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Quase 64 milhões de brasileiros não concluíram a educação básica

Levantamento mostra que EJA atende apenas 1,5% da demanda potencial; oferta da modalidade caiu nos últimos anos
Por O Correio de Hoje
08/07/2026 | 15:20

A história de Paulo Ricardo Santos, de 42 anos, representa a trajetória de milhões de brasileiros que interromperam os estudos antes de concluir a educação básica. Aos 23 anos, quando ainda cursava o ensino médio, ele deixou a escola e passou a viver em situação de rua por causa da dependência química.

Quinze anos depois, conseguiu retornar aos estudos por meio de uma turma de Educação de Jovens e Adultos (EJA), organizada pela Fundação Roberto Marinho em parceria com a Redes da Maré. Após concluir o ensino básico, Paulo passou a trabalhar com redução de danos para pessoas em situação de rua e usuários de álcool e outras drogas.

neto lucena Copia
Relatório estima perda anual de R$ 66 bilhões devido à baixa escolaridade - Foto: agência de notícias do acre

Morador do Complexo da Maré, no Rio de Janeiro, ele pretende ingressar no ensino superior.

“Fazer Serviço Social é poder voltar para aquele lugar não mais como quem precisa de ajuda, mas como alguém que pode cuidar de outras pessoas também”, afirma.

A trajetória de Paulo aparece em um cenário revelado por um estudo inédito divulgado nesta semana: o Brasil tem atualmente 63,9 milhões de pessoas com 15 anos ou mais que abandonaram a escola antes de concluir a educação básica. O número representa 37,3% da população nessa faixa etária.

Apesar da dimensão da demanda, a Educação de Jovens e Adultos atende apenas 1,5% desse público.

Os dados fazem parte do relatório “População de 15+ fora da escola, demanda potencial por EJA e transições para o trabalho: diagnóstico e evidências para políticas públicas”, elaborado pela Fundação Roberto Marinho, Fundação Bradesco, Fundação Itaú/Educação e Trabalho e Fundação Arymax, com cooperação da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco).

O levantamento também marcou a criação da Rede EJA e Inclusão Produtiva, formada por 16 organizações da sociedade civil para ampliar o acesso à modalidade e estimular a inclusão no mercado de trabalho.

Segundo o estudo, a redução no número de brasileiros sem ensino básico completo nas últimas décadas não ocorreu principalmente pelo avanço das políticas educacionais. Desde 2012, 51% da queda dessa população aconteceu em razão da mortalidade, enquanto apenas 8% foi resultado da escolarização pela EJA.

Na prática, para cada pessoa que concluiu a educação básica pela modalidade no período, seis morreram sem finalizar os estudos.

“O declínio da demanda não significa que o problema está sendo resolvido. Indica que essa população está envelhecendo e morrendo antes de ser alcançada”, aponta o relatório.

A oferta da modalidade também caiu nos últimos anos. Entre 2008 e 2024, o número de municípios brasileiros sem nenhuma turma de EJA passou de 493 para 1.092.

Das 122.469 escolas de educação básica existentes no país, apenas 24,6% oferecem turmas para jovens e adultos retomarem os estudos.

Os pesquisadores apontam como fatores para esse cenário o baixo investimento histórico na modalidade. Durante 16 anos, a EJA recebeu o menor fator de ponderação do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica (Fundeb), alteração corrigida apenas em 2023.

O estudo também cita a falta de atualização de materiais didáticos específicos — o último material distribuído foi em 2014 — e a baixa oferta de formação específica para professores.

O levantamento estima ainda que a baixa escolaridade provoca uma perda anual de aproximadamente R$ 66 bilhões em renda.

Segundo o estudo, pessoas sem educação básica completa possuem renda domiciliar per capita média de R$ 1.427, enquanto entre aquelas que concluíram essa etapa o valor chega a R$ 2.777.

Os pesquisadores simularam o impacto econômico caso metade da população com ensino básico incompleto, cerca de 32,5 milhões de pessoas, concluísse os estudos. Nesse cenário, o ganho seria equivalente a 0,6% do Produto Interno Bruto (PIB).

“É uma perda que ocorre todo ano, não por ausência de demanda, mas por ausência de política”, afirma o relatório.

O estudo também identificou diferenças entre homens e mulheres nas razões para abandonar a escola.

Entre os homens, o trabalho aparece como principal motivo tanto para deixar os estudos quanto para não retornar. O emprego foi responsável pela evasão de 53,9% deles quando jovens e continua sendo a principal barreira para 61,7% dos que não voltaram às salas de aula.

A realidade é semelhante à vivida por José Paulino, de 75 anos. Natural do interior de Pernambuco, ele cresceu em uma região sem escolas e começou a trabalhar ainda criança na agricultura familiar.

Aos 20 anos, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde trabalhou na construção civil e nunca frequentou a escola.

“A pobreza era demais. Quando cheguei aqui, só me interessava no trabalho. Eu trabalhava noite e dia. Se tivesse pensado, o estudo era melhor”, conta.

Hoje, José vende roupas como camelô na Central do Brasil.

Já Francisco Tarcísio, de 80 anos, deixou a escola ainda jovem por causa da distância até a unidade de ensino. Ao chegar ao Rio de Janeiro, conseguiu se alfabetizar pelo Movimento Brasileiro de Alfabetização (Mobral).

“Se eu não tivesse estudado no Mobral, não conseguiria trabalhar no comércio. Eu aprendi a fazer conta”, afirma.