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Cultura

Produção cultural precisa unir propósito, público e mercado, afirma Amaury Júnior

Produtor defende curadoria alinhada ao público e celebra projetos consolidados no Rio Grande do Norte
Redação
29/01/2026 | 05:25

Diretor da Idearte Produções, empresa que completa 15 anos em 2026, Amaury Júnior afirma que a produção cultural precisa ter propósito e dialogar com o público, sem se afastar das exigências do mercado. Em entrevista à TV Agora RN nesta quarta-feira 28, ele disse que produzir cultura é uma missão. “Existe um propósito. Eu tenho que levar para as pessoas aquilo que eu acredito também”, declarou.

Amaury destacou que não realiza projetos que não consumiria. “Eu não produzo nada que eu não assistiria, que um filho meu não assistiria hoje”, afirmou. Segundo ele, a curadoria dos espetáculos considera o interesse do público e a diversidade de linguagens. “Como curador dos projetos, dos espetáculos, eu penso com o que o público quer ver”, disse.

Produção cultural precisa unir propósito, público e mercado, afirma Amaury Júnior
Amaury Júnior afirma que suas escolhas passam por critérios pessoais e de curadoria - Foto: José Aldenir/Agora RN

À frente da Idearte Produções, Amaury celebrou o aniversário da empresa. Ele afirmou que a produtora faz parte de sua trajetória pessoal. “A Idearte é intrinsecamente a minha vida”. Entre os projetos realizados pela Idearte ao longo dos 15 anos de existência, Amaury citou iniciativas que integram a cena cultural de Natal, como grandes encontros musicais, Festim – Festival de Teatro Infantil de Natal e Palco Brasil.

Ele também ressaltou a gestão do Projeto Seis e Meia, feita pela Idearte em parceria com o produtor William Collier. O projeto completou 30 anos em 2025 e foi reconhecido como patrimônio imaterial e cultural do Rio Grande do Norte após sanção de uma lei pela governadora Fátima Bezerra (PT) no início do mês.

Amaury comentou sobre o desafio de conciliar arte e mercado. “É ‘linkar’ a arte com o mercado, com as questões comerciais”, afirmou. Ele lembrou que já foi criticado por produzir espetáculos considerados comerciais, como Galinha Pintadinha, Backyardigans, Patati Patatá, LazyTown, High School Musical e outros. “Eu sempre dizia isso: a gente tem que ter a isca”, disse, ao explicar que esses produtos ajudam a viabilizar a apresentação de outros conteúdos.

Natural de Pernambuco, Amaury falou da trajetória que construiu no RN nos últimos 30 anos. “Tudo que eu tenho, tudo que eu sou, eu devo a Natal, eu devo ao estado do Rio Grande do Norte”, declarou. Segundo ele, a missão da Idearte é promover arte e cultura com propósito. “A Idearte é isso, é essa empresa que tem por missão promover a arte e a cultura com propósito”, concluiu.

Mercado de eventos de Natal sofre impactos da falta de equipamentos

Amaury afirmou que o mercado de eventos e da produção cultural em Natal ainda enfrenta impactos estruturais e econômicos, agravados pela pandemia da Covid-19. Ele apontou a falta de espaços adequados para a realização de eventos, os altos custos de produção e a fragilidade da economia local como entraves para o desenvolvimento do setor no Rio Grande do Norte.

“As pessoas que iam toda semana ao Teatro Riachuelo passaram a ir uma vez a cada 15 dias. Quem ia a cada 15 dias passou a ir uma vez por mês. Quem ia uma vez por mês passou a ir a cada três meses ou dois meses. E quem ia uma vez por ano já não está mais indo.” Ele reforçou que a cultura é um direito constitucional e cobrou mais democratização do acesso.

Segundo Amaury, a carência de equipamentos culturais é um dos principais desafios do mercado local. “Primeiro, a falta de espaços, de equipamentos para múltiplos eventos. Esse é o grande desafio”, declarou. Ele destacou que, atualmente, o Teatro Riachuelo é a única grande casa de espetáculos da cidade. “Até hoje, a gente tem uma cidade que só tem o Teatro Riachuelo como uma grande casa”, disse.

O produtor cultural também comentou sobre as limitações do Teatro Alberto Maranhão (TAM), localizado na Ribeira. “É um teatro de pequeno, médio porte, que não atende a tantas produções”, afirmou. Amaury acrescentou que o teatro enfrenta dificuldades relacionadas ao entorno. “É um teatro público que sofre com o seu entorno, isso dificulta. O público de Natal já não quer ir para o Teatro Alberto Maranhão”, disse, ressaltando que turistas também deixam de frequentar o espaço.

Em relação ao Teatro Riachuelo, Amaury afirmou que a agenda lotada e os custos elevados impactam produtores e público. “O Riachuelo vive com a pauta lotadíssima, não dá. E aí com custos altíssimos, também não cabe nem tanto para os produtores e também impacta para o público”, declarou. Ele informou ainda que apenas uma parcela da população da capital teve acesso ao equipamento. “A gente ainda tem uma métrica, mais ou menos, que cerca de 8% a 10% da população de Natal que entrou no Teatro Riachuelo”, disse.

Ele citou ainda a Arena das Dunas, mas destacou limitações. “A Arena das Dunas é um grande equipamento, muito mais para o entretenimento do que para o esporte”, disse, ao afirmar que a cidade ainda não conseguiu sediar shows internacionais. Ele comparou a capital potiguar com Mossoró, afirmando que, apesar de menor, a cidade se vende culturalmente com mais força.

Amaury destacou que há um público ainda não alcançado pela produção cultural. “Então você imagine quantas pessoas ainda não entraram. É uma dimensão de público que a gente pode atingir ainda”, afirmou. Ele também citou fatores econômicos que dificultam o setor, como o custo das passagens aéreas. “Natal tem a malha aérea mais cara do Brasil, isso dificulta”, disse.

Outro ponto levantado pelo produtor cultural foi a falta de reconhecimento da economia criativa como um setor estratégico. “Uma economia fragilizada que não tenha ainda esse costume de entender que a área cultural, a economia criativa, é uma plataforma de negócios importante”, afirmou. Segundo ele, houve avanços na percepção dos artistas. “Os artistas entendem também que é um negócio, que nós estamos dentro de uma indústria e isso não é pejorativo”, declarou.

Amaury afirmou que a profissionalização do setor contribui para o desenvolvimento da produção cultural. “Ele é um trabalhador da cultura, nós somos, eu sou, da economia criativa. E a profissionalização ajuda o crescimento e o desenvolvimento do próprio segmento”, disse. Ao final, avaliou que o Estado ainda enfrenta dificuldades para avançar nessas questões. “O Rio Grande do Norte como um todo não consegue avançar nessas questões”, concluiu.

Entraves nas leis de incentivo

O produtor acredita que as leis de incentivo à cultura no Rio Grande do Norte enfrentam entraves que impactam diretamente o setor e reduzem recursos para a economia criativa. Ele citou problemas tanto na legislação municipal quanto na estadual e destacou a diminuição do orçamento destinado à área.

“A gente estava na vanguarda, vamos dizer assim, na lei de incentivo à cultura, municipal e estadual. Estamos com problemas com as duas”, disse. Segundo Amaury, a lei municipal Djalma Maranhão teve redução de recursos ainda na gestão anterior à atual. “Nós tivemos na administração passada uma redução significativa de 2% para 1%, e essa diminuição continua, então é menos recursos injetados na economia criativa, no setor cultural, é uma perda de 50% do orçamento e ainda não retomou, não temos renúncia até o presente momento, já estamos no final do mês e não tem renúncia”.

Sobre a lei estadual Câmara Cascudo, Amaury avaliou a situação como “gravíssima”. “Se aprovou mais projetos do que se deveria, não temos renúncia, a lei não abriu para novos projetos, e aí engessa e inviabiliza continuidade de grandes projetos”, afirmou. Ele citou como exemplo o Projeto Seis e Meia. “Ano passado, nos seus 30 anos de existência, a gente realizou a temporada inteira sem o guarda-chuva nem da Lei Djalma Maranhão, nem da Lei Câmara Cascudo, com o projeto tendo patrocinador para ambos. Mas a gente manteve o projeto”, disse.

Amaury ressaltou que os problemas não se restringem a um único produtor. “Eu falo também isso como presidente da Associação de Produtores Culturais do Estado, e é importante a gente dizer que não é uma coisa só minha. Vários produtores passam por isso”. O produtor defendeu a necessidade de reduzir a dependência do poder público.

Grupo Idearte

Amaury falou também sobre a estruturação do Grupo Idearte, que tem a Idearte Produções como uma das operações. Sobre o grupo, além do entretenimento, ele inclui rádio, televisão e plataforma de venda de ingressos.

“Ano passado nós tivemos a felicidade da aquisição da Rádio Clube, que fez história aqui na nossa cidade”, disse. A emissora integra uma rede com 54 rádios e alcance de cerca de 40 milhões de ouvintes. Em Natal, opera no dial 106.3 FM e completou um ano de retorno em janeiro.

Amaury também falou sobre a aquisição da TV União, que passou a se chamar TV Clube, com nova programação prevista para depois do Carnaval. “Estamos concluindo o rebranding para estrear a nova programação”, afirmou. “Todas as nossas empresas estão interligadas. É a produtora, com uma plataforma de venda de ingressos, com rádio e TV que divulgam. A gente está construindo esse ecossistema completo de entretenimento e comunicação”.