Um conjunto de iniciativas articuladas entre lideranças comunitárias e moradores tem buscado transformar a realidade social da região da Praia do Meio, na Zona Leste de Natal. A partir da atuação integrada de uma associação comunitária, uma cooperativa de resíduos sólidos e um projeto vinculado à universidade, o trabalho reúne ações de assistência social, qualificação profissional, geração de renda e atendimento em saúde mental, com foco em populações em situação de vulnerabilidade.
A iniciativa tem como um de seus principais articuladores o médico psiquiatra Francisco Rodrigues, que atua há décadas aliando cuidado com saúde mental e trabalho comunitário. Ele conta que a origem do projeto remonta à sua atuação inicial como médico em comunidades populares da capital.

“Quando eu me formei, comecei a trabalhar no conjunto Santa Catarina e logo comecei a perceber que não era somente passar medicamento que iria ajudar aquelas pessoas”, afirmou ele, em entrevista ao podcast Conexão Saúde. O episódio está disponível no YouTube do Agora RN.
A partir da constatação de que o contexto social contribui para o surgimento ou não de transtornos psíquicos e outros desequilíbrios, Dr. Rodrigues — como é chamado — passou a atuar diretamente nos territórios, ampliando o olhar para além da consulta clínica.
O projeto evoluiu ao longo dos anos e hoje se estrutura em diferentes frentes, com destaque para a Associação Cristã de Moradores e Amigos da Praia do Meio, presidida por Luzimar Ferreira, e uma cooperativa de resíduos sólidos e serviços, que tem Paulo Henrique de Lima como um dos dirigentes. Em participação no Conexão Saúde, eles contaram que a proposta é integrar ações assistenciais com iniciativas que promovam autonomia econômica e inclusão social.
Luzimar ressalta que o território onde o projeto atua apresenta profundas desigualdades. Ele destaca que, apesar dos benefícios trazidos pelo turismo, há também desafios sociais que exigem intervenção organizada.
Nesse contexto, uma das principais frentes de atuação é a qualificação profissional. A associação passou a oferecer cursos e realizar encaminhamentos para o mercado de trabalho, buscando reduzir a dependência de ações assistenciais. “Atualmente, nós estamos cadastrando as pessoas e já iniciamos um trabalho de profissionalização, profissionalizando as pessoas para inseri-las no mercado de trabalho”, explicou o presidente.
O modelo adotado inclui a oferta de cursos pela própria associação, além da articulação com parceiros institucionais e empresariais. “Nós já temos algumas empresas, alguns empresários que nós cadastramos. Nós oferecemos os cursos, elas se profissionalizam e nós já encaminhamos para o mercado de trabalho”, acrescentou. Entre as áreas contempladas, estão cursos voltados ao setor de alimentação, com novas turmas sendo iniciadas em breve.
A estrutura do projeto também conta com apoio de agentes públicos. Segundo Luzimar, a associação recebeu apoio do deputado estadual Adjuto Dias, que destinou recursos para fortalecer as ações.
Cooperativa
Paralelamente à atuação da associação, a cooperativa de resíduos sólidos surgiu como resposta à demanda por emprego dentro da comunidade. Paulo Henrique de Lima, vice-presidente, relatou que a iniciativa nasceu a partir de reivindicações dos próprios moradores. “A associação tinha um papel muito assistencialista, mas o pessoal reclamava a questão do emprego”, disse.
A partir dessa demanda, foi estruturada a cooperativa, com foco na coleta e destinação de resíduos recicláveis. A proposta é gerar renda a partir da atividade, ao mesmo tempo em que contribui para a melhoria ambiental da região.
Atualmente, cerca de 20 pessoas participam diretamente da cooperativa, que ainda enfrenta limitações estruturais, como a falta de sede própria. Ele relatou tratativas com a Prefeitura do Natal para viabilizar um local adequado para funcionamento. O grupo tenta uma reunião com o prefeito Paulinho Freire (União) para apresentar os detalhes do projeto e buscar sensibilizar a gestão municipal.
Além da geração de renda, o projeto incorpora ações voltadas à saúde mental, com destaque para o enfrentamento da dependência química. Francisco Rodrigues destacou que essa é uma das principais demandas identificadas na comunidade. “Uma questão muito dramática é a dependência química, que envolve tanto os dependentes como aqueles outros que estão também na outra área, na questão do tráfico”, disse o psiquiatra.
A estratégia adotada inclui o encaminhamento de pacientes para comunidades terapêuticas parceiras, além do acompanhamento clínico e social. Um dos exemplos citados pelo médico é o de um ex-dependente que hoje atua como colaborador do projeto. “Esse rapaz conseguiu se recuperar, construiu uma comunidade terapêutica e hoje dá à nossa associação uma cortesia de uma ou duas pessoas que podem receber a assistência para tratar da sua dependência química”, relatou.
O trabalho também contempla atendimentos psiquiátricos gratuitos no Hospital Severino Lopes, onde Dr. Rodrigues atende regularmente. “Com permissão da direção do hospital, eu abro esse espaço para atender essas pessoas que são encaminhadas pela associação”, afirmou Rodrigues.
Espiritualidade e ações sociais
Outro eixo estruturante da iniciativa é a dimensão espiritual, incorporada como elemento complementar às ações sociais e de saúde. Atividades como estudos bíblicos e encontros semanais fazem parte da rotina do projeto.
Para Rodrigues, essa dimensão tem impacto direto no bem-estar dos participantes. “Eu percebo muitas vezes uma pessoa que chega para uma consulta e vejo que não é aquela medicação que vai resolver. Às vezes é a falta de sentido na vida”, afirmou. Ele acrescentou que o envolvimento em atividades voluntárias pode contribuir para mudanças significativas.
As ações do projeto também incluem eventos comunitários de grande alcance, como celebrações no Dia das Crianças, festas juninas e atividades natalinas. Segundo Rodrigues, apenas uma dessas ações chegou a atender cerca de 500 pessoas.
Apesar da abrangência das iniciativas, os organizadores reconhecem que ainda há desafios, especialmente na comunicação e ampliação do alcance das ações. Uma das propostas em discussão é a criação de um jornal comunitário para divulgar o trabalho.