que precisava ser dito. Sem filtro, sem se preocupar com as consequências. Eu só vou falar o que eu acredito. Vou falar mal do Bolsa Família no Nordeste”, declarou.

O pré-candidato diz que inicialmente via Milei com desconfiança, mas passou a se identificar com suas ideias. “Sou uma pessoa muito peculiar. O Milei também é. Não gosto de boa parte das coisas que os brasileiros gostam. Não gosto da cultura brasileira de massa e falo que não gosto. As pessoas vão me eleger para ser presidente, não amigo delas”, afirmou.
Mesmo sem experiência eleitoral, Renan apareceu com 4,6% das intenções de voto na pesquisa Atlas/Bloomberg, desempenho que o coloca em empate técnico com governadores como Romeu Zema e Ronaldo Caiado. O desempenho é mais expressivo entre jovens de 16 a 24 anos, faixa em que atinge 24,7%, além de 7,7% entre homens.
Para o head de análise política da Atlas, Yuri Sanches, o crescimento está ligado à capacidade de comunicação com um público específico. “O que a candidatura de Renan mostra é a capacidade de se comunicar principalmente com homens jovens. Ele dialoga com uma parcela do eleitorado que está começando a se interessar por política, muitas vezes votando pela primeira vez, e faz isso por meio das redes sociais e de um discurso crítico ao sistema político”, disse.
A presença digital tem sido um dos pilares da pré-campanha. Levantamento da AP Exata indica que Renan figura entre os nomes mais mencionados nas redes, atrás apenas do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e do senador Flávio Bolsonaro. “No universo de pré-campanha, o Renan tem gabaritado”, afirmou o CEO da consultoria, Sergio Denicoli. “Ele já consegue aparecer nos debates das redes muito mais do que nos ambientes offline, da política institucional e até da mídia.”
Apesar das comparações com Jair Bolsonaro em 2018, Denicoli avalia que o cenário atual é mais competitivo, com um campo político já estruturado. Ainda assim, Renan tenta ocupar espaço com um discurso antissistema, mas rejeita atuar como aliado de Flávio Bolsonaro — a quem dirige críticas frequentes.
“O PT é como o capeta, é nosso inimigo natural. O Flávio é o judas, inimigo interno. O bolsonarismo é o traidor da causa que se aproveita disso para levar as moedas de prata. O judas e o capeta precisam ser detonados”, disse. Em outro momento, reforçou a estratégia de confronto: “Diferente do Zema, que quer ser vice do Flávio, eu vou atacar o Flávio todas as vezes que for necessário.”
Na avaliação do pré-candidato, Flávio aparece bem nas pesquisas, mas sem apoio consolidado, o que explicaria uma tentativa de se posicionar de forma mais moderada. Monitoramento da AP Exata indica que Renan tem ocupado um espaço mais à direita, o que pode atrair eleitores insatisfeitos com a postura atual do bolsonarismo.
“Ele não pisa em ovos e adota posições mais ideológicas. Isso atrai uma parcela que se frustrou com o movimento mais ao centro”, avalia Denicoli.
Renan disputará a Presidência pela Missão, partido que ajudou a criar em novembro do ano passado. Ao falar sobre referências, evita nomes da política. “Eu sempre me pergunto o que o Ayrton Senna faria e o que o Bob Dylan faria. São as minhas duas referências”, disse. Entre ex-presidentes, cita Fernando Henrique Cardoso como exceção e critica os demais.
A pré-campanha tem priorizado viagens, sobretudo ao Nordeste. Em uma delas, em Caetés (PE), cidade onde Lula viveu, o pré-candidato jogou sal grosso na casa do presidente como gesto simbólico.
Na área de propostas, defende endurecimento penal, com ampliação do encarceramento, e uma agenda econômica liberal. Entre as medidas citadas estão nova reforma da Previdência, mudanças nas regras trabalhistas e investimentos em infraestrutura e energia. Algumas ideias têm repercutido pelo caráter mais radical, como a fusão de municípios e Estados, a retirada de direitos políticos de gestores que não cumprirem metas e a criação de zonas econômicas especiais no Nordeste.
A região, aliás, é tratada como prioridade na estratégia eleitoral. Renan afirma que pretende dialogar com eleitores sem concessões. “Eu vou roubar o eleitor que é filho da mulher que está no Bolsa Família e não quer permanecer no programa. A jovem que está em busca de emprego ou que enfrenta a violência no dia a dia. Há pessoas no Nordeste que não querem vender o voto e estão em busca de uma alternativa”, afirmou.
Nas redes, o pré-candidato tem explorado temas ligados à realidade de pequenos municípios. Em um dos vídeos mais populares, com cerca de 1 milhão de visualizações, critica a estrutura administrativa de uma cidade do interior do Maranhão e propõe sua incorporação a outras localidades.
Apesar da visibilidade, especialistas apontam desafios para o crescimento da candidatura. Segundo Yuri Sanches, a estratégia depende fortemente do ambiente digital e enfrenta limitações ao confrontar simultaneamente diferentes polos políticos.
“É uma campanha que depende bastante da comunicação digital para se tornar conhecida e, nesse processo de ganhar visibilidade, controlar a rejeição. Ao criticar ambos os lados da polarização de forma veemente, Renan acaba limitando seu crescimento junto a uma parcela considerável do eleitorado”, afirmou.
O analista também destaca que o discurso antissistema já foi incorporado no Brasil desde 2018, o que reduz espaço para novos nomes com perfil semelhante.